Redução de horas improdutivas, melhora da saúde mental e aumento da produtividade. Esses foram os resultados percebidos pelas empresas brasileiras que adotaram a semana de quatro dias. O projeto piloto teve a duração de um ano, com a participação de 19 companhias, e foi concluído em meados de 2025.
A iniciativa foi conduzida pela Reconnect Happiness At Work, em parceria com a 4 Day Week Global. A ideia surgiu como um projeto de produtividade, em 2019, na Nova Zelândia, quando se começou a olhar para pessoas que trabalham muito, mas nem sempre bem. Depois de estudos e adesões, a ideia foi desenvolvida também no Brasil e trouxe diversas percepções entre os envolvidos.
Como explica a fundadora da Reconnect Happiness At Work, Renata Rivetti, os estudos ajudaram a entender onde estava a sobrecarga, a ineficiência e quais soluções poderiam ser implantadas para trabalhar melhor. Depois de um ano de piloto, chegou-se a resultados positivos.
“Percebemos que a iniciativa melhorou muito a vida profissional. Entre as conclusões, estão a redução do estresse, da ansiedade e até dos sintomas do burnout. As pessoas também começaram a fazer mais exercícios e a dormir melhor. A saúde mental e o bem-estar do profissional melhorou muito e o mais importante que conseguimos comprovar é que, de fato, houve muitos ganhos para as empresas”, relata.
Ela observa ainda que as lideranças fazem questão de dizer que os colaboradores estão trabalhando melhor, reduziram a ineficiência, os processos burocráticos e reuniões desnecessárias, entre outras ações.
As organizações participantes eram, principalmente, dos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, com atuação nos segmentos de tecnologia, publicidade e contabilidade. O trabalho foi dividido com parte das equipes trabalhando de segunda a quinta e outra de terça a sexta.
“Mesmo com quatro dias de trabalho, não houve aumento na carga horária. O que foi garantido foi a redução das horas improdutivas, das distrações e tempos excessivos gastos em reuniões, por exemplo. A produtividade tem muito mais a ver com entregas e resultados do que com horas trabalhadas”, destaca.
O escritório Clementino e Teixeira Advocacia, de São Paulo, foi um dos participantes do projeto. A sócia da empresa Soraya Clementino relata que a ideia de aderir a esse trabalho surgiu após o resultado de uma pesquisa da Great Place Work. E a principal razão foi que os colaboradores apontaram que havia um desequilíbrio entre a vida pessoal e profissional.
“Fomos o único escritório de advocacia a participar do projeto piloto. O desafio foi gigantesco, mas entendemos que este é o futuro do trabalho e precisamos construir essas mudanças”, comenta.
Soraya ressalta que a atividade com processos judiciais está muito atrelada à agenda do judiciário, por isso, os advogados não conseguiram ter folga toda a semana. Por outro lado, os colaboradores da área de consultoria, que negociam com os clientes, tiveram muito mais sucesso, bem como o setor administrativo.
“Não conseguimos implementar a metodologia em todo o escritório e até por isso alguns funcionários ficaram felizes e outros frustrados. Foram 20 anos construindo um formato de trabalho um tanto quanto ineficiente. Talvez o prazo de um ano seja pouco para fazermos uma mudança tão profunda”, avalia.
Entre as alterações, Soraya afirma que o projeto fez com que a empresa reavaliasse os desenhos da comunicação e sobre os formatos de reuniões, por exemplo. Todos os aprendizados já foram incorporados no escritório.
“Todos estão hoje com uma carga horária mais equilibrada. O programa já faz parte do nosso dia a dia, inclusive evitando o desperdício de tempo. A maior parte da equipe folgava às sextas-feiras e uma parte menor nas segundas. Assim foi durante o projeto piloto, mas é claro que não funcionou toda semana, pois algumas pessoas não conseguiram usufruir bastante. Conseguimos manter essa mentalidade acesa para tornar o modelo de trabalho mais flexível, com o objetivo de trabalhar menos e de maneira mais sustentável ”, relata.
Novos modelos de trabalho
Renata Rivetti lembra que o mercado de trabalho brasileiro vem de um modelo que muitas vezes valoriza o workaholic e a sobrecarga, sem entender se isso de fato é produtividade. Os modelos de trabalho começaram a ser repensados desde a pandemia.
“Existe sobrecarga de trabalho, mas também uma grande desmotivação. As pessoas estão trabalhando pouco e mal. Não podemos voltar para 2019 com jornada 100% presencial, pois isso vai resultar em perda de talentos. Acredito que seja possível construir um futuro que dê mais flexibilidade para as pessoas, mas com direitos e deveres muito bem definidos”, analisa.
Renata salienta que, globalmente, algumas pautas envolvendo o mundo do trabalho tiveram um retrocesso, como diversidade, saúde mental e bem-estar. Ao invés de fazer projetos pilotos coletivos, como foi o caso da semana de quatro dias, a ideia é oferecer consultoria para empresas que queiram se adaptar a modelos flexíveis e adotar redução de jornada, por exemplo, como uma tentativa de se adaptar ao futuro.
“Acredito que o tema saúde mental saiu debaixo do tapete, não é mais tabu. A gente vê globalmente uma crise da solidão e nas relações, além disso a geração Z está entrando no mercado de trabalho super desmotivada. Aquele modelo de todo mundo presencial e líderes controladores não tem mais espaço. As pessoas também começaram a falar mais sobre cuidado e qualidade de vida e não querem mais viver só para trabalhar”, observa.
Renata acredita que as empresas que cuidam do bem estar, da saúde mental e que têm uma liderança mais humana têm uma maior atratividade e retenção de talentos, além de aumento na produtividade.
“É preciso de fato ouvir mais as pessoas, criar modelos de trabalho flexíveis e uma liderança que construa uma relação de confiança. O futuro do trabalho é uma co-criação do que a gente quer agora. A inteligência artificial chegou e ela já pode reduzir a nossa sobrecarga, mas ao invés de facilitar, a gente trabalha mais, sempre com a sensação de que precisa ser mais produtivo e no final estamos só adoecendo. Chegou a hora da gente discutir novos caminhos”, complementa.