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Renato Casagrande
"Abutres se alimentam da crise e tentam tirar proveito político"
Governador do ES não cita nomes, mas diz que, durante a pandemia de Covid-19, há lideranças políticas que espalham desinformação e atrapalham o combate ao coronavírus

Letícia Gonçalves

Colunista de política

Publicado em 18 de Julho de 2020 às 06:00

Publicado em

18 jul 2020 às 06:00
O governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), já teve Covid-19. Recuperado, ele despacha no Palácio Anchieta e participa de agendas solitárias, transmitidas ao vivo pela internet. Casagrande recebeu a reportagem de A Gazeta na última quinta-feira (16) – repórter e fotógrafo usando máscaras e mantendo distância –, numa entrevista presencial rara, nos tempos atuais, para todos os envolvidos.
O governador vê as mortes provocadas pelo novo coronavírus ultrapassarem o marco de duas mil em todo o Estado, mas avalia que agiu corretamente ao incentivar o distanciamento social, o uso de máscaras e outras medidas baseadas em evidências científicas.
Pressões de grupos diversos, no entanto, tentaram apontar, e ainda tentam, para direções diversas, tanto em busca de um recrudescimento de ações para conter o novo coronavírus quanto pela abertura indiscriminada da economia.
Além de críticas razoáveis, teorias da conspiração e desinformação grassam nas redes sociais e aplicativos de mensagens. Mais do que isso, ganham espaço em discursos feitos na tribuna (virtual) da Assembleia Legislativa e outros meios oficiais.
Casagrande não cita nomes, mas diz que há "abutres que se alimentam da crise". Para ele, um dos principais problemas da pandemia do novo coronavírus reside na politização do tema.
Medicamentos sem eficácia comprovada, como a cloroquina, viraram objeto de propaganda, inicialmente, pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), mas já ganharam a simpatia nada discreta até mesmo de aliados do próprio governador em pleno ano de eleições municipais.
Quando o assunto é o impeachment de Bolsonaro, apoiado por uma resolução da Executiva nacional do PSB, o socialista tenta se equilibrar entre o papel de governador e o de dirigente partidário, mas no fim revela que não é um entusiasta da remoção do presidente do cargo. 
"O presidente Jair Bolsonaro foi eleito para cumprir os quatro anos de mandato. Acho que a desorganização política nesses últimos anos tem prejudicado o país"
Renato Casagrande (PSB) - Governador do Espírito Santo
Já sobre a retomada da economia, ele afirma que o governo estadual elabora um plano para o pós-pandemia.
Confira a entrevista: 

A mudança de comportamento e até mesmo a compreensão da gravidade do problema se deu, não só no Brasil, mas em outros países também, de forma gradual. Para o senhor, quando foi que a ficha caiu?

A ficha caiu de fato no final de março, a ficha da mudança no comportamento. Aquilo que a gente teve que parar com audiências presenciais. Minha última atividade foi numa escola na Serra, depois outra aqui no Salão São Tiago. Já tínhamos tomado as medidas de ampliação de leitos de UTI e enfermaria, já tinha criado a sala de situação, tomado algumas decisões, mas foi no início da segunda quinzena de março que nós pudemos reconhecer como seriam os próximos meses. Teve um momento, no início da pandemia, que houve um movimento no Estado para fechar comércio, os próprios comerciantes, entidades, querendo fechar o comércio, shopping, porque não estava dando ninguém, estava todo mundo com medo. Para um empresário, eu falei: "você sabe que podemos fechar por três meses, né?" Aí ele tomou um susto, falou: "não, acho que 15 dias resolve". Infelizmente, essa pandemia não é de curto prazo, é de longo prazo e temos medidas que até hoje estão vigentes para atividades econômicas e sociais.

Qual foi o pior momento da crise até agora?

O mês de junho foi muito ruim porque foi o pico da doença na Região Metropolitana, com muita pressão sobre o sistema de saúde, o aumento do número de óbitos no Estado, isso me deixa muito triste. O Estado não teve em nenhum momento colapso do sistema de saúde, mas aquela pressão pelo sistema de saúde e o aumento do número de óbitos em junho foi pior para nós na gestão da pandemia. A gente conseguiu estar à frente da doença no atendimento de leitos, mas a doença alcança mesmo quem tem leito. Infelizmente, a gente vê que tem gente que se alimenta da crise, os abutres que se alimentam da crise. Num momento de dificuldade que as pessoas estão vivendo propagam fake news, dão informação equivocada, tentam tirar proveito político e eleitoral de uma hora dessa. Isso é outro episódio que me deixa triste por ver o comportamento de algumas pessoas, de algumas lideranças.

Pode citar exemplos? Que abutres?

Exemplos eu não quero citar, mas as pessoas estão vendo o comportamento das lideranças. É lógico que, dentro da sociedade, pessoas que não têm função pública não têm o mesmo nível de responsabilidade, mas quem tem função pública, quem precisa estar junto numa hora dessa para a gente poder enfrentar, se afasta e tenta criar um ambiente que atrapalha o enfrentamento à pandemia.

Há pressões para adoção de uma medida ou outra e nem sempre há certeza sobre as decisões do governo. Hospital de campanha, por exemplo, foi um pedido feito por algumas pessoas, mas o governo não adotou.

A gente teve que suportar muitas críticas, mas sabendo que o que a gente estava fazendo estava certo. Hospital de campanha, por exemplo, nunca descartamos, mas sabíamos que se pudéssemos evitar o hospital de campanha seria bom para o Estado do Espírito Santo porque o investimento nos hospitais próprios e nos hospitais filantrópicos é um investimento que fica para sempre. Vou dar o exemplo de Cachoeiro. Cachoeiro brigou muito, os adversários do governo, os que são aliados, as pessoas de boa fé: "precisamos de um hospital de campanha em Cachoeiro, precisamos de um hospital de campanha em Cachoeiro", e nós fomos lá e abrimos o Aquidaban, um novo hospital em Cachoeiro. O hospital de campanha cumpre um papel, depois é desmontado e acabou. (...) Boa parte dos leitos para Covid vão ficar para outras enfermidades. O nível de politização da pandemia, porque esse é o novo normal na política... A política está muito tensionada, polarizada, entre grupos muito radicalizados não só de lideranças, mas se reproduz na sociedade. Isso exige que a gente possa definir um caminho. Se a gente for tomando as decisões com base naquilo que a gente ouve dos grupos mais radicalizados, a gente faz um caminhar de vaivém sem resultado. Até a pandemia se tornou num debate político. Se você usa máscara ou não, você se enquadra num campo político. Se você defende distanciamento social ou não, você se enquadra num campo político. E tem um debate forte aí na sociedade provocado, inclusive, pelo comportamento do presidente Jair Bolsonaro, que uma parte das pessoas acha que o vírus é invenção chinesa para prejudicar o mundo, acha que o uso de máscara não tem importância, acha que não precisa fazer isolamento. O uso de um medicamento... Isso tudo ficou politizado e isso está dificultando ainda mais o nosso trabalho.

Em relação a medicamentos, até mesmo aliados do senhor têm alimentado esse discurso político. Políticos, e alguns prefeitos, por exemplo, além de adotar protocolo para uso de remédios sem eficácia comprovada no combate à Covid-19 ainda incentivam por meio do discurso o uso desses medicamentos, como se fosse uma resposta política às pessoas que pedem, sem embasamento técnico.

Não tem problema nenhum. Como eu não quero politizar o uso de nenhum medicamento, nem da cloroquina, da ivermectina, o profissional médico que quiser fazer a indicação, faça. Contesto qualquer posição política com relação a medicamentos. Se um prefeito tomou a decisão politicamente, está errado, a não ser que o prefeito seja um especialista na área e queira fazer orientação profissional. Mas quem não tem formação na área e estabelece politicamente um protocolo... Nós nunca proibimos no Estado o uso desses medicamentos, só pedimos, se algum profissional fizer a indicação, que as pessoas tomem cuidado com os efeitos colaterais. A cloroquina pode causar problemas de coração. Então, tem que fazer um eletrocardiograma. Mas nunca proibimos e sou contra indicação política de qualquer medicamento.  
"Não cabe eu, dando uma entrevista para você, ficar mostrando a caixa de um medicamento, a bula, fazendo propaganda, não cabe, não sou médico. Essa politização beira o ridículo e é muito irresponsável "
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O senhor espera que o presidente Bolsonaro mude de comportamento agora que disse ter contraído Covid-19?

