Com quase 70% dos votos da Comunidade Acadêmica da Ufes, uma mulher é escolhida para ocupar o posto mais importante da Universidade Federal do Espírito Santo.
Registre-se que esse não é apenas mais um cargo a ser ocupado por mulheres que, em sua luta cotidiana, injusta, tantas vezes brutal, cruel e intimidatória por igualdade, vão penetrando nos meandros do poder, até então guardados a muitas e invioláveis chaves, em uma sociedade machista, patriarcal e violadora dos Direitos das mulheres.
Esse resultado, carregado de simbolismos e significados, vem como um raio de esperança a alimentar nas mulheres e na sociedade a certeza de que a cultura sexista, machista e misógina, na qual estamos mergulhados há séculos no Brasil, começa a sofrer fissuras que poderão ser ampliadas, dependendo dos combates que empreendermos, coletivamente, estrategicamente e fortemente pautadas em firmes convicções e lutas por reconhecimento. Direitos não nos são dados. Direitos são o resultado de lutas empreendidas todos os dias, com consequências duras e sofridas para aqueles que as travam.
Teremos Ethel, primeira mulher na reitoria da Ufes em seus 65 anos de existência, se os ventos conservadores, travestidos de defesa dos valores da sociedade não nos levarem a vergonha de vermos a Democracia ser vencida pelo autoritarismo de uma falsa e indecorosa hipocrisia que tem minado as conquistas que fomos capazes de vencer ao longo da história.
A decisão final está nas mãos do Presidente da República, mas ela deverá ser tomada sob o peso dos quase 85% de votos dos estudantes da Ufes e 70% dos professores, que foram às urnas para mostrar que a universidade não é lugar de desordem e de baderna, mas lugar de ciência e de produtividade.
Ethel não é apenas a primeira mulher a vencer a eleição na Universidade Federal do Espirito Santo. Ela é uma cientista do maior quilate, respeitada internacionalmente em sua área de pesquisa. Pesquisadora Nível 1 do CNPq, com centenas de trabalhos publicados. Sua trajetória acadêmica impecável lhe dá a grandeza de uma cientista mundial que hoje está disposta a implementar um projeto de universidade para além dos limites do Espírito Santo e do Brasil.
A comunidade cientifica internacional, com seus rigorosos padrões de qualidade, a inclui como uma das pesquisadoras mais referenciadas em tuberculose no Brasil e no mundo. Como consultora da Organização Mundial de Saúde, a futura reitora alerta ao mundo que as mulheres têm muito a contribuir e estão dispostas a fazê-lo ocupando os lugares que lhes são por direito.
Não é apenas uma mulher que chega ao poder e ao núcleo central da Universidade do Espirito Santo. Sua eleição é a vitória da Enfermagem, categoria invisibilizada, desvalorizada e excluída das grandes decisões das politicas de saúde , mas indispensável ao alcance de padrões ótimos de saúde nas sociedades mais avançadas do mundo.
É uma pesquisadora mulher em mundo masculino no qual cientistas mulheres foram ocultadas do protagonismo das grandes investigações que mudaram a história humana.
É uma defensora dos Direitos Humanos e da igualdade de gênero em uma sociedade na qual o obscurantismo da ciência quer colocar as mulheres de volta ao espaço privado.