A projeção de aumento do PIB para 2021 revela um lado positivo do atual momento econômico do país, mesmo com a pandemia da Covid-19. Contudo, não é apenas a crise sanitária que se reflete nos rumos da economia, dificultando a retomada das atividades com todo o seu potencial. Fatores como inflação, crise hídrica e a conjuntura política nacional tiram o Brasil da rota do crescimento sustentável e precisam ser enfrentados.
Esses são alguns dos aspectos apontados por Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos e ex-integrante da equipe do ministro Paulo Guedes, que traz a reflexão para o Fucape Open - "Cenários Econômicos, reformas e perspectivas para 2022", nesta sexta-feira (17), em Vitória. No encontro, promovido pela Fucape e com apoio da Rede Gazeta, o debate vai reunir outros nomes de peso e mostrar tanto os caminhos por onde o país segue bem quanto em que pontos precisa avançar.
Nesta entrevista, Caio Megale compartilha suas percepções sobre a conjuntura do Brasil e avalia ainda que, no contexto de pandemia, a vacinação é crucial para o processo de retomada econômica. Confira:
No encontro em que vai participar, a discussão se dará em torno de cenários e perspectivas para 2022. Que análises o senhor traz da conjuntura atual e quais projeções para o ano que vem?
Vamos fazer uma discussão sobre o Brasil pós recessão da pandemia. Não diria pós-pandemia porque ainda estamos nela e vamos continuar por muito tempo. Talvez não como a conhecemos, mas a Covid certamente não vai embora - vai ser como a gripe aviária, a influenza; estará sempre conosco. Aquele choque inicial que a economia mundial teve no ano passado, que provocou uma queda brutal de PIB, agora estamos vendo retomada. A recuperação este ano está sendo muito positiva no Brasil, tanto pelos pacotes governamentais, quanto, mais recentemente, pela aceleração da vacinação e a reabertura da economia.
Então, a economia este ano está apresentando resultados surpreendentes quando se compara ao início do ano. A média dos economistas previa crescimento do PIB em torno de 3% e deve fechar o ano com mais de 5%. Essa é a primeira parte da conversa que vamos ter; a segunda parte já não é tão bacana. Quando estende o horizonte de análise para o ano que vem, esses ventos favoráveis estão diminuindo, e começam a entrar ventos contrários importantes.
E quais são esses desafios?
O primeiro é que junto à recuperação da economia veio uma onda de inflação importante. Do mesmo jeito que o PIB surpreendeu, a inflação também surpreendeu. O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor) estava batendo perto de 10% na metade do ano - e era de 2% há um ano. Essa aceleração tem a ver com custos de produção, interrupções de cadeias globais, com a taxa de câmbio muito depreciada no Brasil. Tem a ver também com certo exagero de estímulos à demanda; a demanda interna muito aquecida por algum tempo, permitindo repasse de preços muito grandes.
Esse é o primeiro desafio: a inflação, que acaba trazendo, para combatê-la, uma aceleração da alta de juros do Banco Central, que já sinalizou que vai fazer pelo menos mais alta de 1 ponto percentual, indo a 6,25, neste ano. A nossa expectativa é que os juros vão até 8,5%, mas tem gente no mercado estimando em 9%, 9,5% 10% de taxa Selic. Este ano ainda estamos surfando o juro baixo, mas ano que vem vamos começar com juros altos e sem os auxílios, no máximo, uma 'expansãozinha' do Bolsa Família.
A inflação alta e o seu combate tendem a jogar água na economia, mas também temos o ambiente político. As tensões, a disputa eleitoral muito antes do esperado, estão influenciando nas decisões das empresas, nas votações no Congresso, também está refletido na Bolsa de Valores caindo, na taxa de juros futuros subindo.
Como se não bastassem a pandemia, a inflação e a temperatura política e fiscal elevada, a crise hídrica já jogou os custos de energia lá para cima e sinaliza com risco de apagão para frente - não é o cenário mais provável, mas tem um risco relevante. Por fim, um ambiente internacional - o mundo também vai começar a desacelerar. O crescimento forte deste ano pode se traduzir numa ressaca no ano que vem, com crescimento bem mais baixo.
E como lidar com esses desafios?
Alguns deles são fatos da vida. A inflação alta é em função de desequilíbrio do passado e esse desequilíbrio precisa ser corrigido nem que o governo precise pisar no freio mais forte. Então, a alta de juros não tem jeito, é o melhor a fazer - um remédio amargo contra um problema que é pior: a inflação. Do ponto de vista fiscal e político, é preciso trabalhar para abaixar a temperatura, reduzir os atritos entre poderes porque aí se tem perspectiva mais clara de aprovação de temas como orçamento público para o ano que vem, que é superimportante. Da crise hídrica, atuar para melhorar a eficiência do fornecimento de energia, medidas preventivas, segurar um pouco o consumo. Nisto, o governo está indo atrás, mas não parece que há um senso de urgência tão claro quanto a gravidade do problema demandaria.
As reformas que estão em discussão contribuiriam nesse processo de recuperação da economia? Em sua avaliação, qual é a mais urgente?
Sem dúvidas. As reformas fazem parte do trabalho de pavimentar um processo de recuperação econômica mais sustentado, com espaço para transferência de recursos sociais, investimentos. Hoje nosso orçamento público está todo engessado em previdência, folha de pagamento. Nesse sentido, duas reformas são chaves: a administrativa, que melhora a eficiência do setor público, e a tributária para diminuir a complexidade. As duas são muito grandes e complexas para serem aprovadas no curto espaço de tempo que temos. Então, eu
focaria na administrativa que me parece ter mais consenso na sociedade na direção que deveríamos ir.
Os indicadores de emprego não se mostram favoráveis. No Espírito Santo, por exemplo, a oferta de vagas cresce, mas em ritmo lento frente à demanda. Mês que vem, o auxílio emergencial também deixa de ser concedido. Qual caminho o senhor aponta para estimular a geração de emprego e renda?
Em parte, acho que é um processo natural de demora (recuperação dos empregos). Especialmente com a pandemia, as empresas - as micro e pequenas, que compõem o grosso da geração de emprego com comércios e serviços - estão muito machucadas, com medo do 'abre e fecha'. A melhor coisa é o tempo mesmo, garantindo que vai ter um processo mais prolongando de abertura, e a vacinação. O foco na vacina continua sendo absolutamente crucial. Avançamos bem neste semestre, mas continua sendo crucial para frente. Outro fator é: eu emprego quando tenho perspectivas claras e voltamos naquele ponto de reduzir as tensões políticas para que as votações no Congresso retomem e tenhamos visibilidade mais clara para o futuro.
Como o mercado avalia essa conjuntura política e econômica, a retomada da confiança no país a perspectiva de retomada de investimentos?
O mercado se preocupa muito com a sustentabilidade das contas públicas. O Brasil é um país hoje muto endividado, ainda roda no vermelho - está indo para o sexto ou sétimo ano seguido no vermelho - com déficit nas contas públicas. Então, é muito importante a manutenção do teto de gastos, que a tramitação do Orçamento não abra espaço para gastos insustentáveis e populistas no ano que vem. Tudo isso é importante. É 'olho número um' nisso, no curto prazo, na gestão do Orçamento que envolve a questão da temperatura política, e 'olho número dois', que vê no médio prazo para saber se vamos ter no próximo governo, seja lá quem for, uma gestão que continue abraçando a pauta das reformas estruturais.
Com a sua passagem pelo atual governo - ele ex-integrante da equipe econômica de Paulo Guedes - a sua visão da gestão pública hoje é diferente?
Passamos a entender um pouco melhor as pressões, a complexidade. Fica mais claro que não é simplesmente ajustar as contas e pronto; é preciso
costurar e coordenar com diversas áreas da sociedade, entender realidades regionais muito distintas.
Eu me lembro, por exemplo, que no governo eu tive uma longa conversa com o governador (Renato Casagrande) e senadores do Espírito Santo com relação ao gás - um tema muito importante para o Estado, um dos primeiros a aderir à nova lei do gás. Em outros locais, o foco maior é a agricultura, ou o transporte, a mineração. É preciso entender as diferenças regionais, mas sempre ter uma preocupação de sustentabilidade. O papel do economista, do gestor das finanças do país, é exatamente mostrar para a sociedade que tem muita coisa que seria legal e importante gastar agora, mas, se gastar de forma insustentável, a felicidade de agora, vai ser tristeza depois. É necessário manter o equilíbrio.
O governo federal sinaliza que o pagamento de precatórios, determinado pela Justiça, pode comprometer a implementação de políticas públicas em 2022. Qual análise o senhor faz sobre esse cenário?
É uma despesa líquida e certa, está tramitado em julgado. Não tem muito o que fazer; tem que pagar. Se não pagar, vira uma dívida que cresce a taxa Selic. A minha visão, como temos o teto de gastos, e a aceleração dos precatórios toma boa parte do teto, deveria tirar um pedaço do teto e pagar automaticamente. Não tem alternativa. É possível manter no teto de gastos, mas politicamente vão ficar comprimidas outras despesas, como o avanço do Bolsa Família.
Por fim, que outras projeções faz para o país?
É legal lembrar que foram feitas algumas reformas importantes ao longo dos últimos anos - o teto de gastos, desalavancagem dos bancos públicos, a reforma da Previdência, mais recentemente o marco legal do saneamento, a lei do gás. Então tenho a impressão que o mundo ainda é positivo, e se conseguir domar os riscos de curto prazo e baixar a temperatura política,
o Brasil pode ter um caminho promissor a partir de meados do ano que vem, do pós-eleitoral. A mensagem estrutural é positiva, mas vamos ter que passar um período, daqui até as eleições, que parece ser um período de muita nebulosidade e certamente de muita volatilidade.