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Kátia Tapety
"Sou uma trans respeitada na política em um sertão de cabra macho"
Primeira transexual eleita a um cargo político no Brasil, ex-vereadora de Colônia, no Piauí, abriu portas para transgêneros na política e diz que não quer morrer antes de ver uma transexual no Congresso

Iara Diniz

Repórter

Publicado em 28 de Junho de 2020 às 09:36

Publicado em

28 jun 2020 às 09:36
Foi na cidade de Colônia, no sertão nordestino do Piauí, que a primeira transexual foi eleita a um cargo político no Brasil. Em 1992, Kátia Tapety ganhava a eleição municipal como vereadora mais votada pelo então Partido da Frente Liberal (PFL), hoje Democratas (DEM), e abria a primeira porta para que transgêneros ocupassem espaço na política em todo o país.
No Espírito Santo, 12 anos depois, a cidade de Nova Venécia elegia Moa Sélia vereadora. A transexual ocupou uma cadeira do Legislativo municipal por três mandatos e foi presidente da Câmara. Moa morreu em 2017. Atualmente, nove transexuais são vereadoras no país e três são deputadas estaduais.
De família tradicional de coronéis, Kátia nasceu em Colônia em 1949, na época ainda povoado de Oeiras. Filha de um pecuarista e uma costureira, ela teve oito irmãos, sete deles homens. Por apresentar comportamentos que eram considerados femininos pelo pai, Kátia foi a única filha privada de estudar e fazer curso superior.
A liberdade para se reconhecer transexual só veio após a morte do pai. Ela se casou, criou três filhos adotivos, se tornou parteira, dentista, pecuarista. A participação na comunidade local fez com que fosse reconhecida nas urnas. Kátia foi eleita três vezes vereadora - 1992, 1996 e 2000 - em todos os pleitos como a candidata mais votada. Foi presidente da Câmara e, em 2004, disputou a eleição como vice-prefeita, ganhando mais uma vez. “Sou uma trans respeitada na política em um sertão de cabra macho”, afirma.
Kátia Tapety
Kátia Tapety é pecuarista e continua vivendo em Colônia, no Piauí Crédito: Jane Malaquias
Hoje, com 71 anos, Kátia Tapety vive na mesma cidade onde fez carreira. Exerce um cargo de coordenadora de idosos na Prefeitura de Colônia, é conselheira estadual no Movimento LGBT do Piauí e também secretária da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Em 2020, após 12 anos afastada do cenário político, ela voltará a disputar uma cadeira na Câmara de Vereadores da cidade pelo partido dos Progressistas (PP). A diferença é que pela primeira vez ela terá o nome Kátia no registro eleitoral.
Neste domingo (28), dia em que é comemorado o Dia do Orgulho LGBTQIA+, confira a entrevista com Kátia Tapety.

Como foi o processo para se reconhecer mulher transexual?

Nunca me senti homem, mas, com todos os preconceitos que existiam, eu não podia expor isso. Desde criança, eu gostava de usar as roupas da minha mãe, passava batom, me maquiava escondida. Fui ficando adolescente e passei a me montar para sair à noite, sem meu pai saber. As pessoas mexiam comigo, me chamavam de mulherzinha. Eu não ligava, porque no fundo eu sabia que queria ser mulher, mas não podia falar. Sempre me aceitei, nunca achei que fosse alguém estranho, mas me reconhecer e assumir foi um longo processo. Tive que romper vários preconceitos e abrir mão de privilégios dentro da minha família para ser quem eu sou hoje.

Como era o relacionamento com seus pais?

Meu pai era preconceituoso, horrível, me colocou para ler dentro de casa porque tinha vergonha de mim. Dizia que eu não ia estudar fora porque as pessoas iam comentar que ele tinha um filho viado, e que homem que nascia querendo ser mulher era morto. Em família de coronéis, não podia ter homossexual. Quando chegava visita em casa, ele me mandava ficar dentro do quarto escondida, falava para esconder meu jeito de menina. Era um preconceito muito grande. Já minha mãe era uma pessoa ótima, me amava do jeito que eu era. Ela sabia que eu não queria ser homem e nunca me impediu de usar a maquiagem ou as roupas dela. Uma vez meu pai quis me bater porque soube que eu estava namorando um menino na cidade. Ele ia me matar. Minha mãe entrou na frente e não deixou. Ela me defendia, mas não conseguia enfrentar meu pai sempre. Eles brigavam muito por causa disso.

E quando nasceu a Kátia Tapety?

Quando meu pai morreu. Aí eu me libertei. Eu tinha 16 anos. Não vou mentir, eu nem chorei, não fui ao velório. Meu pai me fez muito mal, ele era muito ruim. Depois da morte dele, eu pude ser quem eu realmente era. Passei a sair na rua com meus vestidos, com maquiagem, sem ter vergonha. As pessoas na cidade já sabiam, nunca foi segredo. Mas naquela época todo mundo me via como mulher, eu ainda não tinha um nome, era o Zé. Até que um dia, um amigo veio de Fortaleza e falou que era mulher bonita demais para não ter um nome e que eu ia ser Kátia. Desde então eu sou Kátia Tapety.

Como foi seu primeiro contato para a política?

