O sonho era chegar à Europa, mas o destino final de um grupo de quatro nigerianos foi o Porto de Vitória, no Espírito Santo. Dois desses homens retornaram ao país de origem, pouco após desembarcarem em terras brasileiras. Os outros ficaram decidiram pedir refúgio ao Brasil.
A viagem começou no dia 27 de junho a bordo de um navio de carga de Lagos e que tinha bandeira libanesa. Ao todo, foram 14 dias de uma viagem arriscada, no leme da embarcação.
Um dos viajantes, e que hoje mora em São Paulo, era Roman Ebimene Friday, de 35 anos. “Ebimene”, na língua ijó, do sul da Nigéria, significa “bondade”. Em entrevista ao O Globo, o homem nascido em Bayelsa State, no sul da Nigéria, contou que sua chegada ao Brasil começou, na verdade, em janeiro, quando ele tentou sair pela primeira vez do seu país, também de navio.
Ele acabou sendo descoberto e chegou a ficar cinco meses preso. “Foi um período muito difícil. E eu só pensava que tinha que tentar de novo. Não tem trabalho, não tem nada para mim na Nigéria. Minha família é humilde. A insegurança é tremenda. Há terrorismo”, relatou.
Ebimene comentou ainda que os quatro viajantes não se conheciam até entrarem no graneleiro Ken Wave, de bandeira da Libéria. Para sobreviverem, a saída foi assumir um trabalho em equipe. Eles ficaram em um espaço de cerca de três metros de comprimento por três de largura, à beira da água, revezavam-se para dormir, comer e observar a rota. A comida e a água acabaram no décimo dia.
A Nigéria é o país mais populoso da África e vive uma crise econômica, política, de insegurança alimentar e violência, com as ações do grupo radical Boko Haram. Segundo a Comunidade Unificada Nigeriana no Brasil, cerca de 10 mil nigerianos vivem por aqui.
Os nigerianos foram resgatados por agentes da Polícia Federal na aproximação do navio ao Porto de Vitória. E foi nesta ocasião que o grupo se dividiu pela primeira vez, com dois deles voltando para Nigéria, enquanto que os outros resolveram ficar. A escolha foi pelo Estado de São Paulo, dizendo que possivelmente teriam mais oportunidades de recomeçar.
Desde então, estão na Missão Paz, que engloba a Casa do Migrante e várias iniciativas de acolhimento e capacitação de refugiados no Centro da capital paulista. Tiraram documentos e frequentam aulas de português. Ebimene, entretanto, ainda está em busca de trabalho.
O sonho do nigeriano era ancorar uma nova vida em Londres, na Inglaterra. Sem dinheiro para a passagem, viajar de avião não era uma opção. Ele é o mais velho de cinco irmãos. O restante da família ficou na Nigéria. “Não contei a eles o que iria fazer porque sei que iriam me desencorajar. Então disse a eles apenas que iria viajar.”
Ebimene contou que conheceu um pescador perto do porto nigeriano e que prometeu ajudá-lo. “Combinamos que eu iria com ele quando ele fosse pescar e que ele me ajudaria a entrar no navio. Era 27 de junho. Ele não cobrou nada, não paguei nada. Ele foi meu super-herói. Não sei se ele sabe que cheguei aqui, não tenho o contato dele. Mas eu sei que ele foi meu super-herói. Nunca passou pela minha cabeça que seria o Brasil. Não sabia muito sobre o Brasil”, relembrou.
O nigeriano recorda que eram quatro no leme e que eles não se conheciam nem sequer sabiam os nomes uns dos outros.
“Mas, uma vez ali, nos cuidávamos. E nos revezávamos naquele espaço. Uns ficavam sentados no leme, enquanto os outros dormiam dentro da caixa de máquina. Não era tão pequeno, mas não dava para esticar muito as pernas. Ninguém da tripulação sabia que estávamos ali. Nunca tinha vivido algo assim. Sabia que era perigoso. Não dava nem para ficar olhando muito para o mar, dava tontura, e havia o risco de cair na água, que estava muito perto. Eu preferia olhar para o céu. Não pensava muito na morte, mas tinha noção do risco. A única vez em que rezei foi no oitavo dia. O navio tinha parado de se movimentar. E eu sentia que tinha algo errado ali. Comecei a rezar muito. Chamei os outros e então perguntei os nomes deles pela primeira vez, um a um. Era para falar na oração. Eles não entenderam na hora. Mas eu fiquei lá, dizendo o nome um a um, pedindo a Deus que cuidasse de nós, que permitisse que chegássemos. Realmente temi naquele dia.”
