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Humor Queer

Dia do Humor: artistas LGBT+ capixabas fazem do riso uma forma de resistência

Espaços, piadas, resistência e pertecimento, são algumas pautas levantadas por humoristas queers dentro do cena do ES
Felipe Pinheiro

Publicado em 30 de Outubro de 2026 às 08:00

Pessoas queer do ES ressignificam o que o humor pode ser e os desafios de ser inclusivo dentro dos espaços de comedia
Pessoas queer do ES ressignificam o que o humor pode ser e os desafios de ser inclusivo dentro dos espaços de comedia Acervo Pessoal / Reprodução Instagram: @tonnascimentoo e @aleilasoul

Quem não gosta de dar boas risadas com um show de stand-up? Histórias inusitadas, situações do cotidiano nas quais todo mundo se reconhece, acontecimentos absurdos e interações inesperadas com a plateia são alguns dos ingredientes que fazem o humor conquistar o público. Mas, quando a piada ultrapassa os limites e reforça preconceitos, especialmente contra a comunidade LGBTQIAPN+, onde fica a linha entre a comédia e a discriminação?


A discussão ganha espaço nesta sexta-feira (30), quando é celebrado o Dia do Humor, data criada em 2021 em homenagem ao aniversário do humorista Paulo Gustavo, que faria aniversário em 30 de outubro. Além de celebrar o poder do riso, a ocasião também convida à reflexão sobre os limites da comédia: até que ponto fazer rir pode justificar piadas que reproduzem estereótipos e preconceitos?


Como forma de resistência, diversos shows protagonizados por pessoas queer surgiram em todo país para ressignificar o que é o humor - inclusive no ES. O “Rindo com Orgulho” surgiu em junho de 2025, como forma de celebração no Mês do Orgulho, e que em suas duas edições foram feitas pelos artistas Angela Jackson (drag queen), Ton Nascimento (homem gay) e Leila Soul (mulher pansexual).


Em entrevista ao HZ, os três humoristas comentaram sobre a cena capixaba do humor e os desafios de ser LGBT+ em um meio que a maioria ainda entende preconceitos como piada.

Angela Jackson
Drag queen de Vitória trabalha com o humor a mais de 20 anos no Espírito Santo
Drag queen de Vitória trabalha com o humor a mais de 20 anos no Espírito Santo Acervo Pessoal

Dentro do trio que faz o espetáculo “Rindo com Orgulho” está a drag queen Angela Jackson. O comediante Rodrigo Rabbi, de 53 anos e natural de Vitória, dá vida a persona Angela há 26 anos. A drag conta que encontrou na arte da montação um meio para trabalhar com a comédia no Espírito Santo. 

As drags criaram um estilo (de show de comédia), principalmente com a Silvetty Montilla no Brasil, que hoje é copiado pelo standup. Ainda vejo muito preconceito nos meus shows. Percebo que todos se divertem, mas no final alguns tem vergonha de assumir que se divertiram e tem vergonha até de tirar foto com os artistas LGBTs

Angela Jackson Humorista

Ela começou fazendo dublagem de cantoras pop, como Britney Spears, mas por conta de sua altura e  voz fina, percebeu que isso poderia ser usado nos palcos, assim, mudou o foco de seus shows para o humor. Entre suas inspirações estão Silvetty Montilla, drag conhecida nacionalmente pelo humor, além da também drag queen Chica Chiclete, reconhecida como um dos maiores nomes da cena capixaba. 


Para Angela, os espaços clássicos da comédia (shows de stand-up tradicionais, principalmente feitos por comediantes heteros e cisgenero) ainda não são completamente seguros para a comunidade LBGTQ, no que diz respeito ao público e aos espaços.


Justamente por esse preconceito velado com artistas queer do humor, que Angela procura fazer um humor LGBT+ que não desqualifique a própria comunidade, falando de situações engraçadas do dia a dia de uma drag queen e com muita interação com o público. Definindo seus stand ups como uma certa forma é uma “militância discreta”.


Sobre a cena capixaba de humor, Angela relata que a comunidade queer enfrenta certa resistência de alguns locais, o que é agravado uma vez que os espaços dentro do ES de comedia geral já são escassos em sua visão. 


“Para nós é importante abrirmos shows de artistas nacionais, mas já percebemos que artistas, principalmente heteros, não gostam de terem abertura feita por LGBTs. Porém, graças ao nosso trabalho de qualidade, estamos revertendo isso, com alguns humoristas pedindo nossa participação”, relata a drag.

