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Opinião

"A Odisseia": Christopher Nolan acerta na releitura, mas repete um velho problema

Em vez de se adaptar à mitologia, Nolan adapta a mitologia a si mesmo: o resultado é menos uma odisseia de aventuras e mais um estudo sobre culpa e as consequências da guerraom pouco espaço e pouca profundidade
Aline Almeida

Publicado em 08 de Agosto de 2026 às 08:00

Filme "A Odisseia"
Filme "A Odisseia" Reprodução Filme "A Odisseia"

Transformar um clássico como A Odisseia em filme já é, por si só, um desafio enorme. E faz sentido que essa missão tenha caído nas mãos de Christopher Nolan. Poucos diretores hoje conseguem conduzir produções dessa escala com tanta segurança. A questão nunca foi se o filme seria bonito ou tecnicamente impecável, isso já era esperado. 


A dúvida era outra: será que Nolan conseguiria adaptar seu estilo, tão marcado pelo hiper-realismo, para uma história cheia de deuses, monstros e elementos da mitologia grega? A resposta é curiosa. Em vez de adaptar seu cinema à obra de Homero, Nolan adapta Homero ao seu cinema.


Quem conhece a filmografia do diretor sabe que ele gosta de brincar com o tempo. E aqui isso faz muito sentido. A própria narrativa de A Odisseia já não segue uma ordem linear, então Nolan aproveita essa característica para contar a história do jeito que mais gosta. O vai e vem temporal funciona muito bem para conectar a jornada de Odisseu ao sofrimento de quem ficou em Ítaca esperando sua volta.


Mais do que uma aventura épica, o filme fala sobre culpa. E esse, para mim, é o grande acerto da adaptação.


Ao contrário da Ilíada, que celebra as batalhas e a glória da guerra, A Odisseia é uma história sobre o que acontece depois que ela acaba. Nolan entende isso muito bem. Seu Odisseu é um homem profundamente marcado pelo que viveu em Troia. A guerra não terminou quando ele deixou o campo de batalha. Ela continua existindo dentro dele.


O diretor faz uma leitura bem contemporânea da obra ao mostrar um protagonista assombrado pelas consequências das próprias escolhas. Odisseu é um herói, mas saí do cinema com o questionamento “um herói pra quem?”, tendo em vista que ele foi responsável por diversas mortes, inclusive de seus próprios companheiros.


O filme não romantiza o herói. Pelo contrário: questiona o tempo todo quem pagou o preço por suas vitórias. Odisseu continua sendo um grande guerreiro, mas também é um homem falho, culpado e emocionalmente devastado. No fim das contas, seu maior desejo já não é conquistar territórios, mas encontrar paz.

Christopher Nolan acerta ao revisitar Homero e erra ao deixar as mulheres em segundo plano
Christopher Nolan acerta ao revisitar Homero e erra ao deixar as mulheres em segundo plano Reprodução Filme "A Odisseia"

Visualmente, não tem muito o que discutir. O filme é impecável. Nolan mais uma vez mostra por que é um dos diretores mais respeitados do cinema atual. Cada cena parece pensada nos mínimos detalhes, e a grandiosidade da produção nunca engole a história.

Mas nem tudo funciona tão bem

Uma das coisas que mais me incomodou foi a forma como as personagens femininas são tratadas. O elenco reúne grandes atrizes, mas elas passam todo o filme orbitando ao redor dos homens. Faltam momentos em que realmente possam mostrar quem são, o que pensam e qual é o peso delas dentro da narrativa.


E isso não chega a ser uma surpresa para quem acompanha a carreira de Nolan. Até hoje, o diretor nunca teve uma protagonista feminina em seus filmes. Algumas mulheres até conseguem papéis importantes para a trama, mas raramente ocupam o centro dela. Em A Odisseia, isso fica ainda mais evidente, principalmente porque a própria obra original oferece espaço para figuras femininas muito interessantes.


Tenho a impressão de que essa visão ainda bastante conservadora sobre os papéis de homens e mulheres acaba limitando um pouco o alcance das histórias que Nolan conta. Talvez seja justamente isso que falta para que sua filmografia alcance um outro patamar.


Também senti falta de mais profundidade em alguns personagens. O filme tem quase três horas, mas, ainda assim, vários deles parecem passar rápido demais pela história. Alguns cumprem sua função e desaparecem antes que a gente consiga criar uma conexão maior com eles. Saí com a sensação de que havia espaço para desenvolver melhor essas relações e explorar mais as motivações de parte do elenco.


Ainda assim, A Odisseia é um grande filme. Não porque seja uma adaptação fiel de Homero, mas porque Nolan consegue transformar um clássico em uma obra com a sua cara, sem perder de vista os temas que tornam esse poema tão atual. No fim, a viagem de Odisseu deixa de ser apenas uma aventura repleta de monstros e passa a ser uma reflexão sobre trauma, culpa, pertencimento e o difícil processo de reconstruir a própria vida depois da guerra.


Talvez essa não seja a melhor adaptação de A Odisseia. Mas é, sem dúvida, uma adaptação que só Christopher Nolan poderia fazer. De 5 estrelas, A Odisseia merece 4.

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