Um legado de resistência, arte e ancestralidade toma o palco do Mucane - Museu Capixaba do Negro, no Centro de Vitória. Nesta sexta (16), sábado (17) e domingo (18), sempre às 16h, o espetáculo “Mão na barra, pé no terreiro, a vida e a dança de Mercedes Baptista” estará em cartaz com entrada gratuita.
A montagem, protagonizada pela atriz e bailarina Ivanna Cruz, homenageia Mercedes Baptista, a primeira bailarina negra a integrar o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Com uma trajetória marcada pela quebra de barreiras e pela valorização da cultura afro-brasileira, Mercedes foi pioneira na criação do balé afro-brasileiro e se tornou um símbolo da dança moderna no país.
O espetáculo mistura teatro, música ao vivo e dança para recontar essa trajetória inspiradora. Com direção artística de Luiz Antônio Rocha, coreografias de Diego Rosa e texto assinado por Ivanna Cruz, Pedro Sá Moraes e Luiz Rocha, a peça já passou pelo Rio de Janeiro e São Luís (MA), e agora chega à capital capixaba como parte do projeto patrocinado pelo Instituto Cultural Vale, via Lei Federal de Incentivo à Cultura.
A encenação traz ao palco ritmos ancestrais como o Jongo e a Mana Chica, entrelaçando memória, espiritualidade e resistência. A trilha sonora e as interpretações das musicistas e atrizes Geiza Carvalho e Lelê Benson ajudam a construir uma atmosfera que remete aos terreiros de candomblé, berço de parte importante da pesquisa de Mercedes.
Um elo entre gerações
A conexão entre Mercedes Baptista e Ivanna Cruz vai além da homenagem: ambas nasceram em Campos dos Goytacazes (RJ), uma cidade marcada pelo passado escravocrata e pela resistência negra. Com meio século de diferença, essas duas mulheres transformaram seus corpos em instrumento de luta e expressão artística. Ivanna segue os passos de Mercedes não apenas como bailarina, mas também como criadora, produtora e militante da cultura negra.
“Mercedes foi uma visionária. Ela criou, coreografou, administrou e fez sua arte acontecer em uma época em que ser mulher e negra era sinônimo de portas fechadas. Eu vejo nela a força que preciso para continuar”, afirma Ivanna.
A atriz destaca que a montagem é também um processo de cura e reencontro com as raízes. “Espero que o público se sinta tocado, que reconheça em Mercedes sua própria força e entenda que a arte negra não é resistência apenas – é potência, é base, é construção coletiva.”
Arte como instrumento de transformação
Ao longo da apresentação, o público é convidado a refletir sobre o papel da cultura negra na formação da identidade brasileira. O espetáculo celebra não só a vida de uma artista, mas um patrimônio cultural forjado na luta e na ancestralidade.
O diretor Luiz Antônio Rocha reforça o caráter político e educativo do projeto: “Mercedes é uma pedra fundamental da dança afro-brasileira. Ao resgatar ritmos que estão sendo esquecidos, como o Jongo e a Mana Chica, estamos também preservando uma memória que a colonização tentou apagar.”
Já o músico e ator Pedro Sá Moraes, também autor da peça, vê o projeto como um gesto de reparação histórica: “A arte de Mercedes foi uma forma de gritar com o corpo. De afirmar que sua presença nos palcos era legítima, necessária e transformadora. Contar sua história é impedir que ela seja apagada.”
Sobre Mercedes
Mercedes Baptista fez história não apenas por ocupar um espaço inédito no ballet clássico, mas por ousar fundir a técnica eurocêntrica com a riqueza dos movimentos de matriz africana. Criou um vocabulário próprio, estruturou o Ballet Folclórico Mercedes Baptista e se tornou referência internacional. Recebeu prêmios, homenagens e reconhecimento, mas nunca perdeu o foco: mostrar que o corpo negro tem lugar de destaque na dança, não à margem.
Mercedes esteve no Espírito Santo em 1977, onde colaborou com o grupo de capoeira Beribazu e com a escola Lenira Borges Ballet Studio. A partir dessa vivência, criou um espetáculo que se tornou um marco na história cultural capixaba. Em Vitória foi criado o Dia Municipal da Dança Afro, celebrado em 18 de agosto, em homenagem a data de falecimento da artista.
Serviço
- Espetáculo “Mão na barra, pé no terreiro – A vida e a dança de Mercedes Baptista”
- Onde: Museu Capixaba do Negro (MUCANE) – Av. República, 121, Centro, Vitória – ES
- Quando: 16, 17 e 18 de maio de 2025
- Horário: Sempre às 19h
- Entrada gratuita (sujeita à lotação do espaço)
- Classificação indicativa: Livre