No décimo dia, os quatro ficaram sem água e comida. Ebimene tinha levado biscoito, farinha, água e amendoim, nenhum outro pertence. Sabendo que estavam longe, eles sabiam que precisavam chegar em algum lugar. E se manter vivos até lá.
“A essa altura já estávamos muito fracos. Um dia, estava sentado no leme e vi um animal grande passar do meu lado. Comecei a gritar para os outros. Primeiro achavam que era um golfinho morto. Nada. Era uma baleia que passava do nosso lado. O mar é impressionante. As águas mudam de repente, de mais calmas a agitadas. Havia muito barulho do motor. Eu pensava em Deus e pedia que nos protegesse.”
Para se distrair, Ebimene tentava olhar a natureza. Chegou até a achar que estava delirando quando começou a ver montanhas.
“Gritei para os outros: ‘Montanhas! Montanhas!’. ‘Você tem certeza?’, perguntaram. Sim. Eu não tinha percebido, mas um bote vinha se aproximando. Eu que estava sentando na ponta do leme naquela hora. Perguntaram se falávamos inglês, quantos éramos. Eu respondi: “quatro”. Queriam saber se tínhamos comida ou água. Eu disse que não mais. A verdade é que já estávamos há quatro dias sem nada. Eles saíram, depois voltaram com mantimentos. E enfim nos resgataram. Era 10 de julho de manhã”, relatou.
A primeira coisa que Ebimene perguntou era onde estava. Ele chegou a se assustar quando a resposta foi Brasil, chegando a fazer a mesma pergunta quatro vezes porque a ficha não caía.
“A primeira palavra que me veio à mente foi o (jogador) Kaká. Depois Ronaldinho, Rivaldo. Não fiquei desapontado por ter chegado ao Brasil. Só que realmente não esperava. E fiquei feliz. Me sentia tão fraco que mal conseguia falar. Acho que tomei uns dez litros de água de uma vez.”
Eles ficaram uns dias em Vitória, quando dois deles resolveram que iriam voltar para a Nigéria. Ebimene e o outro nigeriano decidiram ficar aqui.
“Para que voltar? Liguei para minha avó e demorou para ela acreditar que eu estava no Brasil. Alguns achavam que eu tinha sido preso novamente. Quero mandar dinheiro para minha família. E um dia estar com eles de novo. Nos falamos sempre. Minha mãe disse estes dias que não está bem. Penso nos meus irmãos, principalmente no menor. Ele é meu amanhã.”
Os dois resgatados foram para São Paulo porque lhes disseram que teriam mais chances. Ele relata que, em Vitória, não havia muitas pessoas que falavam inglês. Segundo o jovem, as pessoas têm sido receptivas, amigáveis.
“São Paulo parece interessante. Achei só que fosse encontrar mais negros. Não sabia que havia tantos brancos no Brasil. Sempre ouvíamos que o Brasil era como a África. Estou muito agradecido de estar aqui, na Missão Paz. Padre Paolo (coordenador da Missão Paz) é como um pai. Já tenho meus documentos brasileiros, estou fazendo aula de português. É mais difícil que falar ijó, e olha que ijó é difícil.”
O nigeriano relatou ao O Globo que já conheceu algumas pessoas e que costuma ouvir hip-hop.
“Ainda falta conseguir trabalho. Na Nigéria eu era soldador. Fiz alguns bicos em construção, mas nada fixo. A relação com os brasileiros é muito boa. É verdade que não era o destino que buscava inicialmente, mas hoje encaro como uma dádiva. É onde quero estar. E onde espero ter um futuro melhor”, finalizou
Com informações de O Globo.