As alianças partidárias garantem força a grupos políticos que buscam chegar ao poder por meio de mandatos eletivos. Por isso, é comum que, de olho no voto do eleitorado, legendas consideradas de viés ideológico diferente ou até oposto se aliem em torno de um projeto comum.
Nas Eleições 2026, o Espírito Santo conta com exemplos de partidos que mantiveram distanciamento ao longo de todo o período que antecedeu a corrida eleitoral, mas que agora decidiram se unir para fazer frente a adversários em comum.
É o caso da aliança entre Republicanos e Partido Liberal (PL), presididos na esfera estadual pelo ex-deputado Erick Musso e pelo senador Magno Malta, respectivamente.
Apesar do perfil direitista e dos acenos favoráveis às bandeiras defendidas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, principal nome do PL, o Republicanos, por exemplo, não contou com o partido bolsonarista na coligação que reelegeu Lorenzo Pazolini (Republicanos) prefeito de Vitória em 2024.
Nas eleições municipais, Magno decidiu que o PL disputaria as prefeituras capixabas de forma isolada, sem coligação com demais legendas. Dois anos depois, PL e Republicanos selaram aliança visando à disputa pelo governo capixaba, com Pazolini encabeçando a chapa, e às duas vagas de senador a que o Espírito Santo tem direito no pleito deste ano.
A aproximação dos dois partidos, neste ano, foi marcada por impasses, reviravoltas e manifestações de insatisfação por parte de membros e filiados às siglas.
O novo status de relacionamento entre as duas legendas, comparando o pleito municipal ao estadual, é explicado pelo cientista político Rodrigo Augusto Prando, mestre e doutor em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp Araraquara), professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
“A política serve essencialmente para dialogar. Então, na política, você tem adversários. E a gente se habituou, de maneira muito negativa, no Brasil e em outras partes do mundo, a transformar o adversário em inimigo. Mas, na verdade, o adversário é aquele com quem vou ter divergências, às vezes profundas, duras, embates duríssimos, mas que não é meu inimigo. Porque, em algum momento, mudando o cenário político, eleitoral ou econômico, o grupo pode convergir”, afirma o especialista.
Marcos Woortmann, cientista político e consultor internacional, por sua vez, afirma que “a polarização política mudou profundamente as percepções do eleitor em termos de preferências partidárias que se agregaram em polos muito bem definidos”.
Tanto Marcos Woortmann quanto Rodrigo Prando citam como principal exemplo de união entre partidos de viés antagônico a dobradinha entre o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) nas eleições de 2022.
Por muitos anos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tenta a reeleição neste ano, e o vice Geraldo Alckmin protagonizaram duelos em território nacional em busca da Presidência da República.
À época, Alckmin pertencia ao PSDB, legenda que por um longo período foi responsável por abrigar praticamente toda a direita brasileira, enquanto o PT, partido de Lula, consolidava-se como principal referência da esquerda no país.
No pleito de quatro anos atrás, entretanto, o mercado político se surpreendeu com a união desses dois nomes para disputar as eleições gerais. Após 33 anos no ninho tucano, Alckmin saiu do PSDB e se filiou ao PSB para ser vice na chapa petista.
“Todas as vezes que encaramos a política como um embate entre adversários, abrimos espaço para a formação de alianças e coalizões entre partidos ou entre os mesmos atores políticos”, pontua Rodrigo Prando.
Os especialistas ouvidos pela reportagem destacam que alianças entre legendas adversárias também podem ser desfeitas assim que o objetivo pretendido seja atingido. O rompimento também pode ocorrer antes do previsto, por alguma divergência interna.
“Partidos políticos que foram adversários e estão unidos podem permanecer em diálogo, ter um determinado projeto que conjunturalmente faça sentido e depois, de novo, podem tornar-se adversários”, frisa Rodrigo Prando.
Conforme Marcos Woortmann, parte das alianças firmadas durante a corrida eleitoral é mantida, principalmente, com o intuito de garantir a governabilidade de administrações eleitas a partir desse arranjo.
“Essa massa de alianças que garante a governabilidade da política brasileira, no seu presidencialismo de coalizão, nunca teve preferências partidárias ou ideológicas para além da manutenção de seus compromissos de interesse regional e setorial”, aponta Woortmann.