Quem me acompanha aqui em A Gazeta sabe que sou uma questionadora incansável e repito sempre: o planejamento patrimonial não é sobre a morte, é sobre a vida de quem fica. Agora, no entanto, escrevo com o coração em uma frequência diferente.
Mês passado, durante as celebrações ao Dia Internacional da Água, encontrei a motivação perfeita para homenagear o homem que me ensinou a amar a natureza: meu pai, José Campos Coelho. Ele era um ambientalista nato, uma alma solar, mística e única, que, em 22 de março de 1991, teve sua trajetória de 38 anos interrompida por um latrocínio.
Recém-promovido a supervisor de uma grande siderúrgica, meu pai era o equilíbrio raro entre a ambição e o cuidado. Sua prudência era admirável: comprou sua primeira casa antes mesmo de casar e, no momento em que partiu, finalizava com minha mãe a construção da casa dos sonhos. Ele nos deixou patrimônio, zero dívidas e, acima de tudo, um legado vivo. Mas, da noite para o dia, vi minha mãe, aos 32 anos, meu irmão, então com 6, e eu, com 10, enfrentando um mundo que não espera o luto passar para cobrar as contas.
Se hoje falo dessa forma é porque, como diz Nassim Taleb, tenho o “Skin in the Game” — a pele no jogo. Se você quer entender como os riscos realmente funcionam, deixo aqui uma provocação: leia Taleb. Ele é o autor de obras fundamentais como "A Lógica do Cisne Negro" e "Antifrágil". Eu não li sobre sucessão apenas em manuais; eu presenciei a luta hercúlea da minha mãe com um inventário que se arrastou por 14 anos, enfrentando contadores irresponsáveis e um advogado inescrupuloso.
Hoje, com orgulho e a autoridade de quem sobreviveu ao caos, posso orientar você para que não precise viver um segundo luto.
Inspirada pela paixão do meu pai pelas águas, uso a analogia da cachoeira e do lago para fazer um alerta.
Imagine a fartura: uma cachoeira gigante (sua renda) alimentando um lago enorme (seu patrimônio). Quando a água sobra, as pessoas não se preocupam: tanto faz se bebem da correnteza ou do reservatório. Mas a "vazão" da renda é finita. E o erro mais comum é quando as famílias pegam a água do lago e simplesmente a congelam em imóveis.
O resultado? Vejo patrimônios sólidos, mas vidas com sede.
É o "desespero da aposentadoria". Quando a cachoeira minguia, o gelo dos imóveis não derrete rápido o suficiente para pagar o plano de saúde ou o condomínio. Sinto um incômodo real ao ver pessoas que trabalharam duro — como meu pai trabalhou — chegando aos 70 anos e, em um restaurante, olhando primeiro a "coluna da direita" (o preço) antes de escolher o prato. Não é justo. Minha missão é fazer você entender que o segredo da tranquilidade está em garantir que seu lago tenha liquidez. Água é vida, mas ela precisa fluir.
Por conseguinte, entendo que o planejamento sucessório é a materialização do tempo que dedicamos à vida. Quando ajudo a organizar o amanhã, meu objetivo é garantir que a interrupção brusca de uma história não se transforme em uma tragédia financeira.
Um legado de verdade não é feito apenas do que se deixa para alguém, mas do que se deixa nesse alguém. Meu pai me deixou o exemplo, a mística e o amor pela natureza. Eu deixo a você o convite: o que você construiu hoje terá fluidez para sustentar os passos de quem vem depois de você?