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A dor de quem perdeu familiares para a Covid-19
Ana Gertrudes, Florentino, Valdira, Ana, Jaci, Elias, Jaime e Jaciara: vítimas da Covid-19 no ES Fotos: Arquivo Pessoal/ Arte: Geraldo Neto
Luto na pandemia

Mais de uma vez: a dor de quem perdeu familiares para a Covid-19

Em um curto espaço de tempo, famílias capixabas viveram o luto mais de uma vez por causa da pandemia do coronavírus

Lorraine Paixão*

Publicado em

27 mar 2021 às 07:27
A dor de quem perdeu familiares para a Covid-19
Ana Gertrudes, Florentino, Valdira, Ana, Jaci, Elias, Jaime e Jaciara: vítimas da Covid-19 no ES Crédito: Fotos: Arquivo Pessoal/ Arte: Geraldo Neto
No dia 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou, oficialmente, a existência da pandemia  do novo coronavírus. Após um ano, o mundo contabiliza mais de dois milhões de mortes causadas pela Covid-19. No Brasil, o número de óbitos já ultrapassa a marca dos 300 mil. 
No Espírito Santo, o luto também se faz presente entre a população após mais de 7 mil  vidas perdidas. Nesse cenário de luta contra o vírus,  famílias capixabas compartilham uma dor em comum: em um curto espaço de tempo, perderam mais de um ente querido para a Covid-19. 
Em entrevista para A Gazeta, representantes de três dessas famílias - Oliveira, Altoé e Gaudio - contam como foram atravessados pela pandemia, além da dor e o vazio deixados pelos que se foram. 
A dor de quem perdeu familiares para a Covid-19
Valdira, Ana e Jaci: três mortes na família em menos de um mês  Crédito:

FAMÍLIA OLIVEIRA

Em março de 2020, quando as notícias sobre o avanço da pandemia no Espírito Santo começaram a chegar, a cabeleireira Lane Oliveira, 40 anos, refletia sobre o futuro do seu salão em Pedra Azul, Região Serrana do Estado, e nem imaginava que poderia vir a perder três membros da família. Naquela época, o governo capixaba decretou o fechamento do comércio, como medida de controle à Covid-19.
Entendendo a gravidade da doença, Lane tratou logo de iniciar o isolamento social com a mãe e os filhos. Mas a preocupação dela se estendia para quase 100 quilômetros de casa. Mais precisamente até Cariacica,  cidade onde a avó Ana Oliveira, 89, morava junto com Valdira Oliveira, 54, tia da cabeleireira.
Em maio, Valdira - que tinha diabetes - começou a apresentar alguns sintomas da doença. As idas até o pronto-socorro não surtiram efeito e as dores foram tratadas como uma crise renal. Passados alguns dias, foi a vez da avó Ana apresentar os sintomas. 
Cada vez mais debilitada, Valdira acabou morrendo no dia 13 de maio. Na mesma semana, no dia 17, a avó Ana também não resistiu. E em meio ao luto de duas mortes seguidas, Jaci Oliveira dos Reis, 69, mãe de Lane, também foi diagnosticada com Covid-19. 
Jaci foi internada no dia 19 de maio no Hospital Padre Máximo, em Venda Nova do Imigrante. Com a piora do seu quadro, ela foi encaminhada para o Hospital Jayme Santos Neves, na Serra. Menos de um mês depois, no dia 9 de junho, a mãe de Lane não resistiu. 
"Minha mãe era super de bem com a vida. Nunca teve nenhuma doença grave. Foi uma doença que devastou muito a nossa família e as pessoas contaminadas tiveram sequelas muito graves, pois a carga viral foi muito forte"
Lane Oliveira - Perdeu a mãe, a avó e a tia 
Em 2020, treze integrantes da família Oliveira foram contaminados pelo coronavírus. Um deles chegou a ficar 25 dias internado na UTI. A cabeleireira foi uma das contaminadas e conta que ficou com medo de ter contato com a família e piorar a situação.
"A gente se comunicava só por telefone e chamada de vídeo. Mesmo após curada, eu ficava com medo e não conseguia me aproximar de ninguém. Tive que ficar isolada e longe dos meus filhos por dois meses. Hoje, se escuto uma ambulância ou algum barulho, tenho uma crise de pânico", desabafa.
O último caso de contaminação na família foi em fevereiro deste ano, quando o irmão mais velho de Lane ficou 16 dias internado. Hoje ele está curado, mas continua lidando com as sequelas físicas da doença. 
"Foram perdas não só de pessoas, mas de parte da minha vida. O complicado é que ainda não passou, a pandemia persiste. As pessoas me dizem: 'não consigo imaginar o que você passou'. É exatamente isso, ninguém consegue"
Lane Oliveria  - Perdeu a mãe, a avó e uma tia 
A dor de quem perdeu familiares para a Covid-19
Ana Gertrudes e Florentino: casamento de 68 anos interrompido pela Covid Crédito:

