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Publicado em 11 de março de 2026 às 13:10
Um jovem jogador de tênis de mesa, movido por uma ambição quase obsessiva, está disposto a ultrapassar qualquer limite para ser reconhecido como o melhor do mundo. Ao ler a sinopse de Marty Supreme, confesso que minha primeira impressão foi de que se trataria de mais uma história previsível, daquelas em que os Estados Unidos tentam reafirmar, mais uma vez, sua ilusão de superioridade.>
E, de certa forma, o filme realmente toca nesse ponto. A narrativa explora como essa mentalidade do "sonho americano" atravessa a sociedade e molda até mesmo alguém de origem judaica, como o protagonista Marty Mauser. No entanto, o longa vai além dessa leitura superficial e constrói algo muito mais interessante.>
Marty Supreme segue a clássica estrutura da jornada do herói: começo, desenvolvimento e um desfecho bem resolvido. O filme aposta no “básico” muito bem executado. Diferentemente de produções mais arrastadas, como O Agente Secreto, que aposta em sequências longas e ritmo mais lento, o longa de Josh Safdie é frenético. >
A narrativa é dinâmica, transmitindo ao espectador a ansiedade, o desespero e até a respiração acelerada do protagonista. Como em uma partida de pingue-pongue, tudo muda rapidamente. As situações se sucedem com velocidade e tensão suficientes para que o tédio jamais encontre espaço.>
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E há ainda um elemento que merece destaque absoluto: a atuação de Timothée Chalamet. Sua interpretação de Marty Mauser é simplesmente brilhante. O personagem é um anti-herói clássico, alguém capaz de atropelar pessoas e princípios para atingir seu objetivo: tornar-se o maior jogador de tênis de mesa do mundo. Chalamet encontra o tom perfeito. Ele vive o personagem com intensidade e cria uma figura que o público ama odiar.>
Confesso que, em muitos momentos, senti um enorme “ranço” de Marty ao longo da história. Ao mesmo tempo era impossível não admirar a performance do ator, o olhar, os pequenos gestos, as expressões sutis e, por fim, o choro de felicidade que encerra sua trajetória. Chalamet dosa o caos do personagem de forma precisa: Marty é irritante, egoísta e provocador, mas, apesar de todo o “ranço”, nos faz respirar de alívio junto com ele na cena final.>
Não se poderia esperar menos de um filme dirigido por Josh Safdie. A ambientação na Nova York da década de 1950 é minuciosa e convincente. Cada detalhe, das cores aos figurinos, passando pelos carros, cenários e pelas tensões sociais da época, contribui para transportar o público para aquele período. Esse cuidado ajuda a explicar por que Marty Supreme conquistou nove indicações ao Oscar 2026, incluindo Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Ator.>
O roteiro é preciso: não há buracos narrativos nem pontas soltas. A direção de Safdie constrói um protagonista que é ao mesmo tempo detestável e carismático, e mantém o equilíbrio dessa dualidade ao longo de toda a história. O filme surge como um forte candidato a levar algumas estatuetas e é uma grande pedra no sapato de O Agente Secreto nas premiações.>
Porém, apesar de todos os méritos do filme, algumas controvérsias recentes podem impactar sua trajetória na temporada de premiações. Situação semelhante ocorreu no ano passado com Emilia Pérez, quando declarações da atriz Karla Sofía Gascón vieram à tona e acabaram prejudicando a campanha do longa. >
Em fevereiro deste ano, a revista Variety publicou que Timothée Chalamet afirmou que manifestações artísticas como o balé e a ópera já não teriam a mesma relevância para o grande público. Em tom irônico, chegou até a imitar um tenor diante da plateia. A declaração repercutiu mal entre profissionais dessas áreas, críticos e parte do público. Instituições tradicionais, como o Metropolitan Opera, nos Estados Unidos, e o Royal Ballet and Opera, no Reino Unido, criticaram publicamente o comentário em suas redes sociais.>
Ainda assim, deixando as polêmicas de lado e avaliando apenas a força do filme, Marty Supreme é uma obra que merece reconhecimento. Em uma escala de cinco estrelas, o longa merece as cinco.>
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