Publicado em 19 de abril de 2021 às 15:11
A equipe econômica e o Palácio do Planalto tentam barrar projetos de lei no Congresso que funcionarão como socorro a setores prejudicados pela pandemia. >
A chamada "bomba fiscal" criada pelos projetos de amparo a produtores de eventos, empresas de turismo, donos de bares e restaurantes e agricultores passa de R$ 250 bilhões.>
Até o momento, já foi aprovado o programa que ajuda empresas de eventos, com um impacto de R$ 243,5 bilhões em cinco anos.>
Mas há outros dois, com votação prevista para esta semana, que auxiliarão empresas do setor de bares e restaurantes, turismo e a agricultura familiar. Juntos, vão gerar gastos de mais de R$ 250 bilhões, a maioria por isenção de impostos e refinanciamento de dívidas.>
>
Aprovado há cerca de dez dias, o Perse (Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos) foi ampliado e acabou englobando praticamente toda a cadeia da produção cultural e do turismo.>
Aguarda agora a sanção presidencial e a consequente regulamentação para o início da adesão de cerca de 60 mil empresas contempladas.>
O programa define uma indenização para empresas que tiveram redução de 50% de seu faturamento entre 2019 e 2020 devido à pandemia. O valor global dessa ajuda será de R$ 2,5 bilhões.>
Além disso, suspende por cinco anos o pagamento de impostos (PIS, Cofins, CSLL e Imposto de Renda) e permite a renegociação de dívidas tributárias com descontos de até 70% e prazo de até 12 anos. Débitos previdenciários, no entanto, terão prazo menor (cinco anos).>
Durante a tramitação, o governo foi contrário a esse projeto, especialmente no que se refere à renegociação das pendências tributárias. Isso porque, já sem recursos no caixa, o Tesouro terá ainda mais perdas de arrecadação com essa medida, considerada uma "bomba fiscal", no jargão dos técnicos do Ministério da Economia.>
Esse pacote valerá para empresas de hotelaria, cinemas, casas de eventos, como shows, salões de feiras, festas e bufês. Também inclui agências de viagens, transportadoras de turismo, parques temáticos, acampamentos e hotéis, pensões e outros meios de hospedagem.>
Assessores parlamentares do Ministério da Economia e do Palácio do Planalto tentaram barrá-lo, afirmando que os trabalhadores desses setores já tinham recebido o auxílio emergencial. Não queriam abrir precedente para programas setoriais, mas foram vencidos.>
A relatora do projeto, deputada Daniella Ribeiro (PP-PB), defendeu que esse grupo conta com milhares de empresas e gera 7,5 milhões de empregos diretos e indiretos. Na avaliação dela, "o número é maior do que o da indústria automotiva".>
Somente o setor de eventos, ainda segundo a deputada, arrecada R$ 48 bilhões por ano com impostos.>
Representantes da cate- goria, liderada pela Associação Brasileira do Produtores de Eventos, afirmaram aos congressistas terem registrado perdas de mais de R$ 80 bilhões desde o início da pandemia.>
O lobby dos representantes de bares, restaurantes e lanchonetes também surtiu efeito. Tramita um projeto pelo Senado que pretende dar uma ajuda de até R$ 10 bilhões ao setor, que, durante a pandemia da Covid-19, concentrou esforços nas entregas como forma de evitar a perda total de receitas.>
Segundo o relator, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o ritmo lento da vacinação no país está levando diversos estados a decretar medidas mais restritivas, impondo o fechamento do comércio, o que afetará ainda mais a economia e o caixa dos empresários do setor.>
A Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) informou empregar 6 milhões de funcionários e faturar o equivalente a 2,7% do PIB (Produto Interno Bruto) nacional. Dentre o cerca de 1 milhão de estabelecimentos, 93,4% são de micro e pequenos negócios, a maior parte nas regiões Sudeste e Sul.>
O projeto, que tem previsão de votação nesta semana, prevê que essas empresas sejam beneficiadas com um auxílio que varia de R$ 2.000 a R$ 3.500 por três meses.>
Além disso, suspende a cobrança de tributos federais com a posterior renegociação das dívidas, com descontos de até 70% e prazo de até 12 anos.>
Em contrapartida, restaurantes, bares e lanchonetes terão de doar alimentos para pessoas em situação de vulnerabilidade.>
