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As escolas de samba que deixaram saudades no Carnaval do ES

As escolas de samba que deixaram saudades no Carnaval do ES

A crise econômica e política dos anos 1990 fizeram com várias escolas deixassem de desfilar. Relembre algumas delas

Publicado em 16 de fevereiro de 2020 às 15:41

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Desfile da Escola de Samba Amigos da Gurigica em 1986. (Arquivo AG)

Os anos 1970 e 1980 foram considerados a "Era de Ouro do Carnaval Capixaba".  Na época, havia cerca de 40 escolas de samba reunidas em quatro grupos.  Em 1987, chegava o Sambão do Povo, em Vitória, o segundo do gênero a ser inaugurado no Brasil, apenas três anos após a Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro.  O governo do Estado organizava a folia, que era coordenada pela extinta Emcatur. O samba progredia impulsionado com a ideia de progresso, em uma visão voltada para o estímulo do turismo.

A crise econômica e política dos anos 1990 trouxe a decadência do carnaval no Estado. Devido à falta de recursos, e especialmente o descaso das instâncias públicas, os desfiles deixaram de acontecer por cinco anos, entre 1993 e 1998. O hiato foi crucial para o fim de algumas agremiações que deixaram saudades, como a Santa Lúcia (duas vezes campeã, em 1967 e 1972), Acadêmicos de Monte BeloLira do Moscoso, Originais do Contorno, Pulo do Gato, Unidos da Penha e Vai Quem Quer, só para citar as ausências mais sentidas.

Desfile da Escola de Samba Pulo do Gato, em 1988. (Arquivo AG)
Desfile da escola de samba Originais do Contorno em 1989. (Arquivo AG)
Desfile da Lira do Moscoso no Sambão do Povo, em 1989. (Nestor Müller/Arquivo A Gazeta)

"O que aconteceu foi um enfraquecimento do samba capixaba em proporções que possuem reflexos até hoje", garante o historiador e mestre em Estudos Urbanos e Regionais Marcus Vinicius Sant'Ana. De acordo com o especialista em carnaval, parte da essência das escolas foi perdida e muitas agremiações não tiveram condições estruturais, e nem mobilização social, para prosseguir. 

"Houve uma espécie de ruptura em muitas comunidades. Das escolas ainda existentes, apenas a Unidos de Jucutuquara e a Unidos da Piedade mantiveram suas atividades durante o início dos anos 1990. A Piedade fazia ensaios e feijoadas no intuito de manter os integrantes mais próximos. Muito se deu graças à liderança do Mestre Edu, seu antigo mestre de bateria", relembra.

"Por sua vez, a Jucutuquara seguiu graças à ânsia dos componentes em não deixar o samba morrer, tanto que chegaram a criar o Bloco da Coruja, que atravessava as ruas do bairro enquanto o desfile estava parado", complementa.

FORA DE ÉPOCA

Marcus Vinicius ressalta que fatores externos, como o aparecimento do Vital, em 1994, também podem ter influenciado a extinção de algumas escolas. "Temos exemplos como o da Mocidade da Praia, duas vezes campeã (em 1981 e 1984) e que viu grande parte de seus integrantes em bairros como a Praia do Canto, Jardim da Penha, Jardim Camburi e Mata da Praia, em Vitória, buscando outra forma de brincar o carnaval. Só em 2017 eles conseguiram retornar", pontua.

Desfile da escola de samba Amigos da Gurigica em 1986. (Arquivo AG)

O historiador ressalta a ausência da Amigos da Gurigica (que venceu a competição do grupo especial por cinco vezes) como uma das perdas mais sentidas para o samba capixaba. A escola foi extinta no final dos anos 1980. "Foi uma das agremiações mais inovadoras do Estado, até porque tinha Coronel Hélio como presidente e contava com o aporte do governo militar", informa, detalhando que muitas pessoas acompanhavam os desfiles para ver o tradicional surdo de seis metros, que a plateia chamava carinhosamente de "gurigicão". 

"Eles também tinham o suporte da Beija-Flor de Nilópolis e foram os primeiros a se apresentar com carros de som. O fim do governo militar acabou enfraquecendo a escola", acredita, informando que boa parte dos componentes migrou para a Pega no Samba, com sede em Consolação, bairro vizinho.

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Desfile da escola de samba Santa Lúcia em 1982. (Arquivo AG)

Outra ausência ressaltada pelo estudioso é a escola de samba Santa Lúcia. "Tinha invejável força junto à comunidade, fazendo desfiles empolgantes e tecnicamente muito bons. Sua estrutura veio das batucadas e contava com a influência do Santa Cruz FC , que ficava no mesmo bairro. A fusão samba com futebol sempre deu muito certo e fez com que a Santa Lúcia se sobressaísse no carnaval por muitos anos", conclui.

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