Nesta sexta-feira, o Brasil comemora 130 anos de proclamação da República. É o golpe mais festejado da história. Infla o sentimento pátrio. Afaga a nacionalidade. Com razão, Marechal Deodoro tornou-se o primeiro grande herói, pós-Colônia.
Mas, ainda hoje, temos problemas herdados da colonização. Um deles é a desigualdade que aflige os filhos da pátria amada. São muitas. Há abismos perversos e vergonhosos entre ricos e pobres, homens e mulheres, pretos e brancos etc. Até quando?
A desigualdade de renda coloca o Brasil como nono pior país do mundo na distribuição da moeda. É o que aponta o ranking elaborado pela ONU. Não surpreende essa colocação tão terceiro-mundista. Aqui, a parcela mais rica concentra 23% da renda, muito acima da média mundial de 12%. Metade da nossa população embolsa 90% da renda, enquanto a outra metade sobrevive (ou rasteja) com minguados 10%. Isso nos desmoraliza junto à comunidade internacional.
A disparidade de ganhos na nossa sociedade cresce há 17 trimestres consecutivos. A gravidade está expressa no Índice de Gini, que apura a diferença de renda entre ricos e pobres, e que subiu de 0,625 no último semestre do ano passado para 0,627 neste ano. Trata-se de uma medida que varia de 0 a 1 - ou seja, o zero indica igualdade total, e o um, à desigualdade completa, com apenas uma pessoa abocanhando toda a renda, e as demais não recebendo nada.
Segundo o Centro de Políticas Sociais da FGV, entre 2014, quando o país afundou na sua pior recessão, e 2017, quando saiu dela, tropegamente, a pobreza aumentou de forma avassaladora: 33%. Entre 2015 e 2018, a perda da renda média foi de 3,44%, tendo sido mais intensa entre os jovens e os menos escolarizados - o que evidencia a necessidade de melhorar a educação, notadamente a formação e a qualificação profissional. Aqueles com idade entre 15 e 19 anos sofreram redução de 20% nos ganhos; de 20 a 24 anos, 13%.
Veja que situação desencontrada. Falta mão de obra especializada em muitas atividades, no entanto, o desemprego é apontado como principal vilão do derretimento da renda. O IBGE calcula que no Espírito Santo, existem cerca de 230 mil pessoas fora do mercado de trabalho. Desse total, 58 mil buscam vagas há pelo menos dois anos. O desempenho pífio da indústria capixaba tem contribuído para essa situação.
Mesmo assim, no Espírito Santo, o contingente de pessoas vivendo abaixo da linha das linhas de pobreza e de extrema pobreza diminuiu em 2018, na comparação com o ano anterior. A pesquisa Síntese de Indicadores Sociais (SIS) 2019, divulgada pelo IBGE na semana passada, mostra que em 2017 (quando ainda eram muito fortes os efeitos da estiagem na cafeicultura), 21,2% da população capixaba encontravam-se em condição de pobreza, e 4,9% em extrema pobreza. No ano seguinte, as taxas recuaram para 20,8% e 4%, respectivamente. Pela definição do Banco Mundial, pobre é quem tem renda familiar per capita de até R$ 420 por mês. Quem recebe menos de R$ 145 mensais está abaixo da linha de pobreza. Que perspectivas tem um cidadão com esse ganho?
A pesquisa aponta o Espírito Santo como nono Estado com menor desigualdade de renda no país. Na prática, essa colocação teria efeito mais expressivo se as disparidades de renda não fossem tão gritantes no Brasil. É necessário avançar muito.