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'Hamnet' foge do discurso shakespeariano e escolhe emocionar com ações

Obra mostra a história por trás da peça “Hamlet”, de William Shakespeare, pelos olhares da esposa do dramaturgo, Agnes

Publicado em 9 de março de 2026 às 08:00

“Hamnet” foge do discurso shakespeariano e escolhe emocionar com ações.
“Hamnet” foge do discurso shakespeariano e escolhe emocionar com ações. Crédito: Divulgação/Universal Pictures

Por André Cypreste

Se o fantasma do pai de Hamlet clama a frase “lembra-te de mim” ao filho, “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” não precisa de súplicas para marcar a memória de uma geração. A produção, por si só, já é algo marcante: a junção dos renomados Steven Spielberg (“E.T”; “Indiana Jones” e “Jurassic Park”) e Sam Mendes (007 - Operação Skyfall), com a direção de Chloé Zhao (“Nomadland” e “Eternos”) adaptam o best-seller de Maggie O’Farrell.

Os primeiros pontos positivos aparecem na ambientação, com a natureza fazendo um papel próprio dentro do filme, se tornando mentora e confidente de Agnes, vivida por Jessie Buckley. A personagem é vista com maus olhos pelo povo, que julgam sua conexão e domínio da flora como uma espécie de bruxaria.

Isso muda com a chegada de um jovem intelectual, que admira a expertise de Agnes e se apaixona por sua personalidade. Eles não falam isso até o último ato, mas seu nome é William Shakespeare (Paul Mescal), uma pessoa que busca ser reconhecida por seu talento com a literatura e as palavras.

A união dos dois é feita sob a aprovação da “magia” que guia Agnes, magia essa que livra uma de suas filhas da morte, mas que não evita a partida do pequeno Hamnet, de 11 anos. Aqui cabe um destaque: Jacobi Jupe, que vive o personagem que dá nome à obra, performa brilhantemente o papel que lhe é atribuído. A forma como ele flutua entre as camadas do texto e apresenta o amor como um propósito maior é tocante, ditando o tom do filme dali em diante.

“Hamlet
“Hamlet" é a peça escrita por Shakespeare para retratar o luto da perda do filho. Crédito: Divulgação / Universal Pictures

A atuação de Buckley, trazendo a dor de uma mãe, a culpa por não proteger o filho e a sua tentativa de manter as forças pelo bem de sua família, a tornam a favorita para o Oscar de melhor atriz. Por vezes, a performance não passa por palavras, mas na forma como a expressão corporal transmite a mensagem que o público precisa assimilar.

Agnes é a base forte que enfrenta o luto calada, trabalhando internamente para se manter firme e externamente para criar suas filhas. William, por outro lado, é ausente. Ele escolhe a arte como a maneira de enfrentar sua dor, buscando a perfeição dramática para honrar a memória do filho.

O ato final é encerrado com perfeição, com a primeira exibição do drama “Hamlet” marcando o rito de passagem de Hamnet para o descanso eterno. A metalinguagem nos coloca em meio aos espectadores do teatro, desejando pegar a mão do jovem ator com cabelos loiros pintados, que se entrega ao amor, após libertar o fantasma do pai.

Apesar de cumprir o papel, Mescal não eleva o personagem ao tom que a história precisava, por vezes parecendo destoar do que Buckley e Jupe fazem pela emoção que a trama pede. Trama essa, que poderia ter mais de Agnes do que nos foi mostrado. Ela é o coração e corpo do filme, mas as escolhas da diretora Chloe Zhao faziam com que muitos cortes tirassem o foco do olhar da protagonista, optando pela visão de um Shakespeare vazio, que não era tão interessante quanto a esposa.

Entre o “ser ou não ser”, eis a questão: “Hamnet: a vida antes de Hamlet” é doloroso, mas transforma o luto em uma forma de arranjar um legado que marque o amor pela eternidade. A vida após Hamnet, será de maior valorização aos afetos, às demonstrações de carinho e dos momentos de união. Em uma escala de 5 estrelas, Hamnet merece 4,5.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de HZ.


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