Na exposição de motivos, o senador compara a iniciativa com a dos Estados Unidos que, segundo o documento, concedeu um crédito tributário de até US$ 10 mil por funcionário de empresas que tiveram a atividade totalmente ou parcialmente paralisadas em decorrência das medidas adotadas na pandemia.>
A agricultura familiar também conseguiu um projeto de lei com deputados da bancada ruralista prevendo uma ajuda de até R$ 2,2 bilhões para parte das cerca de 4,4 milhões de famílias.>
Os autores do projeto, alguns ligados à bancada ruralista, afirmam que a "Lei Assis Carvalho" foi vetada praticamente na íntegra pelo presidente Bolsonaro, fato que deixou milhões de famílias de agricultores familiares sem nenhuma assistência pública durante todo o ano dramático de 2020".>
Para eles, a situação tende a se agravar neste ano, "aprofundando-se a crise na base produtora de alimentos da população brasileira onde a agricultura familiar é a principal protagonista".>
Sem um novo decreto estendendo o período de calamidade e sem a deliberação de vetos pelo Congresso [inclusive o da Lei Assis Carvalho], os parlamentares decidiram atender ao pleito dos agricultores.>
O projeto institui o Fomento Emergencial de Inclusão Produtiva Rural para as famílias que estiverem em situação de pobreza. Inicialmente, a União terá de arcar com o pagamento de R$ 2.500 em parcela única para cada família.>
O valor será de R$ 3.000 quando a líder familiar for uma mulher. O teto será de R$ 3.500 caso seja necessário a construção de cisternas nas propriedades para a garantia de acesso à água.>
Somente esse auxílio tem um custo estimado de R$ 550 milhões para o Tesouro.>
Também está prevista a criação de uma nova modalidade de crédito rural com até R$ 1,7 bilhão disponíveis dentro do Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar).>
Famílias com renda de até três salários mínimos poderão tomar empréstimos sem juros para financiar a produção. Uma pequena parte poderá ser vertida para sua própria subsistência. O valor máximo será de R$ 10 mil.>
A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) comprará a produção desses agricultores, limitando-se a R$ 6.000 por família.>
Além disso, prevê a prorrogação das dívidas desse grupo por um ano contraídas desde janeiro do ano passado. Abre ainda espaço para renego- ciação de pendências financeiras com rebates que variam de 50% a 95% do valor principal do período que se estende desde dezembro de 2019 até agora para pagamento em 2022 a 2032, nas condições originais do contrato.>
De acordo com assessores do Palácio do Planalto, o lobby tem sido feito por donos de grandes empresas, que conseguem benefícios usando os pequenos como escudo. Até o momento, o governo não conseguiu barrar nenhum desses projetos, mesmo enviando pareceres contrários sobre a bomba fiscal.>
Assessores do chefe da Economia, Paulo Guedes, afirmam que o ministro tenta agora oferecer algum tipo de pacote aos setores que não foram contemplados até o momento como forma de evitar a "bomba fiscal" via Congresso.>
Desde que a pandemia deu sinais de que o isolamento e políticas restritivas seriam duradouras, as principais empresas de eventos e de turismo tentaram junto ao governo, principalmente na Economia, um pacote de socorro.>
Defendiam que programas de empréstimos com garantias ou taxas de juros mais baixas não seriam suficientes para dar conta das perdas bilionárias geradas pelos cancelamentos de shows, feiras, eventos e dos principais destinos turísticos no país e no exterior.>
A equipe econômica, no entanto, resistia a pacotes setoriais porque prioriza o pagamento do auxílio para funcionários. Para as empresas, lançou os programas de crédito.>
Diante da resistência e do novo cenário político, em que o governo vem cedendo em troca de apoio de parlamentares do centrão, as empresas viram no Congresso a chance de conseguir socorro.>
Caso sejam aprovados, os recursos desses projetos permitiram estender a segunda rodada do auxílio emergencial por mais seis meses. O programa levou meses para ser negociado pelo governo. Na época, o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) alegou que não havia dinheiro em caixa para que fosse estendido.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta