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Crítica

A Sociedade da Neve, na Netflix, acerta ao misturar fé e canibalismo

Drama do espanhol Juan Antonio Bayona, cotado ao Oscar 2024, promove um debate centrado na perspectiva das pessoas que sobreviveram a um trágico acidente aéreo
Gustavo Cheluje

Publicado em 04 de Janeiro de 2024 às 14:44

Cena do filme espanhol A Sociedade da Neve, que estreia na Netflix
Cena do filme espanhol A Sociedade da Neve, que estreia neste mês na Netflix Crédito: Netflix
Aplausos efusivos no Festival de Veneza, 8 indicações ao Goya (maior prêmio do audiovisual ibérico), cotado ao Oscar de Melhor Filme Internacional (deve perder para o inglês Zona de Interesse) e relativo sucesso nos cinemas brasileiros. Essas são algumas das credenciais do drama espanhol A Sociedade da Neve, que estreia nesta quinta (4), na Netflix, cercado de expectativas.
A especulação sobre a excelência do filme se confirma ainda no início da projeção. Bom diretor, e afeito ao cinema catástrofe, vide o sucesso de O Impossível (2012), onde resgata o tsunami que praticamente destruiu a Tailândia, em 2004, Juan Antonio Bayona acerta ao fazer de A Sociedade da Neve um filme intimista, centrado na perspectiva das pessoas que sobreviveram a um dos mais trágicos acidentes aéreos da história.
Não tem pirotecnia, narrativa exagerada (a queda do avião é filmada de maneira discreta), cenas de ação mirabolantes e melodrama excessivo. O que importa é o relato das dores e superações das 16 pessoas resgatadas na Cordilheira dos Andes, questionamentos morais e a negação do rótulo de "herói" que lhes foi dado por parte da imprensa. Bayona aposta no humanismo e, em alguns momentos, é ousado, ao conduzir seu filme com imagens quase documentais.
Se você ainda não conhece a trama por trás do filme, vamos a ela. Baseado no livro homônimo de Pablo Vierci (também autor do ótimo Matar a Todos), "Sociedade" conta com o aval dos familiares dos sobreviventes, sendo fiel ao acidente aéreo na Cordilheira dos Andes que chocou o mundo em 1972.
Naquele ano, o voo 571 da Força Aérea Uruguaia foi fretado para levar um time de rúgbi de Montevidéu para um jogo em Santiago (Chile). O avião sofreu uma queda no Vale das Lágrimas, nos Andes argentinos. Dos 45 passageiros, 16 sobreviveram. Os remanescentes enfrentaram neve, falta de comida e situações insalubres, precisando tomar atitudes extremas para continuar vivos. Após 72 dias de tortura, dois conseguiram chegar ao Chile e encontrar ajuda.
A história foi contada em várias produções, como o mexicano Sobreviventes dos Andes (1976), de René Cardona, A Sociedade da Neve (2007), do uruguaio Gonzalo Arijón, ou mesmo o descartável e apelativo norte-americano Vivos (1993), de Frank Marshall.  
A título de curiosidade, anualmente, durante o verão, pessoas obcecadas pela história fazem uma espécie de romaria até o local do acidente, prestando condolências e homenagens aos mortos.  

CANIBALISMO E FÉ EM A SOCIEDADE DA NEVE

Outro elemento que tira a produção do lugar-comum é a opção de usar como principal narrador - uma espécie de condutor moral coletivo - uma pessoa que não sobreviveu ao desastre, no caso ​​Numa Turcatti (o uruguaio Enzo Vogrincic, em atuação contida, mas emocional). Dá uma visão mais ampla sobre o acidente e a batalha - ou mesmo a derrota - contra a morte. 
Em nenhum momento Bayona esquece seu objetivo: focar as lentes nos entraves compartilhados pelos remanescentes. No melhor deles, está a dúvida sobre praticar ou não canibalismo. O instinto de sobrevivência, em poucos dias, fala mais forte em um local sem comida e sem perspectivas. 
Como ressaltado, a Sociedade da Neve não é um filme que apela para a narrativa fácil, portanto, o antropofagismo não é mostrado em cenas grotescas ou mesmo explícitas. Os estômagos mais fracos agradecem. 
A Sociedade do Anel foi filmado nos Andes, na América do Sul, e na região de Sierra Nevada, na Espanha
A Sociedade do Anel foi filmado na Cordilheira dos Andes, Uruguai, e na região de Sierra Nevada, na Espanha Crédito: QUIM VIVES/NETFLIX
Tudo passa pela questão moral. Muitos dos passageiros, católicos fervorosos, questionam o pecado da prática, mesmo que seja para manter-se vivo (a discussão viver ou morrer permeia todo filme).
A fé, nesse ponto, ressalta a luta contra a natureza. Em meio a acidentes, desastres, avalanches, locais inóspitos e desespero, sobra espaço para questionamentos e memórias afetivas.  
Há uma metáfora (ou seria embate?) religiosa que possibilita uma espécie de "eucaristia", defendendo o uso do sangue e do corpo de outras pessoas para viver. Assistimos cenas no mínimo intrigantes, como as que mostram pessoas permitindo antecipadamente que comam sua carne em caso de morte. Uma "comunhão" ressaltando companheirismo e amor que pode soar complexo e causar polêmica e discussões fervorosas, especialmente entre os mais religiosos. 
Bayona, sabiamente, ignora elementos especulados na época do acidente, na década de 1970, como a suspeita de que a experiência tornou os sobreviventes "pós-humanos", abandonando a humanidade em prol da sobrevivência, ou mesmo o fato de alguns terem praticados autoflagelo, comendo a própria carne, após o incidente da avalanche que obrigou os passageiros a ficarem soterrados nos escombros. 
É desnecessário ressaltar a qualidade técnica de "A Sociedade da Neve", afinal, a excelência nesse quesito é uma obsessão de Juan Antonio Bayona desde seu primeiro sucesso internacional, o horror emotivo "O Orfanato". Tudo soa perfeito, desde a trilha sonora de Michael Giacchino como a fotografia assinada por Pedro Luque Briozzo Scu. Sua paleta ressalta a neve em vários tons, passando do azul polar ao branco cintilante, que mistura sol ao inverno andino. A beleza que procede à dor. 

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