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Park Chan-wook mostra seu talento em 'A Única Saída', apesar de tiques

Diretor adapta livro que também foi filme de Costa-Gavras. Domínio da linguagem contrasta com tendência ao histérico

Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 11:05

Cena do filme 'A Única Saída', de Park Chan-wook
Cena do filme 'A Única Saída', de Park Chan-wook Crédito: Reprodução filme

Há uma nova onda de cinema sul-coreano que se fortaleceu desde o Oscar de melhor filme vencido em 2020 por "Parasita", de Bong Joon Ho. Um dos responsáveis por iniciar essa onda é o cineasta Park Chan-wook, quando seu "Oldboy", de 2003, se tornou objeto de culto internacional. Houve até uma refilmagem nos Estados Unidos, por Spike Lee, em 2013.

O diretor chega agora aos cinemas brasileiros com "A Única Saída", baseado em livro de Donald E. Westlake, o mesmo que já havia originado, em 2005, "O Corte", de Costa-Gavras, a quem este novo filme é dedicado.

Esta versão sul-coreana, ao menos no início, tem cenas que parecem de comercial de margarina, com a família feliz se abraçando num jardim e os cachorros ao redor. Depois, a trama de Westlake se impõe e o filme entra decididamente no humor sombrio, como na versão de Costa-Gavras.

Yoo Man-su, personagem de Lee Byung-hun, é um funcionário bem remunerado no ramo da papeis especiais. Quando perde o emprego, encontra dificuldade de reinserção no mercado de trabalho. As entrevistas são humilhantes, suas esperanças diminuem cada vez mais.

Desesperado, planeja eliminar todos os que, segundo ele, poderiam conseguir uma vaga em seu lugar, na sua função específica. É uma linha semelhante à da clássica comédia inglesa "As Oito Vítimas", de 1949, de Robert Hamer, quando o protagonista decide eliminar todos que estão na sua frente na linhagem para se tornar duque.

O humor entra principalmente por conta da incompetência de Man-su na hora de executar o plano. Situações de crime recebem um tratamento irônico e muitas vezes a construção da imagem é responsável pela comicidade. Nesse ponto, Park Chan-wook é bem-sucedido.

Logo no começo de "A Única Saída", há uma reunião em que o protagonista é colocado pelos entrevistadores numa cadeira invadida por uma forte luz refletida do prédio espelhado em frente.

A situação lembra os testes que o advogado interpretado por Charles Laughton faz com as pessoas que entrevista, em "Testemunha de Acusação", de 1957, de Billy Wilder, para saber em quem confiar ou não.

É um teste meio furado do ponto de vista da verossimilhança, pois muita gente tem sensibilidade a luz forte nos olhos, mas funciona no filme antigo, como funciona aqui - não tanto como teste e, sim, como elemento proposital de desconforto.

É certamente um teste para o espectador, que tem a luz contra ele nos momentos em que a câmera assume o ponto de vista de Man-su, numa escolha levemente ousada de Chan-wook.

Mais adiante, depois que a mãe pergunta para a pequena filha se os homens da casa escondem segredos por quererem morrer, a filha repete, já sozinha na sala "querem morrer?". Um movimento para a direita mostra a mãe do lado de fora da casa, falando com o filho algo que não ouvimos. Corta para o lado de fora, o filho no balanço, e só então ouvimos a mãe falando com ele. Belo jogo de percepções.

Em outros momentos, é interessante o modo como a filha procura se isolar do que considera estressante –notícias ruins, a presença da polícia, entre outras coisas. Detalhes que podem parecer irrisórios fazem diferença na concepção geral da direção.

"A Única Saída" tem outros detalhes assim, que enriquecem a encenação pelo domínio da linguagem cinematográfica, além de enquadramentos de composição caprichada, o que valoriza seu aspecto visual.

Ao mesmo tempo, a direção revela alguns tiques meio irritantes, comuns ao cinema cômico oriental, como angulações bizarras que mais atrapalham do que ajudam na criação da atmosfera, caretas e gritos que afastam o filme da ironia e o levam para um lado grotesco.

É bem exemplar dessa confusão o confronto com a primeira real vítima, Bummo, sua esposa presente, a música pop em alto volume, a gritaria, a reviravolta nas ações, a fuga pelo bosque flagrada numa posição de câmera especial. Na mesma sequência, vemos o melhor e o pior de Park Chan-wook, sua capacidade de encenador e sua tendência ao histérico.

Seu cinema cheio de ideias é irregular, mas raramente desprezível. Por vezes brilhante, torna-se incômodo e afetado já na cena seguinte. É pouco provável que algum dia faça uma obra-prima. Parece igualmente distante de fazer algo pavoroso —embora "Lady Vingança" tenha chegado perto.

Melhor ver filmes de um cineasta assim, que se arrisca bastante, dentro e fora dos modismos de ocasião, do que se contentar com a pasmaceira habitual do cinema comercial.

A ÚNICA SAÍDA

- Avaliação Bom

- Quando Estreia nesta quinta (22), nos cinemas

- Classificação 16 anos

- Elenco Lee Byung-hun, Son Ye-jin e Woo Seung Kim

- Produção Coreia do Sul, 2025

- Direção Park Chan-wook

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