Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 10:36
"Se a vida fez de mim mulher dama, vou fazer do mundo um bordel", diz, com rebeldia, Grazi Massafera, que usa um vestido extravagante, da época do Brasil colonial, dando voz à protagonista de "Dona Beja". Ela divide a cena com Pedro Fasanaro, pessoa não binária que na novela encarna uma mulher transexual salva da fogueira por Beja. >
São figuras e diálogos que escancaram o tom contestador e erótico do folhetim a ser lançado na segunda que vem pela HBO Max.>
Ainda nesse clima de ousadia, na cena seguinte vemos Beja numa cachoeira, com as vestes encharcadas e transparentes, enroscada ao corpo do amado, com vontade de transar. O homem se recusa porque eles ainda não se casaram. Em resposta, Beja levanta a saia para se masturbar ao ar livre.>
Na esteira da também sensual "Beleza Fatal", que inaugurou a aposta da HBO Max em novelas brasileiras, "Dona Beja" goza das liberdades do streaming para escandalizar. A intenção do canal é reciclar a linguagem do folhetim, formato que por décadas ficara preso às amarras da TV aberta, que não pode ousar demais se quiser patrocinadores.>
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Grazi prevê que esse misto de erotismo e debate social irrite o público conservador -mas ela vê algo positivo aí. "Para a gente, vai criar audiência e, para os interessados, reflexão. Quem não estiver interessado vai falar mal, mas é assim que as coisas são. Já está tudo tão polarizado mesmo.">
A plataforma HBO Max também está pronta para a briga, diz Renata Rezende, executiva da Warner, empresa mãe da plataforma. "A audiência estava sedenta por esse tipo de conteúdo. Virão críticas, mas nossa essência é ousar, como era a de Beja também.>
A personagem é inspirada numa mulher que existiu de verdade, Ana Jacinta de São José, nascida no início do século 19. Conhecida como Beja, ela chocou a sociedade por ter sido mãe solteira, o que era considerado ultrajante. Livros que narram sua história foram transformados numa novela exibida pela TV Manchete há 40 anos. Maitê Proença, no papel principal, também fez cenas que chocaram os noveleiros.>
O remake agora no streaming reforça essa ideia de que Beja jamais foi uma mocinha comportada e que desenvolveu o seu espírito justiceiro ao crescer à margem de seus pares. "Ela afrontou a sociedade da sua época e faz isso com a atual", afirma Grazi.>
As cenas de sexo do folhetim não são só muito picantes, como também fogem do mamãe e papai tradicional. Serão cerca de 80 momentos do tipo, disse à reportagem a coordenadora de intimidade Roberta Serrado em entrevista no set da novela, em 2024.>
Serrado foi uma das pessoas que ajudou a orientar o elenco também em cenas mais delicadas, de abuso sexual e outras violências. "Não fiquei com medo, pelo contrário. É uma forma de abordar esses temas", conta Grazi.>
Na história, Beja é sequestrada pelo ouvidor do rei de Portugal. Tempos depois, quando se liberta, a personagem volta já rica para a cidade mineira de Araxá, onde cresceu, mas é mal recebida, considerada uma safada. Decide então chocar ainda mais e abre um bordel.>
Com essa personagem, Grazi alcança um feito -faz duas protagonistas em novelas de diferentes canais ao mesmo tempo. O lançamento de "Dona Beja" ocorre em meio a "Três Graças", folhetim das nove da Globo que deu à atriz a vilã Arminda.>
Isso era impensável até anos atrás, quando a Globo protegia suas estrelas com contratos fixos. Grazi teve um acordo com a emissora por 16 anos, até 2021, quando o canal passou a aderir ao modelo de escalação por obra específica.>
Ver a atriz no ar na Globo e na HBO Max, portanto, é sintoma do chacoalhão que acomete a teledramaturgia, com novelas da Globo em queda de audiência, o streaming se apropriando do formato e as redes sociais firmes na jogada.>
E o elenco de "Dona Beja" agradece. André Luiz Miranda, que interpreta João, um dos pretendentes de Beja, diz ver o momento atual como uma chance de reduzir os altos e baixos do setor.>
João disputa o coração da protagonista com Antônio, personagem de David Junior. Os dois são homens pretos, livres, e trabalhadores, numa síntese da vontade que a novela tem de mostrar que não havia apenas negros escravizados no Brasil daqueles tempos.>
Personagens pretos convivem em harmonia com brancos, embora estes ainda temessem revoltas. Numa cena, guardas prendem rapazes negros e dizem que ali não é o Haiti, em referência à Revolução Haitiana, revolta de escravizados ocorrida anos antes.>
Apesar disso, às vezes dá para considerar que "Dona Beja" faz um retrato otimista demais de uma sociedade que era, essencialmente, muito racista. "É possível que uma pessoa ou outra veja ali certa romantização. Mas a gente não apagou a dor. Eu precisava fazer escolhas e quis mostrar a ascensão, as conquistas", diz Daniel Berlinsky, o roteirista da novela.>
Ele se deu liberdade diante de acontecimentos históricos para brincar com a história de Beja. Permitiu, por exemplo, que ela tivesse comportamentos que alguns podem achar revolucionários demais -como na cena em que conhece Severina e de pronto entende se tratar de uma mulher trans, usando pronomes femininos, como ninguém mais nem sequer cogitava fazer nessa época.>
"Como uma menina que cresceu ouvindo que poderia ser sultão, ou o que mais quisesse, não poderia ser tão à frente do seu tempo?", questiona o roteirista.>
Quando uma historiadora disse a ele que seria muito difícil uma mulher trabalhar como pintora, papel de uma personagem, naquela região, Berlinsky bateu o pé e ouviu dela que isso ainda era pouco provável, embora não impossível. "Isso já me bastava", afirma o autor.>
DONA BEJA>
Quando Estreia nesta segunda-feira, dia 2>
Classificação 16 anos>
Autoria Daniel Berlinsky>
Elenco Grazi Massafera, André Luiz Miranda e David Junior>
Produção Brasil, 2026>
Direção Hugo de Sousa>
Onde ver HBO Max>
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