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Publicado em 10 de março de 2026 às 10:10
Uma nova adaptação de Frankenstein, dirigida por Guillermo del Toro, naturalmente gera expectativa. O cineasta mexicano já mostrou em outros trabalhos que tem talento para transformar histórias fantásticas em narrativas interessantes e premiadas. O filme chega forte à temporada de premiações e recebeu nove indicações ao Oscar 2026, incluindo Melhor Filme, além de categorias técnicas como Direção de Arte, Figurino, Maquiagem e Penteado, Fotografia, Som e Trilha Sonora Original. >
Inspirado no clássico de Mary Shelley, publicado em 1818, o longa acompanha o cientista Victor Frankenstein, um homem brilhante e obcecado pela ideia de superar os limites da morte. Em sua busca por conhecimento e poder, ele cria uma criatura a partir de partes de cadáveres, um experimento que rapidamente foge do controle e desencadeia uma relação marcada por ressentimento, rejeição e vingança.>
A primeira parte do filme flui muito bem. O ator Oscar Isaac constrói um Victor Frankenstein arrogante, egocêntrico e dominado pela própria ambição, em uma atuação convincente e merecedora de aplausos. Existe uma dualidade interessante ali: Victor é claramente perturbador em suas decisões, mas ainda assim mantém um fascínio e brilho nos olhos que cativam o espectador.>
Visualmente, o filme é impressionante. Os cenários são grandiosos, a fotografia é muito bonita e o figurino ajuda a deixar as cenas ainda mais deslumbrantes. Nesse aspecto, fica fácil entender por que o longa aparece com força nas categorias técnicas do Oscar. É um daqueles filmes que realmente enchem os olhos.>
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A história também traz uma perspectiva interessante quando mostra que o verdadeiro monstro é o próprio ser humano. A criatura, interpretada por Jacob Elordi, demonstra empatia, sensibilidade e até cuidado com o outro, qualidades que faltam às pessoas que o rejeitam. Existe ali uma reflexão sobre intolerância, medo do diferente e à própria violência que a humanidade reproduz.>
O roteiro, na minha opinião, deixa a desejar. Alguns acontecimentos parecem desconectados ou pouco convincentes dentro da lógica da própria história. Um exemplo é a decisão do Capitão Anderson de colocar toda a tripulação em risco ao decidir dar abrigo a um homem que ele não conhece (Victor Frankenstein) no navio preso no gelo. >
Enquanto os tripulantes estão com frio, vulneráveis e feridos após um ataque da criatura, o capitão decide simplesmente ouvir a história de vida daquele estranho, que está confortável em um quarto dentro do navio. >
Aliás, a narrativa se desenvolve justamente por meio dessas histórias contadas. Primeiro o cientista relata os acontecimentos ao capitão, e depois a própria criatura também passa a contar sua versão. Particularmente, achei essa estrutura desnecessária. Seria muito mais interessante se os eventos simplesmente se desenrolassem na tela, sem depender tanto da narração dos personagens.>
Outro ponto que me incomodou foi a construção da própria criatura. Na primeira aparição em cena, ela é mostrada como um ser extremamente violento, capaz de matar várias pessoas. Porém, ao longo do filme, a imagem construída é completamente diferente: vemos um personagem sensível, que só deseja viver em paz e ser ouvido por seu criador. >
Mesmo quando atacado, ele raramente reage com violência, exceto contra Victor. Essa diferença entre a introdução do personagem e o que vemos depois acaba criando uma certa incoerência.>
A única mulher que possui algumas cenas com fala é Mia Goth, que interpreta dois personagens. Ela vive Claire Frankenstein, que aparece no início do filme, mãe dos irmãos Frankenstein, que morreu no parto, e Lady Elizabeth Harlander, noiva de William Frankenstein. Ambas têm poucas falas e destinos trágicos.>
Elizabeth demonstra compaixão e empatia pela criatura, o que a coloca no centro do conflito entre Victor e o monstro. Algumas críticas chegaram a sugerir que ela teria desenvolvido um interesse amoroso pela criatura, mas essa leitura me parece exagerada. O fato de ela ter se encantado por um ser curioso e diferente não significa que tenha existido uma atração ou interesse sexual.>
Na prática, o papel dela no filme acaba sendo bastante limitado. Elizabeth serve basicamente para alimentar conflitos masculinos. Apesar de ser noiva de William Frankenstein, Victor se interesse por ela logo a primeira vista, interessando-se por sua beleza e juventude. Ela só serviu para ser objeto de desejo dos homens.>
A personagem reforça alguns estereótipos clássicos sobre a mulher: a figura sensível, sonhadora, empática, e que não é ouvida por ninguém. A grande Mia Goth foi mal aproveitada no filme.>
Apesar dessas questões, o final do filme é bonito e emocional. Victor finalmente pede desculpas à criatura. Ela o perdoa e consegue se libertar dos sentimentos de raiva e dor que carregou durante toda a história. É um momento forte, que fecha bem o arco emocional dos personagens.>
Mas o desfecho também deixa uma pergunta importante: qual será o destino da criatura? Ela nunca conseguiu viver em sociedade, sempre foi tratada como um monstro e perseguida. No final, simplesmente sai do navio e vai embora. Embora para onde? Talvez essa dúvida faça parte da proposta da história. Ainda assim, fica uma sensação de que algo poderia ter sido melhor desenvolvido.>
No fim das contas, Frankenstein é um filme visualmente deslumbrante, com boas atuações e reflexões interessantes, mas que tropeça em escolhas narrativas e deixa algumas pontas soltas. Em uma escala de 5 estrelas, merece 3.>
Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de HZ.
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