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Publicado em 1 de março de 2026 às 12:00
Eu poderia começar a falar de O Agente Secreto abordando qualquer aspecto, afinal, é o filme do momento. Mas vou iniciar este texto com o que mais me chamou a atenção: a seleção de elenco maravilhosa. Estamos acostumados a ver os mesmos atores famosos e renomados nos filmes nacionais, muitas vezes ignorando o contexto geográfico que a história retrata. >
Aqui, a produção nos presenteia com interpretações brilhantes de artistas locais e até de pessoas que nunca tinham atuado. É um elenco convincente, com cara de Brasil, jeito de Brasil e cheiro de Brasil. >
Outro ponto que merece aplausos é a ambientação. A trama se passa em 1977, e o figurino, os cenários e as caracterizações nos transportam exatamente para aquele ano. Os carros, os prédios, os figurinos, os pequenos detalhes: tudo é muito bem construído. Há um cuidado evidente em cada elemento visual, o que torna a experiência ainda mais prazerosa.>
A história começa muito bem e prende a atenção do espectador. A narrativa flui ao longo do filme, com surpresas e uma até uma reviravolta interessante. Mas ouso dizer, correndo o risco de desagradar alguns, que o final deixou a desejar. Não que eu esperasse um encerramento no estilo “felizes para sempre”, como nos filmes de super-heróis, nem uma grande cena final de impacto, mas ficou a sensação de que algo estava faltando.>
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Antes de chegar a esse desfecho, vale um alerta: O Agente Secreto não é um filme para pessoas apressadas, acostumadas a vídeos de poucos segundos no TikTok. É um filme arrastado, com cenas longas. Particularmente, acho que isso dá charme à produção e nos obriga a prestar atenção nos detalhes, e eles são muito bem feitos. Para alguns, pode ser cansativo, mas é justamente essa construção mais lenta que nos deixa curiosos, esperando que algo grande aconteça.>
Wagner Moura entrega uma atuação incrível. Seu olhar melancólico transmite a dor de quem viveu e continua vivendo tristezas, perdas e injustiças. Também chama atenção o mistério em torno das mulheres da vida de Marcelo. O Brasil apagou a mãe dele da história, assim como apaga tantas outras pessoas? O que aconteceu com Fátima, sua esposa? Teria sido mais uma vítima da ditadura militar?>
Curiosamente, é uma mulher quem tenta ajudá-lo na trama, e também é uma mulher quem resgata essa história no futuro, impedindo que ela seja esquecida. O Brasil tem a mania de esquecer suas próprias histórias ( e, quando digo “Brasil”, falo também de nós, brasileiros). O trauma permanece com quem viveu. Permanece com Fernando, o filho do protagonista, e permaneceu com Marcelo Rubens Paiva, autor de Ainda Estou Aqui, filho de Rubens e Eunice.>
O cinema tem cumprido um papel importante ao tornar eternas histórias como essa, mostrando ao mundo o Brasil e seus muitos “Brasis” e escancarando como nossa memória é frágil. Aproveitando que citei Fernando, preciso elogiar novamente Wagner Moura. Para quem ainda não assistiu, vale explicar que ele também interpreta o filho já adulto. E faz isso de maneira impressionante: deixa de ser Marcelo diante dos nossos olhos. O olhar de Fernando é mais leve, mais esperançoso, nos levando para distante da ditadura militar e suas marcas.>
Mas, voltando ao final: ele não faz jus à grande produção que o antecede. A jovem estudante que escutou os áudios de Marcelo se tornou uma ponta solta. Ainda assim, isso não diminui a força do filme. O Agente Secreto é uma obra que incomoda, provoca e nos faz pensar, e talvez seja justamente essa a sua maior qualidade. Em uma escala de 5 estrelas, O Agente Secreto merece 4,5.>
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