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Vitória 475 anos

Sabores e ritmos: histórias de moradores que ajudam a construir a cultura de Vitória

Da marisqueira na Ilha das Caieiras ao poeta da periferia, moradores contam como suas histórias foram moldadas pela paixão por manifestações culturais e artísticas

Publicado em 06 de Setembro de 2026 às 10:54

João Guimarães

Publicado em 

06 set 2026 às 10:54
Vista de Camburi, na Capital: Vitória chega aos 475 anos embalada também pelas transformações pessoais de seus habitantes Leonardo Silveira

Capital do Espírito Santo, Vitória completa 475 anos nesta terça-feira (8). Com mais de 340 mil habitantes, segundo estimativas para 2026 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade chega a quase cinco séculos de história marcada por diferentes culturas, paisagens e personagens que ajudaram a construir sua identidade.


Seja nos mangues, seja nos ritmos, a capital capixaba é construída pelos moradores que dão voz e rosto a uma cidade centenária. Simone Leal é uma delas, e chegou à Ilha das Caieiras aos 8 anos de idade.


A capixaba conta que, ainda pequena, aprendeu uma atividade que move a culinária da região: desfiar siri e descascar camarão. Foi em meio às brincadeiras no mangue durante a infância que encontrou a profissão que pratica até hoje, são mais de três décadas de atuação como marisqueira.

Simone Leal, marisqueira
Simone Leal trabalha como marisqueira há mais de 30 anos Ricardo Medeiros

O mangue representa tudo na minha vida, porque foi através dele que eu consegui construir a minha casa e educar os meus filhos. Eu sou grata, primeiro, a Deus e, depois, a esse manguezal chamado Ilha do Lameirão”

Simone Leal, marisqueira

O trabalho das marisqueiras vai muito além da alimentação. É uma atividade tradicional que atravessa gerações e faz parte do cotidiano da Ilha das Caieiras.


“Eu me sinto muito honrada. É gratificante saber que eu faço parte de uma comunidade onde a torta capixaba, a moqueca capixaba, a desfiadeira de siri e o pescador têm tudo a ver com a nossa cultura. Então, me sinto uma rainha dentro da minha comunidade”, comenta Simone.


O preparo dos mariscos também é acompanhado de música. Simone conta que costuma cantar enquanto prepara os pratos.


“A ilha tem, eu vou mostrar: nossa beleza vem do mar. A ilha tem, eu vou mostrar: nossa riqueza é o manguezal”, canta.

Do mangue ao samba

Da Ilha das Caieiras ao Território do Bem, o samba e o carnaval de Vitória movimentam não apenas os bloquinhos da festa em fevereiro, mas também a juventude. A musa de carnaval Laysa Galter se interessou pelo carnaval por influência do pai, que trabalhava na cobertura fotográfica do evento.


Com 8 anos, Laysa foi levada pelo pai até uma feijoada na Unidos de Jucutuquara, escola de samba de Vitória. Desde então, está imersa no carnaval da Capital.

A estudante Laysa Galter, 20 anos, é apaixonada pelo samba e o carnaval.
Laysa também participa dos bastidores do carnaval, ajudando na produção de fantasias Carlos Alberto Silva

Foi algo muito transformador para mim. Foi o espaço em que eu desenvolvi a minha autoestima e a personalidade que tenho hoje

Laysa Galter, estudante e musa do carnaval

As ruas de Vitória pulsam música e cultura, impulsionadas por quem vive e percorre o município. Hoje, aos 20 anos, Laysa destaca como o bairro onde vive e a escola de samba ajudaram a construir sua personalidade.


“Nós conhecemos muito as necessidades e o carinho da comunidade. Dentro do samba, é algo muito parecido, porque é sempre um senso muito grande de comunidade: fazer tudo junto. Então, a partir desse momento, que eu fui construindo meus ideais, minhas ideias de vida e a minha ética”, comenta.


Assim como uma escola de samba, a cultura é feita de muitas vozes e tradições que atravessam gerações.


“A sensação de estar perpetuando a cultura é incrível. Tem uma galera da minha escola que não é minha família de sangue, mas que faz parte da minha família de Carnaval. Então, é muito bom ver o orgulho que eles têm de mim por estar participando e levando a escola para a avenida”, afirma.

A periferia também conta esta história

Assim como o samba, o slam também tem raízes na periferia. Em Vitória, essa arte encontrou uma juventude que utiliza a poesia para reafirmar sua existência e discutir questões sociais.


O poeta Bartô Dias cresceu no bairro Romão. Para ele, a cultura capixaba foi primordial para lapidar seu olhar poético. Foi através de um sarau  no morro de Caratoíra, que Bartô teve o seu primeiro contato com o slam. Desde então, ele nunca mais parou de escrever e declamar seus poemas que envolvem críticas sociais, cultura e a cidade de Vitória.

Criado no Morro do Romão , Bartô encontrou no slam uma forma de transformar as vivencias da periferia em poesia. Arquivo pessoal

Eu costumo retratar Vitória como uma das cidades mais bonitas do Brasil. O quanto que somos belos, o quanto que a nossa cultura é poderosa

Bartô Dias, artista

Em suas poesias, Bartô utiliza a arte como ferramenta social para denunciar desigualdades: racismo, injustiça social e violência policial. “Nós, o povo da periferia, somos quem movimenta e é quem faz acontecer. Então a identidade de Vitória não funciona sem a periferia”, comenta

A cultura também está à mesa

Se tem algo que orgulha o capixaba é a culinária: moqueca, torta e muitos frutos do mar. Clemar Vieira, popularmente conhecido como Seu Bigode, é dono do Restaurante do Bigode e se tornou um personagem conhecido de Vitória, especialmente pela contribuição na construção do bairro Jesus de Nazareth.


A relação com o bairro vem de família. O pai de Seu Bigode chegou à região no período de formação da comunidade. Desde os 10 anos, Clemar começou a trabalhar para ajudar nas despesas da família. Com o passar dos anos, tornou-se pescador e ficava muitos meses longe da família, até que a esposa pediu para que ele abrisse um restaurante para ficar mais perto de casa.


A ideia cresceu e, hoje, o negócio se tornou um fenômeno nas redes sociais, com mais de 80 mil seguidores. Entre comida, paisagens e bom humor, Bigode compartilha a cultura capixaba por meio da culinária.

Clemar Viegas, dono do Restaurante do Bigode
Clemar Viegas, dono do Restaurante do Bigode, é figura conhecida na Capital Ricardo Medeiros

O pessoal que vem quer me conhecer e tirar foto comigo. No restaurante, vem japonês, americano, inglês e até gente da Arábia Saudita

Seu Bigode, proprietário do Restaurante do Bigode

Entre os pratos do restaurante, um é a estrela do estabelecimento: a moqueca capixaba. Servir a receita típica também é uma forma de manter viva uma tradição que atravessa gerações e faz parte da história de Vitória.


No aniversário de 475 anos, a capital capixaba é celebrada não apenas por suas paisagens ou pelos quase cinco séculos de história, mas também pelas pessoas que mantêm suas tradições vivas.


Entre o mangue, o samba, o slam e a moqueca, são essas histórias que ajudam a contar quem é Vitória.

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