Curadora, ambientalista e arquiteta de formação, Lélia Wanick Salgado é a mente e o coração que organiza o vasto legado visual de Sebastião Salgado. Recentemente, ela esteve em sua terra natal, Vitória, para a inauguração do Museu do Cais das Artes, em Vitória, que abriu suas portas com a monumental exposição "Amazônia".
Morando na França há décadas, Lélia descreve a emoção de trazer esse trabalho para "casa": “Eu sou capixaba. Nasci lá na Praia do Canto... estou muito feliz de trazer essa exposição aqui, porque eu acho que é uma exposição que todo mundo deve ver e, sobretudo, os meus conterrâneos”.
A relação de Lélia com o estado permanece viva através dos laços familiares e das memórias. “Eu tenho uma relação muito boa com o Espírito Santo. Eu gosto demais da minha terra. Vitória é linda demais”, compartilha a curadora, que ainda possui duas irmãs e diversos sobrinhos morando na capital capixaba.
Uma parceria de vida e arte
A trajetória de Lélia é indissociável da de Sebastião Salgado, com quem construiu uma parceria que ela define como um "complemento". Mais do que esposa, Lélia foi a diretora artística e estrategista por trás de cada grande projeto do fotógrafo.
A gente imaginava os projetos juntos. Sebastião que fotografava e eu sempre que soube arrumar as fotografias e mostrar
Com a partida de Sebastião em maio de 2025, Lélia assumiu sozinha a direção da empresa do casal e a preservação desse legado, sentindo o peso da ausência de seu parceiro de ideias.
“O que mudou depois da partida dele, realmente, é que ele não tá mais aqui, né? Essa aqui é a grande mudança. Eu não tenho mais uma pessoa para trocar ideias e tudo. Muda muito”.
O olhar curatorial e a experiência imersiva
O processo de curadoria de Lélia é minucioso e quase poético. Para a exposição "Amazônia", que conta com 204 fotografias, ela passou meses selecionando imagens em uma parede de ímãs, buscando criar uma história que conectasse o público à floresta.
A inspiração, muitas vezes, vinha no silêncio da madrugada: “Normalmente essa ideia, eu tenho essa ideia de noite, de madrugada, quando eu acordo assim de encontro com uma ideia. Então, aí de manhã cedo eu vou lá e começo a trabalhar”.
Em Vitória, o público pode vivenciar a experiência multissensorial planejada por Lélia, que inclui uma trilha sonora original do francês Jean-Michel Jarre com sons reais da floresta. Para ela, a exposição é uma forma de militância ambiental e humanitária.
Ao conviver com comunidades indígenas durante as expedições, Lélia afirma ter aprendido sobre o que é essencial: “A gente vive tanto no que não é essencial… e com as comunidades indígenas eu aprendi tanto!”
Agora, ao apresentar a Amazônia através de ângulos aéreos e olhares íntimos no Cais das Artes, Lélia Salgado não apenas entrega uma obra de arte aos capixabas, mas compartilha a sensibilidade de uma vida dedicada a entender e proteger o mundo através da imagem.