FAMÍLIA ALTOÉ

Também em Cariacica, a pandemia cruzou a vida de uma outra família. Em 2020, o casal Florentino Domingos Altoé, 92, e Ana Gertrudes Altoé, 93, teve o casamento de 68 anos interrompido pelo coronavírus. No dia 29 de maio, Florentino faleceu em decorrência da doença. Três dias depois, Ana também veio a óbito. Eles deixaram cinco filhos, sete netos e um bisneto.
Uma das filhas, a empresária Elvira Madalena Altoé Ferrighetto, 67, relembra com carinho o afeto dos pais nas mais de seis décadas de casamento. “Meus pais estavam sempre juntos. Assistiam TV de mãos dadas, eram muito carinhosos”, conta.
Elvira recorda que os pais se mostravam bastante receosos com a doença, especialmente a mãe Ana, que lia muito e sempre acompanhava os jornais. “Mamãe era uma mulher muito astuta, entendia o que estava acontecendo e estava preocupada. Quando assistia aos jornais, ela ficava de mãos postas e a gente via que ela ficava tensa com o que estava acontecendo”, diz.
Segundo Elvira, a família ainda sofre com as perdas. “Já são 10 meses, mas parece que foi ontem. A perda é irreparável. É um dia eu estando bem e outro dia muito ruim”, desabafa. Para ela, o que mais a marcou foi não poder estar com os pais na última semana de vida deles. A família que sempre esteve reunida em encontros afetuosos não pode se despedir dos seus mais velhos.
"Na última semana de vida, eles ficaram sozinhos no hospital e nós não pudemos ficar juntos. Isso marca a gente. Não poder fazer nada é angustiante. Depois, a morte. Eu dentro de casa e eles sendo enterrados. É uma lembrança muito triste"
Elvira Madalena Altoé Ferrighetto - Perdeu os pais 
A dor de quem perdeu familiares para a Covid-19
Elias, Jaime e Jaciara:  mortes aconteceram em um intervalo de três meses Crédito:

FAMÍLIA GAUDIO

Em Aracruz,  a família Gaudio também teve que lidar com mais de uma morte causada pela Covid-19. No dia 17 de novembro, em um intervalo de apenas cinco horas, a família perdeu  Jaime Gaudio Júnior, 61, e Jaciara Moraes Gaudio, 57. Os dois viveram juntos por quatro décadas e deixaram três filhos e seis netos. 
Pouco mais de um mês depois, no dia 2  janeiro deste ano, Elias Gaudio, 57, irmão de Jaime, teve os primeiros sintomas da Covid-19, deixando novamente a família em alerta. Ciente do risco, Elias foi levado para o hospital três dias depois, quando, ao medir a oxigenação e ver que estava em 92%, percebeu que a doença podia se agravar. 
Foram 45 dias de internação, mas Elias também não resistiu e morreu no dia 19 de fevereiro, deixando a mulher e duas filhas.
Filha mais velha de Elias, a professora Thaís Sarmento Gaudio conta sobre a dor do luto que a família enfrenta. 
"Meu pai ficou internado durante 45 dias. Ele passou pela intubação e, logo em seguida, pela traqueostomia. Faz apenas um mês que ele faleceu e quatro meses que perdemos os meus tios. Somos uma família muito unida, de muita fé, mas não conseguimos sorrir mais"
Thaís Sarmento Gaudio - Perdeu o pai e os tios 
Thaís acrescenta ainda que uma das coisas mais difíceis dessas perdas repentinas causadas pela Covid-19 é a falta de despedida imposta pela doença. "Parece que mata quem está vivo também", desabafa. 
Primeiro paciente vindo de Rondônia que chegou neste domingo, às 14h, no Aeroporto de Vitória. O paciente foi transferido para o Hospital Estadual Dr. Jayme Santos Neves.
Hospital Dr. Jayme Santos Neves, referência no tratamento à Covid-19 Crédito: Helio Filho/Secom ES

FAMÍLIAS FAZEM APELO 

As perdas das famílias evidenciam a gravidade da Covid-19, mas também um cenário de falta de compreensão sobre os impactos de uma pandemia.  "A gente viu muita gente brincando com isso, não levando a sério. Mas não se trata só de você, se trata de muitas famílias. Eu estou salva, consegui me recuperar, mas poderia ter contaminado uma pessoa que não teria essa chance, como a minha mãe. Existe um egoísmo e uma falta de empatia tremenda em não se preocupar com o próximo", observa Lane.
Elvira também pede aos capixabas para se cuidarem e seguirem corretamente as orientações das autoridades de saúde. "Evitem aglomerações. É muito sofrido. Precisamos tomar cuidado e se a gente não se cuidar e cuidarmos uns dos outros seguindo as recomendações, muita gente vai morrer”, alerta.
Segundo Thaís, o medo da Covid-19 ainda faz parte da sua rotina. Sobre as aglomerações e a falta de cuidado que vê no dia a dia, a professora também pede que a população se cuide.
"As pessoas levam muito na brincadeira. Dizem que a gente só entende quando perde uma familiar, mas não sabem o quanto é difícil perder um pai, uma mãe, alguém que fez parte da nossa história, alguém que a gente ama incondicionalmente e que nos amava também. Vejo as pessoas nas praias, aglomerando, sem preocupação com o outro, e a única coisa que consigo dizer é: se cuidem"
Thaís Sarmento Gaudio - Perdeu  o pai e os tios 

Correção

27/03/2021 - 8:20
Os números de mortos no Brasil e no Espírito Santo por Covid-19 estavam desatualizados e foram corrigidos. 

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