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Ex-marido condenado

Médica é vítima de "estelionato sentimental" no ES; entenda o crime

Ex-marido foi condenado a mais de quatro anos de reclusão. Golpe consiste em obter vantagens e bens por meio de falso vínculo amoroso. Veja como se proteger

Publicado em 26 de Agosto de 2022 às 18:09

Larissa Avilez

Publicado em 

26 ago 2022 às 18:09
Após fingir estar apaixonado e casar em poucos meses de relação com a vítima, um capixaba foi condenado a mais de quatro anos de reclusão por ter se aproveitado do vínculo amoroso para obter bens da então esposa de maneira ilícita — configurando um crime chamado de “estelionato sentimental”. A decisão em segunda instância foi divulgada nesta quinta-feira (25) pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES).
Conforme consta no processo, os golpes teriam sido cometidos entre junho de 2013 e dezembro de 2014. De um lado estava a mulher, uma médica. Do outro estava o golpista, nascido em Vitória, que se dizia advogado e “pessoa influente na maçonaria capixaba”. Na época, ambos tinham aproximadamente 45 anos.
Apresentados por uma amiga em comum, os dois começaram a manter o que parecia ser um relacionamento saudável. No entanto, segundo aponta o parecer judicial, o homem já estava arquitetando o golpe, “simulando grande interesse pela mulher e propondo o casamento em pouco mais de dois meses”.
Casamento escondia golpes de estelionato
Segundo especialistas, mulheres são a maioria das vítimas do chamado "estelionato do amor" Crédito: Divulgação | TJES
Ainda segundo o processo judicial, durante a relação, o homem deu início a uma série de estelionatos. Entre eles destaca-se a compra de um apartamento na Praia da Costa, em Vila Velha, no valor de R$ 612 mil. Inicialmente, ele teria se comprometido a quitar a metade, mas convenceu a esposa de que pagaria a quantia quando ele vendesse um outro  imóvel que tinha na Capital.
Colocando em ação o chamado nos autos de “ardiloso plano", o homem fez a vítima assinar um documento que fazia com que ele passasse a ser o único dono do apartamento. Para isso, o acusado teria ido até um hospital durante o plantão médico da esposa, e pedido para que ela assinasse rapidamente os papéis, sem tomar ciência do conteúdo.
Posteriormente, agindo de forma semelhante, o marido fez com que a mulher assinasse outro documento, dizendo que havia recebido o montante devido pelo imóvel. Após se garantir da posse, ele mudou o regime do casamento: passando de comunhão total para separação de bens, por meio de uma procuração, sem que a vítima soubesse.
"Ele agiu de maneira premeditada e calculista, antes mesmo do matrimônio, antevendo todos os atos necessários para obter a vantagem patrimonial indevida em detrimento do sentimento e finanças da esposa"
Willian Silva - Desembargador e relator do processo
Cerca de quatro meses depois, a médica tomou conhecimento dos golpes, “ficando estarrecida”. Assim que as fraudes foram descobertas, o capixaba teria ingressado com o pedido de divórcio. Segundo consta no processo, a vítima também teria passado a ser ameaçada — inclusive de morte.
Após a condenação do acusado em primeira instância a três anos de reclusão, o Ministério Público do Espírito Santo (MPES) apresentou um recurso, pedindo o aumento da pena para quatro anos, dois meses e 22 dias, inicialmente em regime semiaberto. O pedido foi atendido de forma unânime pela Primeira Câmara do TJES no último dia 10.
Para o desembargador e relator do caso, Willian Silva, trata-se claramente de um “estelionato sentimental”. “Em relacionamentos amorosos a relação de confiança entre as partes ganha uma dimensão maior. Neste caso, todos os atos levaram a vítima a crer que não deveria preocupar-se com a atuação do esposo”, afirmou.

ESTELIONATO SENTIMENTAL: O QUE É E COMO SE PROTEGER

Segundo a definição dada pelo próprio desembargador Willian Silva, o chamado “estelionato sentimental” acontece “quando a vítima é induzida a erro quanto às intenções do pretendente e, com base na confiança plena estabelecida dentro de um relacionamento amoroso, sofre perdas, especialmente patrimoniais”.
Fayda Belo
Advogada criminalista Fayda Belo explica sobre o golpe e como a vítima deve se proteger Crédito: Instagram | @faydabelo
Com o maior uso das redes sociais, o crime tem ganhado dimensão e foi tema do quadro Questões de Família, da CBN Vitória, em janeiro deste ano. Na ocasião, a advogada criminalista Fayda Belo esclareceu que ele acontece quando se ingressa em uma relação com a única meta de obter vantagem sobre a outra pessoa.
“As mulheres são a grande maioria das vítimas. A duração do relacionamento, normalmente, varia de acordo com a renda que ela possui e com o poder de influência que o golpista consegue exercer nela. Pode ser de um mês, dois meses ou um ano. Não é um prazo pré-determinado”, explicou.
Para ajudar as vítimas, ela afirmou que é importante juntar o maior número de provas possíveis. “Você precisa reunir prints (de conversas), extratos bancários e outros documentos para provar que você achava que estava uma relação, enquanto a outra pessoa não, e fazer a denúncia”, orientou.

Artigo 171 - Estelionato

No Código Penal Brasileiro, o crime de estelionato consiste em “obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento". A pena é  reclusão, de um a cinco anos, e multa.

No entanto, no início deste mês de agosto, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que altera o Código Penal para criar o crime de "estelionato sentimental", definindo quando há alguma promessa sobre uma relação afetiva em troca da entrega de valores ou bens pela vítima. A pena, de acordo com texto, poderá ser de dois a seis anos de prisão.

Entenda

Em agosto deste ano, também em uma conversa sobre o tema, o psicólogo e psicanalista Antonio Carlos Felix das Neves disse à jornalista Fernanda Queiroz, da CBN Vitória, que alguns comportamentos podem servir de alerta para as vítimas antes de se entregarem cegamente a uma nova relação.
“A primeira atitude é desconfiar e se certificar caso estejam acontecendo muitas situações trágicas em pouco tempo de relação. Também é importante dar crédito aos alertas de amigos. Além de fazer uma busca pela foto usada por esse homem (na internet). São três dicas principais e válidas que podem ajudar”, finalizou.

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