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Histórico

PM que matou mulheres no ES acumula processos por homicídios e agressão

Levantamento feito pela reportagem da TV Gazeta aponta que o nome do cabo aparece em pelo menos seis processos judiciais
Redação de A Gazeta

Publicado em 

15 abr 2026 às 17:14

Publicado em 15 de Abril de 2026 às 17:14


O policial militar Luiz Gustavo Xavier do Vale, de 46 anos, preso após matar duas mulheres no bairro Cruzeiro do Sul, em Cariacica, acumula uma série de processos por homicídios e agressões ao longo de 18 anos de atuação na corporação. As informações foram apuradas pelo repórter André Afonso, da TV Gazeta.


Levantamento feito pela reportagem aponta que o nome do cabo aparece em pelo menos seis processos judiciais. Ao todo, cinco pessoas morreram baleadas em ocorrências envolvendo o policial, além das duas vítimas mais recentes. Outras duas pessoas ficaram gravemente feridas em ações que também tiveram a participação do militar.


Histórico inclui mortes desde o início da carreira


Cheverton Silva, foi morto durante uma abordagem em Porto de Santana, em Cariacica, em 2009
Cheverton Silva foi morto durante uma abordagem em Porto de Santana, em Cariacica, em 2009 Reprodução | TV Gazeta


O primeiro caso envolvendo Luiz Gustavo Xavier do Vale ocorreu em 2009, no primeiro ano dele na Polícia Militar. Na ocasião, um jovem de 23 anos foi morto durante uma ocorrência em Porto de Santana, Cariacica. Segundo o boletim da época, Sheverton Silva Gus estava armado e tentou atirar contra os policiais. Quatro agentes estavam presentes, mas apenas o cabo e outro colega efetuaram disparos. O inquérito foi concluído em 2013 e apontou legítima defesa.


Lara Croft, mulher trans assassinada em 2022 em Cariacica
Lara Croft, mulher trans assassinada em 2022 em Cariacica Arquivo A Gazeta


Em 2022, outra morte ganhou repercussão. Uma mulher trans de 34 anos, conhecida como Lara Croft, foi baleada durante uma abordagem em Cariacica. O policial alegou que a vítima teria ameaçado os militares com um barbeador. O caso segue em tramitação na Justiça Militar.

Em 2024, o militar voltou a se envolver em uma ocorrência com disparos. Ele participou de uma ação junto de outros dois militares no bairro Campo Grande, também em Cariacica, durante atendimento a uma denúncia de invasão a um galpão comercial. 

Na ocasião, o cabo Vale teria atirado e matado um homem identificado como Rone Calisto Meira, de 39 anos. Apenas o militar teria disparado três vezes e atingido a vítima na cabeça, conforme o boletim de ocorrência registrado à época. No documento, também consta, segundo relato dos militares, que Rone teria resistido à abordagem. O caso foi encaminhado para o Tribunal do Júri de Cariacica.

Rone Calisto Meira morreu após receber três disparos de arma de fogo
Rone Calisto Meira morreu após ser atingido por três disparos de arma de fogo Reprodução TV Gazeta

Denúncias por agressão e atuação fora do serviço

A reportagem da TV Gazeta apurou que, além dos casos de homicídio, o policial responde a denúncias por lesão corporal grave. Em 2020, ele foi denunciado pelo Ministério Público Militar após atirar quatro vezes contra um homem desarmado no bairro Porto Novo, em Cariacica. Testemunhas relataram que a vítima ainda foi derrubada com uma rasteira mesmo após ser baleada. O policial alegou ter sido desacatado, ameaçado e agredido e foi absolvido em primeira instância por falta de provas e atrasos na denúncia.


No mesmo ano, outro caso chamou atenção por ter ocorrido fora do serviço. Segundo as investigações, o militar atuava como segurança em uma boate em Itaparica, em Vila Velha — atividade não permitida para policiais da ativa — quando agrediu um jovem de 19 anos com socos e coronhadas. A vítima precisou  sofreu fratura no maxilar e ficou 30 dias internada.

Prisão e suspensão de militares

Após a morte das duas mulheres em Cariacica, a Justiça decretou a prisão preventiva do cabo do Vale, que segue detido no Quartel do Comando-Geral, em Vitória. 

Os seis policiais militares que presenciaram a execução das duas mulheres e não seguiram o protocolo da corporação, que prevê intervenção em crimes contra a vida, foram afastados

TJES e MPES

Procurado, o Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo informou que há, no momento, Inquérito Policial Militar em curso na Corregedoria da Polícia Militar, destinado à apuração de condutas atribuídas ao investigado Cabo Vale, inclusive no âmbito de eventuais crimes militares.

"A Justiça esclarece, ainda, que casos envolvendo homicídios dolosos, após a regular tramitação processual, não são de competência da Vara da Auditoria Militar. Nessas hipóteses, ocorre o declínio de competência para o julgamento pelo Tribunal do Júri, nos termos da legislação vigente", esclareceu.

Já o Ministério Público informou que "acompanha os graves fatos noticiados e reafirma que toda conduta criminosa, especialmente quando atribuída a agente público, deve ser apurada com isenção e rigor, na forma da lei". Além disso, a instituição ressaltou que "acompanhará as apurações e adotará as medidas cabíveis, inclusive no âmbito do controle externo da atividade policial e da responsabilização penal, com observância ao devido processo legal".

As defesas

Procurada pela reportagem, a Associação das Praças da Polícia e Bombeiro Militares do Espírito Santo (Aspra-ES) informou que o cabo Vale não é associado e que, por isso, não teria legitimidade para falar sobre o fato. Acrescentou ainda que, mesmo assim, disponibilizou um advogado para fazer o primeiro atendimento e prestar auxílio. "Inclusive, nosso advogado está acompanhando o militar desde o início dos procedimentos legais", afirmou. 

Sobre os demais seis militares envolvidos na ocorrência, a entidade repudiou o afastamento e disse se tratar de uma conduta "isolada" de um policial militar. Destacou ainda que os demais agentes não contribuíram para a ação que terminou em duas mortes. 

Nota na íntegra

Aspra-ES

"A Associação das Praças da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Espírito Santo (ASPRA-ES) vem a público manifestar seu veemente repúdio ao ato do Governo do Estado que determinou a suspensão de policiais militares em decorrência de um fato grave envolvendo a conduta isolada de um policial militar, que resultou na morte de duas mulheres após uma discussão onde elas teriam ameaçado seu filho autista de morte.


 É imprescindível deixar claro que nosso posicionamento não se refere à conduta do autor dos disparos. Trata-se de um episódio lamentável, que exige apuração séria, transparente e responsável, assegurando, como prevê a lei, o direito à ampla defesa e ao contraditório. Entretanto, causa profunda indignação e espanto a decisão de punir, de forma indiscriminada, outros policiais militares que não tiveram qualquer participação no ocorrido.


É importante esclarecer, de forma categórica, que os demais policiais presentes não contribuíram para a ação, não possuíam conhecimento prévio e tampouco tinham condições de antecipar a atitude do autor, cuja conduta foi repentina e inesperada, impossibilitando qualquer intervenção preventiva por parte da equipe. Ressalte-se, ainda, que, imediatamente após o fato, o militar foi contido, desarmado e preso pelos próprios policiais, sendo prontamente apresentado à autoridade competente, ocasião em que foram adotadas todas as medidas legais cabíveis, assegurando-se o devido processo legal.


Diante disso, é inadmissível que profissionais que agiram corretamente sejam agora alvos de “medidas cautelares” com nítido caráter punitivo, aparentando servir apenas como resposta à imprensa e à sociedade. Vivemos em um cenário desafiador onde discutimos a saúde psicológica dos profissionais de segurança pública. Ao invés de afastar os policiais para um tratamento psicológico após um evento traumático, adota-se uma conduta preocupante que pune os policiais, potencializando ainda mais os efeitos psicológicos nesses profissionais, bem como em toda tropa que recebe essa decisão de forma inacreditável.


A decisão adotada pelo Governo do Estado revela um preocupante viés de resposta política sob pressão, penalizando injustamente policiais comprometidos com o serviço e causando prejuízos diretos à segurança pública, ao retirar das ruas profissionais experientes e capacitados, essenciais no enfrentamento da criminalidade no município de Cariacica. Reforçamos que não defendemos condutas ilegais, devendo o caso ser tratado com legalidade e transparência. Portanto, é igualmente necessário assegurar que não haja generalizações ou punições coletivas, sob pena de enfraquecimento institucional e desvalorização da tropa.


Trata-se de um episódio isolado, que não reflete os valores, a ética e o compromisso da corporação com a legalidade, a preservação da vida e a segurança da sociedade capixaba. Por fim, dirigimo-nos ao Governador do Estado para lembrar que liderar é agir com equilíbrio, responsabilidade e justiça, sobretudo nos momentos de maior pressão. A tropa militar observa, acompanha e não esquecerá decisões que desconsideram o compromisso e a dedicação de seus profissionais.


Em um cenário em que Vossa Excelência se apresenta novamente ao crivo da população, fica o registro de que segurança pública se faz com valorização, respeito e responsabilidade, e não com medidas precipitadas que penalizam inocentes."

*Com informações do repórter André Afonso, da TV Gazeta

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