O crédito imobiliário brasileiro cresceu 23% no primeiro semestre de 2026, mesmo em um período marcado por juros elevados. As operações para aquisição e construção de imóveis movimentaram R$ 180,9 bilhões entre janeiro e junho, ante R$ 147,1 bilhões no mesmo período do ano passado, segundo a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).
O desempenho, inclusive, superou as projeções iniciais da entidade, que estimava um crescimento de 16% para o ano (volume de R$ 375 bilhões). Diante dos números apurados, a Abecip confirmou que revisará a estimativa anual para cima.
Ao todo, cerca de 850 mil imóveis foram financiados de janeiro a junho, somando operações via Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), FGTS e fontes livres.
“O crescimento de 23% do crédito imobiliário no primeiro semestre reforça a resiliência do setor para a economia e para as famílias brasileiras. Vimos avanços expressivos no FGTS, com destaque para o Minha Casa Minha Vida, e alta de 12% na aquisição via SBPE. Ao mesmo tempo, a elevação da curva de juros prefixada pressiona o custo do funding e reforça a necessidade de diversificarmos as fontes de recursos do setor, complementando a poupança com instrumentos como as LCIs (letras de crédito imobiliário)”, afirma o presidente da Abecip, Michel Cury.
O financiamento com recursos do SBPE somou R$ 93,7 bilhões para aquisição e construção no semestre — avanço de 29% em comparação aos R$ 72,9 bilhões do mesmo período em 2025. As operações voltadas à construção registraram crescimento de 107%, passando de R$ 12,8 bilhões para R$ 26,5 bilhões, marcando a retomada do setor aos patamares históricos observados entre 2021 e 2024.
Para o diretor da Gava Crédito Imobiliário e da Ademi Secovi-ES, Ricardo Gava, o desempenho acima do esperado demonstra a importância de preservar os pilares que sustentam o mercado. Um dos principais deles, segundo ele, continua sendo o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). As operações realizadas com recursos do fundo somaram R$ 77,6 bilhões no primeiro semestre, avanço de 22%, impulsionado principalmente pelo programa Minha Casa, Minha Vida.
“Embora tenha sido criado para proteger o trabalhador, desde sua origem o FGTS também foi estruturado para financiar a habitação e projetos de interesse social, permitindo que milhões de famílias, especialmente as de menor renda, conquistassem a casa própria. Por isso, é fundamental preservar seu papel na política habitacional brasileira e evitar que o fundo seja direcionado, cada vez mais, para finalidades que reduzam sua capacidade de financiar o acesso à moradia”, afirma Gava.
Outro avanço importante, na avaliação do especialista, é a evolução das fontes de financiamento. Durante muitos anos, o crédito imobiliário ficou dependente dos recursos da poupança, que há bastante tempo registra mais saques do que depósitos. Nos últimos cinco anos, a retirada líquida da caderneta chegou a R$ 273 bilhões. Somente no primeiro semestre de 2026, as saídas superaram os depósitos em R$ 31 bilhões.
“O crescimento das operações com recursos livres e de novas fontes de funding representa um passo importante para reduzir essa dependência e dar mais sustentabilidade ao crédito imobiliário no longo prazo”, avalia Gava.
Segundo ele, a ampliação das alternativas de captação também beneficia a construção civil, ao permitir maior previsibilidade no financiamento dos empreendimentos e oferecer condições mais competitivas aos compradores, especialmente durante a fase de obras.
Mesmo com o custo do crédito ainda em um patamar elevado para os padrões históricos, o setor segue mostrando força. Para Gava, esse desempenho demonstra que a demanda por moradia continua aquecida.
“O desafio agora é preservar esse equilíbrio, fortalecendo o FGTS como instrumento da política habitacional, ampliando as novas fontes de financiamento para reduzir a dependência da poupança e avançando para um cenário de juros mais acessíveis, acrescenta.
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