O esvaziamento nas manifestações de 12 de setembro, organizadas pelo Movimento Brasil Livre (MBL), e com apoio de partidos de centro, reforçou a dificuldade da construção de uma terceira via para romper a polarização entre o atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Lula (PT) em 2022.
Embora os atos tenham contado com a presença de vários presidenciais, entre eles Ciro Gomes (PDT), o ex-ministro da Saúde Luiz Mandetta (DEM) e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), isso não foi suficiente para levar às ruas um número expressivo de eleitores, que dizem não querer "nem Lula nem Bolsonaro".
Segundo cientistas políticos consultados por A Gazeta, esse cenário é resultado da fragmentação interna da terceira via, que ainda não conseguiu consolidar uma liderança para se viabilizar.
“Ficou claro que não adianta colocar vários presidenciáveis se posicionando a favor do impeachment de Bolsonaro sem ter uma identidade, um projeto, um nome. As pessoas precisam de um rosto para reagir, para se empolgar”, afirma a cientista política e professora da Universidade Federal do Alagoas (Ufal) Luciana Santana.
As pesquisas de opinião mostram que uma parcela considerável da população rejeita tanto Lula quanto Bolsonaro em 2022. Assim, numericamente falando, há espaço para uma candidatura alternativa, principalmente com a popularidade do atual chefe do Planalto em queda. Pesquisa do Datafolha divulgada nesta quinta-feira (15), apontou que 53% dos brasileiros reprovam o atual presidente, maior índice desde o início do mandato.
Mas esse cálculo não é puramente matemático, como ressalta o professor de Ciência Política da Universidade Mackenzie Rodrigo Prando.
"Apenas a rejeição a nomes que já estão postos não é suficiente para unir um grupo eleitoralmente. É preciso mostrar algo além de um slogan 'eles não'", afirmou.
O "Eles Não" faz referência ao presidente Jair Bolsonaro e ao ex-presidente Lula. O slogan foi usado por grupos nos atos de 12 de setembro, também chamado por alguns de "manifestação da terceira via". Inicialmente, a convocação para ir às ruas apresentava como uma das bandeiras a oposição à candidatura chefe do Planalto e do petista. No entanto, para tentar atrair partidos de esquerda, o MBL acabou mudando a pauta, defendendo apenas o impeachment do atual presidente.
Para Prando, o esvaziamento dos protestos não mede a viabilidade eleitoral de uma terceira via, mas mostra que essa essa via ainda não encontrou expressão eleitoral.
"A construção de uma candidatura alternativa, de centro, vai ter que se afastar de uma narrativa populista que é visto nos extremos. Vai ter que defender reformas liberais, mas projetos sociais. E esse discurso encanta bem menos em um mundo polarizado, principalmente quando há vários nomes em discussão", assinala o professor.
Tanto Prando quanto Santana apontam uma série de desafios na viabilização da terceira via, entre elas a heterogeneidade dos postulantes a liderar essa frente. A professora da Ufal é cética em relação à capacidade do centro em convergir em torno de uma única candidatura e não acredita que isso aconteça para as eleições de 2022.
"O espectro ideológico de quem articula a construção da terceira via é muito amplo e cada um tem seus projetos pessoais, que eles não abrem mão. A grande dificuldade desse grupo é unir todas essas diferenças em prol de um nome."
Há também um cálculo político envolvido na questão. "A construção da via alternativa esbarra nos anseios de alguns partidos, que não abrem mão de encabeçar chapas", ressalta Santana. É o caso do PDT, com Ciro Gomes, e o PSDB, que enfrenta um conflito interno e fará prévias este ano para definir seu candidato.
Os nomes mais cotados dentro PSDB são os de João Doria e de Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul.
Além disso, o PSD de Gilberto Kassab se mantém firme em lançar uma pré-candidatura e almeja a filiação do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, hoje filiado ao DEM, partido de Mandetta. O ex-ministro da Saúde tem dialogado com outros presidenciáveis para construção de uma terceira via, e já declarou não ter problema em subir no mesmo palanque que Ciro Gomes. Mas o comportamento dele é uma exceção dentro do grupo.
"Dificilmente a gente vai ver uma aliança entre todas essas lideranças, que têm interesses diversos. Atores como Ciro Gomes e o PSDB fazem todo um cálculo político para lançar uma candidatura e não devem recuar para abrir espaço para outras lideranças", finaliza Prando.