Passados cinco meses de pandemia, está sendo possível visualizar o estrago causado pela crise sanitária no mercado de trabalho com os dados do segundo trimestre de 2020. A velocidade do desemprego segue em descompasso com a reação esperada de Brasília, dominada pela letargia na tomada de decisões que preparem o terreno para uma retomada consistente. Esperava-se mais agilidade, com o planejamento de medidas econômicas que apontassem caminhos para acelerar a criação de vagas, com incentivos a investimentos e desburocratização. As intenções volta e meia aparecem, mas sem expectativas de concretizações.
Somente no Espírito Santo, 139 mil pessoas perderam o emprego nos meses de abril, maio e junho, quando o isolamento se fez mais rígido, somando 335 mil pessoas em situação de desemprego. de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-C), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
No cenário brasileiro, com base em números da quarta semana de julho, acumulam-se 12,9 milhões de desempregados, ou seja, pessoas em busca de uma ocupação. E mais 28 milhões de brasileiros inativos, que não buscaram trabalho, mas têm o desejo de trabalhar.
Para frear as demissões, foi acertada e consideravelmente rápida a decisão do Planalto de implementar o programa de suspensão de contratos de trabalho e de redução de jornada e de salário. Tanto que o próprio ministro Paulo Guedes celebrou a prorrogação da medida por dois meses, exaltando que a decisão do governo foi a mais eficaz para a preservação de empregos. "Conseguimos preservar 16 milhões de empregos gastando pouco mais de R$ 20 bilhões", afirmou o ministro, em matéria publicada pela Agência Brasil.
O governo federal conseguiu agir bem na blindagem de um número considerável de postos de trabalho. Mas na semana que se seguiu havia a promessa, feita pelo próprio Paulo Guedes, de medidas robustas para a recuperar as perdas. Justo lembrar, não que qualquer brasileiro não saiba, que a crise sanitária apenas acentuou um problema que já persiste desde a metade da década. Mas se o governo Temer chegou a promover alguns avanços, como a reforma trabalhista, o primeiro ano de mandato de Jair Bolsonaro foi praticamente improdutivo para a retomada do emprego. O novo coronavírus piorou o que já era trágico.
A grande aposta de Paulo Guedes é a carteira Verde Amarela adaptada para a pandemia, para auxiliar os trabalhadores na informalidade a se encaminharem à CLT. Dentro do próprio governo, o lançamento do Pró-Brasil, adiado pela segunda vez, é motivo de divergências entre liberais e desenvolvimentistas, por seu caráter dependente de investimentos públicos para aquecer a economia e gerar empregos. O puxão de orelha de Bolsonaro em Guedes sobre os valores do Renda Brasil é uma sinalização de que há dificuldades de se encontrar um consenso interno.
A falta de acordo acaba adiando também as urgências, como uma reforma tributária efetiva, que simplifique a relação com os impostos no país e assim consiga atrair o investidor. O governo federal está perdendo uma chance de ouro, quando até Estados e municípios estão dispostos a rever a questão tributária.
No discurso, sabe-se que o país carece de obras de infraestrutura, justamente aquelas que podem abrir vagas de emprego. Com uma logística mais aprimorada, o Brasil será mais competitivo. E assim cria-se um ciclo econômico virtuoso. Na teoria, o governo federal é o maior defensor dessa lógica. Só falta a capacidade política para colocá-la de vez em prática.