A fé e a tradição que percorrem as ruas de Castelo, no Sul do Espírito Santo, há mais de 60 anos, se traduzem na arte reproduzida no chão com os tapetes para a celebração de Corpus Christi, uma manifestação religiosa da Igreja Católica. Mesmo o tempo chuvoso nesta quinta-feira (4) não foi suficiente para afastar o público do espetáculo de cores e devoção na cidade.
Casas e comércio do município foram enfeitados para marcar o dia em que se comemora o "Corpo de Cristo", representado pelo sacramento da eucaristia entre os católicos. A Igreja Matriz Nossa Senhora da Penha também foi decorada e traz o cartão com o tema da festa em 2026: “Eucaristia, o Cordeiro de Deus.”
Pela fé, não há distância nem obstáculos. As estudantes Júlia Daniel, Lara Queiroz, Júlia Lameira e Júlia Paneto são moradoras de Rio Bananal, no Norte do Espírito Santo, que está distante de Castelo mais de 300 quilômetros, mas, acompanhadas das mães e tias, percorriam as ruas da cidade do Sul capixaba admirando os tapetes.
Conforme informações da Prefeitura de Castelo, a festa de Corpus Christi no município é considerada a maior do Brasil na modalidade de tapetes confeccionados por voluntários. O evento mobiliza mais de 3 mil pessoas para produzir cerca de 5 mil metros quadrados de tapetes. Ao longo de aproximadamente 1.500 metros lineares, são montados 17 quadros e 17 passadeiras que retratam a história da salvação, de Adão e Eva à ressurreição de Cristo.
A produção envolve uma grande variedade de materiais. São utilizados 60 mil quilos de pedra moída, 1 mil quilos de granitos coloridos, 10 mil quilos de cipreste, 12 mil plantas de crista-de-galo, além de vidro reciclado, tampinhas PET, raspa de pneu, palha de café e flores diversas. Todo esse trabalho ajuda a transformar as ruas da cidade em uma das maiores manifestações de fé e arte do país.
Uma curiosidade: a flor crista-de-galo e o cipreste, elementos tradicionais dos tapetes de Corpus Christi, voltam a ter destaque na festa de Castelo. Durante décadas, as plantas fizeram parte da decoração, mas seu uso diminuiu devido à dificuldade de obtenção em grande quantidade.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Irmã Vicência apontou que moradores sentiam falta da presença dessas espécies. A combinação das duas plantas é apontada como responsável pelo aroma característico dos tapetes molhados. Atualmente, o cultivo próprio ocupa uma área equivalente a aproximadamente cinco campos de futebol.
Entre devotos e turistas, o ex-governador Renato Casagrande (PSB), natural de Castelo, também passeou entre os tapetes. Para ele, a festa de Corpus Christi é a manifestação maior de religiosidade da população do município e, ao mesmo tempo, a maior obra de arte a céu aberto do país. "Mostram também a fé e o compromisso do trabalho voluntário da comunidade", ressalta.
Um pouco da história
No Brasil, os primeiros registros de celebração de Corpus Christi datam do período da colonização. Em Castelo, porém, as manifestações começaram no fim da década de 50, época em que era costume erguer altares em determinados pontos da cidade. Segundo registros da prefeitura, as ruas eram enfeitadas com folhas de árvores e as janelas e sacadas eram ornamentadas com toalhas de renda (ou bordadas), jarras de flores e outros detalhes que davam ao local um aspecto festivo e solene, preparado especialmente para a passagem da procissão dos fiéis.
No ano de 1963, Zuleide Pereira da Silva, a “Irmã Vicência” (1928-1999), das Filhas da Caridade, confeccionou o primeiro tapete usando folhas verdes e flores, em frente à Capela de Nossa Senhora das Graças, na Santa Casa de Misericórdia.
Ainda de acordo com a administração municipal, em 1964, com o apoio do Frei José Osés, vigário da paróquia, um grupo decidiu fazer os tapetes no centro da cidade. No ano seguinte, algumas outras ruas foram enfeitadas e percorridas em procissão. Com o passar do tempo e a adesão da população a festa ganhou notoriedade e grande destaque no cenário religioso nacional. Este ano marca a 63ª edição da festa em Castelo.