Eu trabalhava como auxiliar para um dentista em Oeiras. Quando ele se candidatou a prefeito, eu trabalhei na campanha eleitoral. Fiz um serviço muito bom, consegui vários votos e ele foi eleito. Quando Colônia se emancipou, ele me chamou para conversar e disse que ia me lançar candidata a vereadora, porque eu tinha potencial, todo mundo me conhecia e gostava de mim. Disputei e fui eleita três vezes.

Como é saber que é a primeira transexual eleita no Brasil?

Tem muita representatividade, né? A política brasileira também precisa ser feita pelas transexuais. Eu nunca quis ser política, mas, quando eu fui eleita, eu entendi a importância do lugar que eu ocupava. Quem ia pensar que uma travesti seria vereadora? Ali eu comecei a quebrar um tabu, abri a porta para outras transexuais ingressarem na política. Hoje, já podemos usar nome social no registro eleitoral, ocupamos a cota de 30% das mulheres, temos representantes nas Assembleias. Deus sabe que eu não morro antes de ver uma transexual no Congresso. É um caminho longo, de muita luta, mas que me dá orgulho ter feito parte disso.
Kátia Tapety
Primeira transexual a ser eleita no Brasil, Kátia vai se candidatar este ano a vereadora Crédito: Jane Malaquias

A senhora teve três mandatos como vereadora, em todos eles foi a mais votada da Câmara. Quando concorreu a vice-prefeita, a chapa que fazia parte ganhou. O que Kátia Tapety tem que conquistou o povo?

Sou adepta de uma política assistencialista, social. Tem muita gente pobre aqui, que passa necessidade. Você não tem ideia da pobreza que é o sertão nordestino. Antigamente não tinha muito auxílio do governo, as pessoas ficavam à mercê da ajuda dos outros. E eu era essa pessoa que ajudava. Eu ainda sou. Eu fazia parto, corria para marcar médico, levar o povo na consulta do dentista, reclamar a falta de asfalto na rua, energia. Eu fazia de tudo e fazia de coração. E as pessoas viam isso. Eu abracei Colônia e o povo da cidade me abraçou.

Sofreu preconceitos na política por ser uma mulher transexual?

Na política não. Brinco que sou uma transexual respeitada em um sertão de cabra macho. Servi tanto ao povo de Colônia que eles nunca me viram como transexual. Eu ser homem ou mulher nunca fez diferença na vida das pessoas diante dos problemas que elas tinham e que eu sempre tentei resolver. Mas eu sei que isso não é a realidade da maioria das trasexuais. Eu tive a sorte de encontrar pessoas que me deram oportunidades, trabalho, nunca precisei me prostituir, por exemplo. Mas para a maior parte das transexuais essa é a única opção.

Qual a principal demanda das pessoas trans hoje?

A presença no mercado de trabalho é a principal luta das pessoas transexuais. Temos trans médicas, advogadas, professoras, mas sem oportunidade para exercer suas profissões. Precisamos dar a elas o direito de ocupar estes espaços. Não podemos achar normal que 90% das transexuais vivem na prostituição. A grande maioria delas só se prostitui porque não tem outra forma de ganhar dinheiro. A sociedade não nos dá oportunidades, ela é preconceituosa, e a gente precisa lutar pelo direito de trabalhar dignamente.

Como a senhora vê o atual governo? Acha que ele atende às demandas dos transgêneros?

Ele [o presidente Jair Bolsonaro] não se preocupa com as nossas causas. A população LGBT perdeu muito com esse governo. Acho difícil ter um diálogo com o presidente, mas tenho vontade de sentar um dia com ele para conversar, para falar sobre nós transexuais, contar sobre a minha experiência política.

Pela primeira vez, a senhora vai usar o nome Kátia Tapety no seu registro para disputar uma eleição. Qual é a sensação?

As pessoas sempre me conheceram como Kátia e as minhas correspondências na Câmara de Vereadores sempre vieram com este nome. Mas naquela época ainda não era permitido usar nome social no registro eleitoral e para mudar o nome no cartório tinha que ir na Justiça. Por causa disso, eu passei por diversas situações constrangedoras e toda vez que falavam José, eu tinha que explicar que eu era uma mulher trans. Um dia, juntei todos as cartas, todos os registros que tinha com o nome de Kátia e levei para o juiz. Falei que não aguentava mais aquilo e que me fazer usar outro nome senão Kátia era uma maldade sem tamanho. Eu não era aquela pessoa. Em 2016, consegui o direito de mudar meu nome no cartório e, desde então, eu sou Kátia Tapety também na identidade. Parece besteira, mas conseguir mudar meu nome no documento foi a minha maior vitória.

Além do nome, o que mais mudou na pessoa que a senhora era quando concorreu pela primeira vez em 1992?

Nada. A Kátia Tapety que foi vereadora em 1992 não mudou, continuo com a mesma vontade de mudar a realidade dessas pessoas. Quero fazer um trabalho digno por esta cidade. Quero ver o povo crescer, não passar necessidade. Esse sempre foi meu maior sonho e eu vou morrer lutando por isso. Quero ser lembrada pela mulher que abraçou o povo e que o povo de Colônia abraçou.

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