Leila Soul
Comediante da Serra revela inspirações e desafios para se fazer humor consciente no ES
Comediante da Serra revela inspirações e desafios para se fazer humor consciente no ES Acervo pessoal

Já Leila de Souza, conhecida como Leila Soul, de 39 anos e natural da Serra, também integrou o trio cômico do “Rindo com Orgulho”. A humorista, que se identifica como pansexual, começou a trabalhar com espetáculos de humor em 2021, logo após a flexibilização das regras da pandemia do coronavírus. 


A capixaba sempre teve um gosto por fazer as pessoas rirem e lembra que uma de suas primeiras apresentações foi em São Paulo na época em um open mic (evento de bares ou clubes onde qualquer pessoa pode subir ao palco e se apresentar). Ela revela que suas inspirações dentro do mundo da comédia eram os humoristas Kevin Hart, Ali Wong (por suas apresentações feministas) e George Carlin (que inclusive ela chegou a estudar as esquetes do americano no início de sua carreira). 


E desde então, trabalhou com shows de humor no Brasil, principalmente na Grande Vitória. Leila contou que traz muitos conteúdos de relacionamentos, vivências femininas e experiências sexuais, além de trazer muito conteúdo político dentro de seus espetáculos e esquetes de forma leve e crítica. A comediante deixou os palcos desde o ano passado, quando por razões pessoais decidiu dar uma pausa.


Sobre o tratamento com os públicos (LGBTQ e não LGBTQ), Leila conta que a parte mais difícil era construir o texto cômico, graças à diferença do que as pessoas entendem como piada. Em sua visão, seus shows serviam para ‘bater’ (no sentido de fazer piada) em quem está no topo da sociedade, enquanto a maioria das pessoas entende que o humor é para ataque a minorias. 

O tratamento vai ser diferente se você está apresentando para um público que é LGBT e para um público que é diverso ali, que não é 100% LGBT. Quando a gente fazia o ‘Rindo com Orgulho’, eram na maioria pessoas que eram realmente LGBTQs e  era sempre uma energia muito melhor. Quando você está entre os seus iguais, a energia é outra

Leila Soul Humorista

Por exemplo, ela conta que era difícil criticar com humor a homofobia, e às vezes quando tinha pessoas que não são LGBT+, algumas que se sentiam ofendidas, porque eram homofóbicas, mas não admitiam. Além disso, por ser mulher, isso também era um fator dificultante a qual ela teve que lutar contra, uma vez que as humoristas “tem que abrir e fazer os próprios shows, porque se elas não que produzirem, não é convidado para produções dos meninos”. 

Ton Nascimento
Comediante de Vitória relembra apoio familiar na carreira e comenta sobre 'resignificar' espaços
Comediante de Vitória relembra apoio familiar na carreira e comenta sobre 'resignificar' espaços Acervo Pessoal

Por fim, o humorista Ton completa o trio do “Rindo com Orgulho”. Nascido em Vitória, Ton Nascimento tem 35 anos e começou na carreira de comediante a mais de dois anos em clubes no centro da capital. Como fã do mundo do humor desde pequeno, ele conta que a comédia sempre esteve presente na sua família, e foi através dela que surgiu o incentivo para se tornar um humorista, uma vez que várias pessoas ao seu redor o achavam engraçado.


“Minha família é engraçada e meu irmão adorava assistir stand-up. Então cresci assistindo comédia e eu imitava as piadas na escola, imitava personagens e por aí vai”, conta Ton. Em suas apresentações, o capixaba gosta de falar sobre experiências de inadequação, contradições e brincar com a plateia, e é isso que, em suas palavras, humaniza a comunidade LGBT diante de um mundo tão hostil e modifica as falsas noções sobre essas pessoas. 


Ele relembra quando fez parte do coletivo “Roda de Conversa LGBT+”, que conversava com familiares de pessoas expulsas ou rejeitadas de alguma forma pela família. Segundo Ton, essa iniciativa através da informação humanizada, foi uma importante inspiração de como para seus shows em que pessoas queers são protagonistas de forma empoderada. “Não somos seres apenas sexuais mas afetivos. É nossa humildade que nos aproxima das pessoas. Mas claro, sou consciente que há lugares de disputa e outros de diálogos”, comenta o humorista.


Ton ainda não sente que a maioria das casas de humor no Espírito Santo, e no Brasil em geral, estão preparadas para receber o público queer, seja como humoristas ou audiência. Porém ele também relata que sente que alguns destes estabelecimentos vêm se adaptando e que outros vêm sendo criados pela comunidade justamente para criar espaços próprios dentro do mundo do riso.

Lembro da Mônica Martelli falando de um conselho que a mãe dela deu: ‘Filha, não espere que alguém te descubra. Vai para a praça e vai falar seu texto para o mundo!’. A comunidade utiliza essa mesma lógica, tomamos o que é nosso por direito, não iremos a lugar algum, e também criamos as nossas oportunidades

Ton Nascimento Comediante

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