Cansado de travar no vestiário, sem aparecer, o duelo em que se transformou a disputa pelo poder no MDB do Espírito Santo, Lelo Coimbra resolveu calçar as luvas e subir no ringue. Mas, no outro corner, o adversário que aparece em sua entrevista não é seu oponente interno no MDB – o ex-deputado federal Marcelino Fraga – e sim o governador Renato Casagrande (PSB). Em uma entrevista repleta de declarações duras, o presidente estadual do MDB mira, principalmente, o queixo do governador.
Pela primeira vez, Lelo dispara publicamente algo que ele e seus aliados já acusam há muito tempo a baixa voz: o Palácio Anchieta viria operando, via Secretaria de Governo e na figura do próprio governador, a fim de levar votos para Marcelino e derrotá-lo na convenção estadual do MDB. “Quem está disputando o partido não é Marcelino, mas sim o governo Casagrande.”
Isso, sempre segundo Lelo, por conta de outro personagem: Paulo Hartung. Ou, mais precisamente, do “fantasma do ex-governador” e do medo nutrido por Casagrande de que, se Lelo permanecer no comando do MDB, Hartung usará o partido como plataforma contra ele no Estado.
“Na sexta-feira, o governador, pessoalmente, chamou um delegado do MDB no Palácio Anchieta para pedir voto pro Marcelino. Isso no dia em que a população estava sofrendo com bandido na rua, e ele pedindo voto pra partido. É o avesso do avesso do avesso!”, acusa Lelo, sem nominar o delegado e repetindo uma das citações preferidas do próprio Hartung.
“O Paulo Hartung desencarnou da política capixaba, mas parece que continua sendo o tempo todo um fantasma para o governador. É impressionante como esse fantasma fez com que ele recebesse delegado do MDB no dia em que a população sofria com ataques. O Paulo desencarnou da política do Estado, mas o Renato não desencarnou do Paulo. Eu não sei se isso é paixão ou se é temor. Virou assombração. Ele deve ir dormir pensando no Paulo”, ironiza.
Apesar de todas as evidências, Lelo evita falar em crise no MDB-ES: “A crise é o fantasma de Paulo Hartung, com o qual está lidando quem trabalha contra mim”, insiste. Ele admite, porém, que o interminável impasse sobre a direção estadual do partido gera instabilidade para os emedebistas a menos de dois meses para o fim do prazo para filiação dos pré-candidatos nas próximas eleições municipais (4 de abril).
Na última sexta-feira (14), a Justiça decidiu que a chapa de Marcelino (Muda MDB) poderia participar, sub judice, da convenção estadual marcada para domingo (16) pela Comissão Estadual Provisória, presidida por Lelo, líder da chapa MDB Independente. No sábado (15), alegando instabilidade jurídica, Lelo cancelou a convenção. Mesmo assim, no domingo, Marcelino e seus apoiadores promoveram uma convenção improvisada, com urna de papelão, na Praça Getúlio Vargas, no Centro de Vitória.
Para Marcelino, o ato teve valor legal. Para Lelo, já entrou na galeria do folclore político. “A convenção, aliás o evento na praça, que está mais para folclore do que para qualquer evento partidário, não tem valor legal algum. Não tem nenhum elemento nem de âncora judicial nem de âncora política. É um movimento de quem não aceitou que a convenção fosse supensa.”
Confira, abaixo, a entrevista completa de Lelo: