Duas mulheres que se relacionaram com o mesmo homem, no Espírito Santo e em São Paulo, relatam ter descoberto dívidas que desconheciam durante os relacionamentos e passado a receber cobranças de agiotas após o fim da convivência.
Em Cariacica, a pedagoga Keyla Helmer, de 25 anos, deixou a própria casa por medo depois que o então namorado revelou dívidas com agiotas e foi embora. Na capital paulista, Fernanda Lima, que ficou noiva do mesmo homem em 2024, afirma ter sofrido um prejuízo de aproximadamente R$ 50 mil, além de receber ameaças contra familiares. Fernanda autorizou a divulgação de seu nome, mas pediu que seu rosto não fosse mostrado. Por isso, sua imagem foi desfocada nas fotografias que acompanham a reportagem.
Segundo Keyla, as dívidas do ex-companheiro com cerca de 30 agiotas chegam a aproximadamente R$ 200 mil. Além desses valores, ela relata ter descoberto cerca de R$ 20 mil em débitos no próprio nome, relacionados a cartões de crédito e empréstimos que afirma desconhecer.
As duas entraram em contato depois que uma amiga de Fernanda reconheceu o homem em pulicações sobre o caso de Keyla que viralizaram nas redes sociais. Ao conversarem, identificaram semelhanças nos relacionamentos, desde a aproximação com as famílias e a decisão de morar juntos até a descoberta das dívidas.
Estou me sentindo muito traída. Mas agora, vendo que ele fez exatamente a mesma coisa, estou ficando indignada
Keyla Helmer Pedagoga
A pedagoga registrou um boletim de ocorrência no Espírito Santo, ao qual a reportagem teve acesso. Fernanda também buscou a polícia em São Paulo após conhecer o relato de Keyla.
As duas também relatam ter recebido informações sobre possíveis casos semelhantes envolvendo mulheres no Rio de Janeiro e em Santa Catarina. Segundo Fernanda, o homem teria vivido em Santa Catarina com uma ex-esposa e uma filha. Esses relatos não foram confirmados pela reportagem.
O relacionamento de Keyla com o ex-companheiro completaria um ano neste mês de novembro. Em abril, os dois decidiram morar juntos na casa da pedagoga, que ficava perto do trabalho dela.
“Como namorávamos e nos dávamos muito bem, ficávamos mais na casa um do outro. Em abril, pensamos em uma questão de logística. Eu não queria sair da minha casa, pois era perto do meu trabalho”, explicou.
Meses depois, em 21 de outubro, o namorado revelou que devia aproximadamente R$ 180 mil a cerca de 30 agiotas. Com as cobranças posteriores, o valor relatado por ela chegou a R$ 200 mil.
“Eu fiquei assustada, achei até que era um exagero. Falei que ele estava doido. Eu fiquei desnorteada com as mensagens que ele mandou”, contou.
Em conversas por WhatsApp fornecidas à reportagem, Keyla disse ao então namorado que precisava de um tempo e passaria alguns dias com a família. Ele respondeu que a situação poderia se complicar nos dias seguintes e afirmou ter colocado a vida dos dois em risco.
Quando voltou à residência para buscar objetos pessoais a pedagoga percebeu que ele havia retirado os próprios pertences. Na conversa, perguntou se ele a deixaria naquela situação.
“Se eu não conseguir pagar algumas dessas dívidas, posso pôr você em risco”, escreveu o homem, que também mencionou a possibilidade de ir para São Paulo trabalhar para quitar os débitos.
Sem saber a que perigo o namorado se referia, Keyla procurou o pai. “Depois dessas mensagens, liguei para o meu pai, que falou para eu pegar umas coisas pessoais minhas e ficar com algum familiar até entender de que perigo ele estava falando. Pois, se fosse agiota mesmo atrás dele, ia procurar onde eu morava”, relatou.
Segundo a pedagoga, no dia seguinte à sua saída, começaram a chegar mensagens de cobrança e pessoas passaram a procurar o ex-companheiro. Keyla afirma que não recebeu ameaças diretas, mas teme pela própria segurança e precisou se afastar do trabalho.
As dívidas do meu nome vou negociar com banco, como uma pessoa normal. Agora, agiota, eu nem sei como lidar com essas pessoas. Parece coisa de filme esse monte de gente cobrando
Keyla Helmer Pedagoga
No boletim de ocorrência, Keyla relatou que permitiu ao então namorado utilizar seus cartões e acessar determinadas contas e documentos porque confiava nele. Segundo ela, o homem alegava precisar resolver uma situação de bloqueio judicial.
A pedagoga informou à polícia que desconhecia os empréstimos e não havia participado das negociações. Tamém relatou que o ex-companheiro teria fornecido seu telefone e endereço como referências aos credores.
Após recuperar o acesso às contas bancárias, ela começou a analisar os extratos e identificou movimentações que chamaram sua atenção.
Olhando os extratos bancários, as entradas e saídas são para as mesmas pessoas. Entrava de uma, pagava outro. Até fui ver, depois da repercussão, se tinha dinheiro para bets, casas de apostas, mas não identifiquei
Keyla Helmer Pedagoga
No registro policial, Keyla pediu que fossem apuradas as operações financeiras e a eventual utilização de seus dados em transações que desconhecia ou não havia autorizado. Ela também informou ter procurado a Defensoria Pública.
Fernanda conheceu o homem entre o fim de 2023 e o início de 2024, em um shopping de São Paulo. Ela trabalhava na decoração de Natal, enquanto ele era gerente de uma loja.
O pedido de casamento aconteceu em abril de 2024. Cerca de dois meses depois, o casal se mudou para um apartamento alugado no nome dela. Antes disso, o homem chegou a morar por aproximadamente um mês com a família de Fernanda.
“Durante o relacionamento, eu nunca percebi ele sendo uma pessoa ruim, agressiva, nada do tipo. Muito pelo contrário, era muito família”, contou. Segundo ela, a mãe e a tia também ajudaram a custear o noivado.
Um dos episódios que marcaram a descoberta das dívidas ocorreu quando o então noivo disse que precisava entregar a máquina de lavar como garantia a um credor. Posteriormente, ele afirmou que precisava ir embora e deixou o apartamento. Segundo Fernanda, o homem ainda manteve contato por e-mail durante um período, mas não voltou.
Fernanda relata que, depois da saída dele, passou a receber cobranças acompanhadas de ameaças contra familiares.
Ele deu o endereço da minha mãe. Quando os caras começaram a me procurar, porque eu acho que ele deixou meu número de telefone, começaram a mandar print do Google Maps da frente da casa da minha mãe, ameaçando ir lá
Fernanda Lima Ex-noiva
Ela conta que também recebia ligações de pessoas que se apresentavam como entregadores e passou a ter medo de sair para trabalhar. “Eu saía às 7h da manhã, tinha um monte de motoboy na rua, me espreitando até eu chegar no trabalho. Às vezes, eu tinha que sair de dentro do meu condomínio no carro, abaixada, para ninguém me ver. Eu passei um inferno na minha vida por causa de agiota”, relatou.
Segundo Fernanda, o ex-companheiro também utilizou sua conta bancária. Ela afirma ter pago um dos credores após ameaças à família e a uma amiga.
Depois que o homem deixou o apartamento, Fernanda precisou resolver as pendências do imóvel, que estava alugado em seu nome. Somadas às demais despesas, ela estima ter arcado com aproximadamente R$ 50 mil.
“Eu tive que devolver o apartamento, tive que reformar o apartamento. Ele deixou mais de R$ 6 mil de dívida de conta de luz, coisas do próprio condomínio também que eu tive que pagar. Somando tudo com que eu tive que arcar, acho que foi por aí uns R$ 50 mil, mais ou menos”, contou.
Fernanda relata que desenvolveu um quadro de depressão e tentou resolver a situação sem contar imediatamente à família. Naquele período, também passava por uma avaliação que resultou no diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA).
Ela afirma que não procurou a polícia na época porque estava abalada e tentava preservar a si mesma e aos familiares. Após conhecer a história de Keyla, no entanto, decidiu registrar o caso na polícia, em São Paulo.
A Polícia Civil do Espírito Santo informou que o caso está sendo investigado pelo 17º Distrito Policial de Cariacica. Segundo a corporação, as diligências buscam identificar e responsabilizar os possíveis envolvidos.
Informações que possam contribuir com a investigação podem ser repassadas de forma anônima pelo Disque-Denúncia 181, pelo telefone 181, pelo site oficial ou pelo WhatsApp (27) 99253-8181.
A reportagem de A Gazeta também procurou a Polícia Civil de São Paulo para obter informações sobre o registro feito por Fernanda Lima, mas não recebeu retorno até a última atualização desta matéria.