Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 10:10
No último Festival de Veneza, em setembro do ano passado, o filme "A Voz de Hind Rajab" parecia imbatível na disputa pelo Leão de Ouro. Foi com surpresa e resmungos que se soube, na premiação, que o longa da tunisiana Kaouther Ben Hania tinha levado o segundo troféu mais importante, o grande prêmio do júri, que soou como mera consolação diante da derrota para "Pai Mãe Irmã Irmão", do americano Jim Jarmusch.>
Muito se especulou sobre o quanto o tema espinhoso possa ter influenciado na escolha do júri. O longa conta a história de Hind, palestina de cinco anos que perdeu parentes e ficou presa em um carro, após o veículo ser atacado por forças israelenses em Gaza, em janeiro de 2024.>
A menina falou por telefone com membros do Crescente Vermelho - a Cruz Vermelha do mundo islâmico - , que tentaram entretê-la enquanto buscavam um modo de resgatá-la. O áudio da gravação viralizou na web, e a tragédia de Hind se tornou um ícone do massacre do atual governo de Israel contra civis em Gaza.>
Se ganhar Veneza já não foi possível, menos provável ainda parece ser uma vitória no Oscar de filme internacional, categoria na qual o longa disputa, entre outros, com o brasileiro "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho. Afinal, um filme tão abertamente contra as atitudes de Israel há de encontrar resistência em Hollywood, onde o lobby israelita sempre teve enorme força.>
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"Não sei ainda como faremos, vamos ver", disse a cineasta, ainda em Veneza, quando indagada sobre como seria possível promover seu longa entre os votantes do Oscar. Muito embora, já naquela época, vários astros hollywoodianos, como Brad Pitt, escancarassem seu apoio, inclusive se tornando produtores-executivos da obra, depois de verem o material filmado.>
Hania tinha por plano um outro projeto quando teve acesso ao áudio de 70 minutos com as falas de Hind. "Quando ouvi a gravação, foi um dos momentos mais doloridos da minha vida", diz a cineasta, que foi tomada por uma súbita indignação, que a fez improvisar algum filme sobre a história da garota.>
"Senti uma grande impotência em relação ao que estava acontecendo em Gaza. E como ela pedia ajuda, essa sensação foi amplificada. E eu pensei, isso é algo que o cinema pode transmitir.">
Hania não teve muito tempo para elaborar de que forma transmitiria a história em um longa, mas logo optou por manter os áudios originais com a voz de Hind, mas mostrar apenas trechos no escritório do Crescente Vermelho, com atores interpretando os paramédicos de Gaza.>
"Pensei que o ponto de vista que melhor traduziria a sensação de impotência seria o das pessoas que estavam ao telefone com ela. Porque eles estavam impotentes naquele instante, o que é horrível, porque o trabalho deles é salvar vidas", diz.>
"Mas eles se deparam com a máquina kafkiana da ocupação israelense, que torna a vida deles completamente impossível. Precisam seguir regras absurdas para meramente enviar uma ambulância para salvar uma criança. Vivemos em países onde, quando uma criança precisa de ajuda, a ambulância chega em oito minutos. Não é o caso em Gaza.">
Reencenar trechos mostrando o sofrimento da garota dentro do carro é uma ideia que jamais passou pela cabeça da cineasta. "A voz de Hind deveria ser ouvida, não esquecida. Então, quando eu estava concebendo o filme, para mim era impossível usar uma atriz jovem e fazê-la repetir o que Hind disse. Que significado teria? Nenhum, e teria sido de mau gosto.">
Ainda assim, há quem tenha achado o procedimento de manter a voz real da menina uma ferramenta de manipulação emocional do espectador em prol de uma causa política. Hania reconhece que seu filme tem um posicionamento, mas diz que a ideia era preservar a memória de Hind e lembrar ao espectador que aquilo aconteceu verdadeiramente.>
"Para mim, era importante ancorar essa história na realidade. E a de Gaza é um horror. O filme é um suspense, tem esse código, mas eu me perguntava se as pessoas, ao assistirem, poderiam pensar que é um thriller rotineiro, sobre o resgate de uma garotinha, como tantos outros. Então, conectar essa história a um elemento real foi muito importante para dizer: não, não é um suspense, é a realidade. Que é horrível e está além da imaginação.">
O longa foi rodado em três semanas, em novembro de 2024, em um estúdio na Tunísia. Mas o elenco era todo formado por atores palestinos.>
"Eles já trazem consigo suas histórias e seu passado. E todos eles conhecem o caso de Hind e se comoveram com ele", justifica a diretora. "O que eu fiz foi praticamente não dirigi-los. Em todas as ligações telefônicas, eles só repetiam o que as pessoas reais tinham dito. Filmamos a jornada emocional de cada ator e encontrei o equilíbrio na montagem. Então, não eram bem atuações: eram também pura catarse", diz a cineasta, que resume em duas frases a principal reação que ela não espera de seu longa.>
"Não estou fazendo este filme para deixar as pessoas confortáveis. Porque em Gaza ninguém anda tendo uma vida confortável.">
A VOZ DE HIND RAJAB>
- Quando Qui. (29)>
- Onde Nos cinemas>
- Classificação 14 anos>
- Elenco Amer Hlehel, Clara Khoury, Motaz Malhees>
- Produção Tunísia, França, 2025>
- Direção Kaouther Ben Hania>
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