Publicado em 23 de fevereiro de 2024 às 09:43
SÃO PAULO - De olho na possibilidade de aumentar a mensalidade sem a interferência da ANS (Agência Nacional de Saúde), as operadoras de saúde estão reduzindo a oferta de planos individuais e familiares enquanto aumentam a de planos coletivos, cujo índice de reajuste não é decidido pela agência reguladora.>
A ANS só define o reajuste dos planos vendidos diretamente a uma pessoa ou família. Em 2023, a agência aumentou a mensalidade em 9,6%. Já os planos coletivos são vendidos para empresas ou a determinadas categorias (como advogados, médicos e servidores).>
Nesses casos, quem decide o índice é a operadora em acordo com a empresa ou entidade. No ano passado, o reajuste dos coletivos ficou em 26% — e deve ficar em 25% este ano.>
Já o total de planos coletivos à venda cresceu 50% entre dezembro de 2013 a junho de 2023. Passou de 1.031 para 1.556 segundo média da ANS que contabiliza os planos existentes em todos os municípios brasileiros.>
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Em dezembro de 2023, os planos individuais e familiares contavam com 8,8 milhões de beneficiários, enquanto os coletivos somavam 42,2 milhões de segurados.>
O número de operadoras vendendo planos de saúde caiu de modo geral no Brasil. Mas essa redução é maior entre as seguradoras que vendem planos individuais e familiares: queda de 85,5%, contra redução de 33,6% entre as que comercializam planos empresariais e por adesão.>
O reajuste dos planos individuais passou a ser feito pela ANS depois de sua criação, em 2000. "Como nos coletivos as operadoras não precisam seguir critério para fixar um índice, com o tempo as operadoras priorizaram a comercialização dos coletivos", diz o advogado Rafael Robba, do Vilhena Silva Advogados.>
Decidir sozinha o reajuste dos coletivos não é a única vantagem para as operadoras. "Os planos individuais e familiares não podem ser cancelados pelas operadoras de forma imotivada", diz o especialista.>
"Só pode cancelar após inadimplência superior a 60 dias ou fraude. Nos coletivos, a lei é omissa: as operadoras colocam nos contratos com as empresas a possibilidade de cancelar sem motivos — só precisa avisar com antecedência de 60 dias.">
Graças a isso, é cada vez mais difícil encontrar um plano individual ou coletivo. Depois de muita procura, a contadora Ellen Cristina de Araújo Lopes, 38, conseguiu contratar um plano da Hub Health em setembro do ano passado, mas se decepcionou dois meses depois.>
A seguradora cancelou o plano depois de apenas cinco dias de atraso. "Eu não recebi nenhum comunicado. Eles mandaram uma mensagem no WhatsApp e não consegui falar com um atendente até hoje", diz ela.>
"Eu tinha diversas consultas marcadas para dezembro, mas não consegui ser atendida".>
Procurada por email, telefone e WhatsApp, a operadora não respondeu até a publicação desta reportagem.>
Ao longo do tempo, as operadoras passaram a criar outras formas de vender planos para as famílias. A estratégia, explica Robba, é oferecer planos mais baratos, com até cinco vidas, aos donos de pequenas empresas, que usam seu CNPJ para contratar um "plano empresarial" para sua família, os chamados "pejotinhas".>
"Mas no primeiro aumento, eles levam um susto porque não há limite de reajuste. Tivemos casos que chegaram a 40%", disse o advogado.>
Os dados da ANS atestam esse aumento. A proporção de beneficiários em contratos coletivos com até cinco vidas triplicou, passando de 5% para 15% do total de pessoas com algum plano médico entre 2014 e 2023, diz a agência reguladora.>
Procurada, a ANS admite que algumas regras são diferentes para planos individuais e coletivos. "As regras de reajuste e de rescisão contratual diferem de acordo com o tipo de contratação, mas seguem regras estipuladas pela ANS", afirma.>
Sobre a redução na oferta de planos individuais e familiares, a agência diz que precisa respeitar a "livre iniciativa".>
"A ANS não pode obrigar a comercialização de planos individuais/familiares pelas operadoras, sendo uma escolha de cada uma os tipos de plano que irá comercializar", disse, em nota.>
A regulação em vigor "tem inibido a oferta desse tipo de produto", diz a FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar).>
"O reajuste autorizado pela ANS para os planos individuais tem sido sistematicamente inferior ao aumento dos custos com tratamentos e à inflação médica", observa a entidade. "De 2019 a 2022, o reajuste acumulado autorizado foi de cerca de 15%, enquanto a variação das despesas médico-hospitalares foi de 41%.">
"Tal fato justifica a redução da oferta desse tipo de produto. É urgente que a atual forma de reajuste dos planos individuais evolua para uma metodologia baseada na variação de custos de cada operadora", afirmou a FenaSaúde, em nota.>
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