O presidente Bolsonaro tem um estilo, ele não vai mudar o estilo dele. Não tem nenhuma expectativa que ele mude. O governo federal tem um comportamento contraditório, nos ajuda, nos envia recursos para Covid e para recuperação da receita geral. Ao mesmo tempo que tem uma ajuda importante, o governo federal abriu mão de uma condução nacional de combate à pandemia. E tem o comportamento pessoal do presidente de menosprezar o isolamento social, o uso de máscara, isso dificultou o trabalho em cada Estado.

O ministro Gilmar Mendes chegou a dizer que o Exército está se associando a um genocídio, em referência às mortes por Covid-19 no Brasil enquanto o Ministério da Saúde é comandado interinamente por um militar, o general Pazzuelo, que ainda substitui técnicos por outros militares na pasta. O senhor concorda que a militarização do ministério pesa, faz diferença?

O que faz diferença no Ministério da Saúde é a instabilidade, é a troca permanente de ministro e a permanência de um ministro interino. Isso faz diferença porque muda equipe técnica, atrapalha a coordenação nacional, que teria que ser puxada pelo presidente da República. O ministro Gilmar Mendes errou ao falar a palavra "genocídio", mas acertou na avaliação de que é preciso ter estabilidade no Ministério da Saúde e é preciso que as Forças Armadas se coloquem na posição de instituição de Estado, não de prestação de serviço a um governo.

O presidente Jair Bolsonaro, então candidato, recebeu, em 2018, 55,13% dos votos no segundo turno no país. No Espírito Santo esse percentual foi de 63%. Como é ser governador de um Estado bolsonarista acima da média?

Tenho relações boas, republicanas, com praticamente todos os ministros do governo federal. Não me alinho com alguns dos pensamentos e algumas das práticas do presidente Jair Bolsonaro que eu já citei aqui, mas tenho relação respeitosa e institucional com praticamente todos os ministros. Esse respeito e a forma como expresso minhas opiniões, de forma respeitosa, permitem que a gente mantenha relação institucional.

A Executiva Nacional do PSB aprovou uma resolução, à unanimidade, em apoio ao impeachment do presidente Jair Bolsonaro. O presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, disse que o texto contou com o apoio do senhor também. Em que medida o senhor apoia o impeachment de Bolsonaro? Por quais crimes de responsabilidade?

Acho que são coisas diferentes, sou governador e sou membro da Executiva nacional. Como governador, me afasto desse debate de impeachment de presidente da República. Como dirigente partidário, o partido tomou uma decisão e eu faço parte do conjunto do partido. A posição de defender impeachment é do partido, eu como governador tenho que me afastar disso. É preciso que avaliemos que um presidente da República só sofre impeachment se perder apoio na sociedade e no Congresso. O presidente Bolsonaro tem ainda um apoio forte na sociedade e está conseguindo articular um apoio no Congresso Nacional. A luta política de um partido é para poder fazer o debate e mudar o comportamento do governo, mas não tem nenhuma perspectiva de impeachment do presidente da República.

Mas o senhor torce por isso?

Não. Torço para que as coisas se normalizem, precisamos no Brasil de estabilidade. O presidente Jair Bolsonaro foi eleito para cumprir os quatro anos de mandato, acho que a desorganização política nesses últimos anos tem prejudicado o país.

O senhor passou a acionar o Judiciário devido à publicação de desinformação em redes sociais. Mas não tinha essa postura antes. O que mudou?

Passei a acionar mais o Judiciário porque o nível da agressão passou dos limites, aumentou muito. Repetidas vezes que essas agressões são feitas me fez refletir que eu como governador preciso dar um exemplo claro de combate a fake news e de que rede social não é um ambiente de vale tudo. As pessoas têm que ter limite, respeito, não podem achar que ali é um ambiente sem regra, sem lei. Passei a acionar o Judiciário e acionarei sempre se alguma pessoa, tendo mandato ou não e que eu puder identificar, coloque informações falsas e promova agressão desnecessária na rede social. As pessoas, antes de digitar, antes de gravar um áudio, têm que se informar.

A eleição antecipada da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa voltou à tona com recente decisão da Justiça Federal, que definiu, em primeiro grau, que o pleito ocorra em fevereiro de 2021, como previsto originalmente na Constituição Estadual. O senhor ainda pode apoiar a reeleição do presidente da Casa, Erick Musso, ou após esse episódio estaria mais inclinado a alguém mais próximo da base, como o deputado Alexandre Quintino?

