Publicado em 12 de julho de 2021 às 14:24
A SPE (Secretaria de Política Econômica), do Ministério da Economia, apostou no recuo da pandemia em 2021 sem trocar informações com o Ministério da Saúde. A afirmação consta de ofício enviado à CPI da Covid no Senado.>
O ministro Paulo Guedes (Economia) respondeu a um requerimento do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente do colegiado. A CPI apura ações e omissões do governo Jair Bolsonaro (sem partido) na pandemia.>
Randolfe quis saber por que Adolfo Sachsida, secretário de Política Econômica, afirmou, em 17 de novembro, que o país caminhava para a "imunidade de rebanho". Segundo ele, era "baixíssima a probabilidade de segunda onda".>
Na época, a OMS (Organização Mundial da Saúde) alertava para mais ondas de contaminação. Além disso, outros países começavam a ver novas escaladas nos números.>
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O secretário, tempos depois, chegou a pedir desculpas pela declaração e disse que não deveria ter comentado um assunto que não era de sua área. Mesmo assim, Randolfe cobrou esclarecimentos do time de Guedes.>
No requerimento, o senador pediu "todas as comunicações, e documentos recebidos, do Ministério da Saúde sobre projeções, previsões e planejamento para a pandemia no ano de 2021".>
No ofício, Guedes apresentou em anexo um despacho assinado por Sachsida como resposta. Segundo o secretário, "não houve qualquer comunicação e/ou troca de documentos do Ministério da Saúde (MS) com a SPE".>
"Eu estou assustado [com a resposta]", disse Randolfe à Folha. "É um dos documentos mais reveladores da CPI", afirmou o senador.>
Segundo o congressista, o despacho da SPE "é uma prova material da omissão do governo, da falta de política de enfrentamento da pandemia". Para ele, a resposta mostra que "não tinha uma coordenação".>
Procurado, o Ministério da Economia não comentou o assunto até a publicação deste texto.>
Randolfe pediu ainda estudos feitos pela SPE. Primeiro, Sachsida explicou as atribuições do órgão e, na sequência, apresentou dados de instituições brasileiras e estrangeiras.>
Segundo ele, a SPE formula e analisa propostas de políticas econômicas, com funções delineadas pelo decreto 9.745, de 8 de abril de 2019.>
"Nessa vertente, [o órgão] avalia os impactos macro e microeconômicos de diversas medidas e políticas públicas com o intuito de possibilitar o suporte ao processo de tomada de decisão do Ministério da Economia, bem como de delinear e justificar as escolhas técnicas de políticas econômicas", escreveu Sachsida.>
No despacho, Sachsida afirmou que, em novembro, havia se baseado, na verdade, em "uma série de informações levantadas pela equipe técnica da SPE acerca da evolução da pandemia".>
Entre os indicadores estavam "altas prevalências [subnotificação de casos], limiares de imunidade coletiva revisados, indicação de queda e distância da chegada do inverno (no hemisfério sul), ausência de fatos novos relevantes como nova cepas de maior transmissibilidade e expectativa positiva do início da vacinação".>
A demora na compra das vacinas pelo governo Bolsonaro é justamente um dos principais focos de investigação na CPI.>
Sachsida ressaltou ainda que "a SPE não utiliza nenhum modelo preditivo da pandemia e continua baseando suas projeções em análises econômicas com o mínimo de inferências de natureza epidemiológica".>
Mas, com a persistência da pandemia e a demora na vacinação –uma atribuição do Ministério da Saúde–, a Economia precisou neste ano resgatar políticas públicas implementadas em 2020 que haviam sido interrompidas em dezembro.>
O primeiro alerta veio em janeiro, com a crise de falta de oxigênio no Amazonas. Depois, em março e abril, todo o país atingiu picos de contaminação e mortes. O número de óbitos por dia chegou a passar de 4.000 pessoas.>
Voltou então à pauta econômica o auxílio emergencial. Alvo de resistência em razão do impacto fiscal, começou a ser pago novamente no início de abril. "O governo imaginava que no dia 31 de dezembro para o dia 1º de janeiro o vírus iria embora", disse Randolfe.>
Para o vice-presidente da CPI da Covid, a resposta da Economia explica "por que o governo não planejou a continuidade do auxílio emergencial na virada do ano".>
Ainda com sinais fortes da pandemia, o programa foi prorrogado na semana passada novamente, até outubro. Guedes também não descarta mais uma renovação.>
"Se a pandemia continuar fora de controle, em setembro, outubro, novembro, vamos ter de renovar de novo o auxílio emergencial, mas não é a expectativa no momento", disse o ministro no Senado, em 25 de junho.>
Segundo ele, o ministro Marcelo Queiroga (Saúde) prevê até lá "ambiente de controle da pandemia". O avanço da vacinação levaria a esse quadro de estabilidade.>
Uma outra medida retomada neste ano foi a suspensão de contratos e o corte de jornadas e salários. Como o jornal Folha de S.Paulo mostrou no sábado (10), o programa já atendeu 2,5 milhões de trabalhadores formais nesta segunda rodada.>
Sachsida destacou no documento previsões acertadas feitas pela SPE, em contraponto à previsão sobre a pandemia. O exemplo foi a projeção do PIB (Produto Interno Bruto). Enquanto analistas previam queda de até 10% em meados do ano passado, a secretaria projetou -4,7%, próximo do resultado oficial, de -4,1%.>
"Por fim, deve-se salientar que erros e acertos fazem parte de todas e quaisquer projeções econômicas, o que é sabido e comumente no meio técnico-científico. Esta secretaria, a propósito, se orgulha dos sucessivos acertos que vem apontando; sendo, por exemplo, uma das primeiras instituições a estimar que o PIB nacional recuaria menos de 5% no ano de 2020.">
Randolfe mantém as críticas. "Não existiu nenhum tipo de política econômica para enfrentar as consequências da pandemia.">
André Luiz Marques, coordenador-executivo do Centro de Gestão e Políticas Públicas do Insper, afirmou que é papel do ministério traçar cenários para tomar decisões –mas que a análise deve se basear em dados de qualidade.>
Para ele, o posicionamento da SPE mostra que havia descrença por parte do governo na pandemia e falta de coordenação no planejamento das políticas públicas. Isso, disse Marques, afetou a execução de medidas como o auxílio emergencial.>
"Se não tem segunda onda, não preciso de auxílio. Aí as pessoas voltam à rua para ter seu sustento, e mais gente propaga o vírus. Não tinha como dar outro resultado", disse ele, sobre os números da pandemia ao longo dos meses seguintes.>
"Se você tem alguma coordenação entre as pastas e os elaboradores da política pública, a tendência é ter decisões mais embasadas. Quando fica cada um olhando para o seu pequeno quadrado, as ações ficam descoordenadas e os gastos são executados de maneira ineficiente. E quem paga o preço da descoordenação é a população", afirmou Marques.>
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