Fiz crítica ao movimento do passado (a eleição antecipada que deu a vitória a Erick e depois foi anulada). Isso é água que passou pela ponte. Minha relação com o Erick é muito boa e a Assembleia vai ter a oportunidade de discutir isso em janeiro do ano que vem. Sempre que se começa um debate antes da hora dá errado.

A eleição deste ano foi adiada para novembro - seria em outubro - e é municipal, mas os prefeitos costumam pedir apoio ao governador. Como o senhor pretende se posicionar nesta eleição?

Foi muito bom ter adiado para a gente sair um pouco dessa crise mais intensa que a gente está vivendo. Na eleição municipal, eu que sou governador do Estado, me comportarei como governador, não vou arbitrar eleição nos municípios. Poderei participar de uma ou outra campanha se os meus aliados estiverem todos juntos na mesma posição política. Mas, se eu tiver aliados disputando, vou respeitar todos os aliados. Não serei um árbitro nem tentarei colocar a mão forte do governo para tentar definir eleição em cada município. A população tem o direito de escolher o gestor que acha mais adequado. Minha posição não pode se limitar à posição do meu partido. É meu partido, mas tenho diversos aliados e tenho que respeitar esses aliados.
"Não serei um árbitro nem tentarei colocar a mão forte do governo para tentar definir eleição em cada município"
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O governo do Estado está elaborando um plano para retomada do crescimento da economia após a pandemia. Como isso seria e quais seriam os pilares? Prevê retomada de obras, por exemplo? Dará estímulos como incentivos fiscais?

Nós estamos elaborando um plano de retomada do Estado que só pode ser divulgado quando a gente conseguir reduzir o número de óbitos ou praticamente zerarmos o número de óbitos porque a nossa prioridade neste momento é ainda o enfrentamento da pandemia e a preservação de vidas. Mas estamos trabalhando com alguns pilares que são – o secretário Marcos Kneip (Desenvolvimento) está elaborando o plano – dar velocidade e retomada a obras públicas. Tomei uma decisão muito importante no ano passado, na hora que eu fiz aquele acordo com a Petrobras e de ter criado um fundo de infraestrutura, separado das despesas correntes do governo, o que me permitiu, neste momento de crise, não paralisar nenhuma obra e isso me permitirá dar velocidade às obras do governo do Estado em andamento. São obras do governo do Estado, obras em parceria com o setor privado, queremos ampliar PPPs e queremos agilizar também o contato com o governo federal para darmos velocidade aqui, na conversa com a bancada federal, nas obras do governo federal no Estado. Contorno do Mestre Álvaro, 447, proposta e projeto para a Companhia Docas, o apoio ao setor privado para que o porto da Imetame siga em frente, para que o porto Central siga em frente. Então, tem um conjunto de ações que parte é articulação, parte é investimento e parte é parceria que nós queremos dar velocidade a essas ações para gerar emprego e dinamismo no Estado do Espírito Santo com recurso público e privado. O outro pilar é a desburocratização, que nós já estamos fazendo. Reduzir a burocracia da máquina pública se faz com legislação nova, decretos novos, mas se faz também com incorporação de tecnologia. No ano que vem, o Estado não terá mais nenhum papel tramitando e circulando no governo do Estado e quem for dar entrada em algum processo no governo do Estado também não usará mais papel. A pandemia está fazendo com que a gente amplie nossa cultura e nossas possibilidades com relação ao uso de tecnologia.

Empresários ainda têm exposto dificuldade na obtenção de crédito para se manterem de pé, sobretudo os pequenos. O governo pode ampliar as linhas de crédito ou lançar novas? Pretende fazer novas ações de apoio a empresas?

Pode. Pode ampliar (linhas de crédito). Fizemos um fundo de aval de R$ 100 milhões com recursos desse fundo de infraestrutura, estamos com duas linhas de crédito que é até R$ 5 mil para o microempreendedor e outra linha de até R$ 31,5 mil para micro e pequena empresa. Pós-pandemia, vamos ter continuidade com essas linhas de crédito, vamos ampliar o crédito para a gente poder retomar a atividade.

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