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Desde o nascimento, percebemos com quem Jesus andaria e suas preocupações

Na natividade do filho de Deus, silenciados são empoderados, excluídos são visibilizados, desabitados recebem os cuidados da Encarnação e os sem direitos são acolhidos ao receberem o Criador

Publicado em 22 de Dezembro de 2019 às 04:00

Públicado em 

22 dez 2019 às 04:00

Colunista

Nascimento do filho de Deus Crédito: Divulgação

De repente, como narra o evangelista Lucas, na penumbra comum das noites do campo, enquanto pastores davam conta dos afazeres cotidianos, o céu poetizou boas-novas: “Não temas”, disse-lhes o anjo, “trago alegria sem fronteiras, porque das memórias da pequena cidade de Davi vem o menino-Cristo, o bebê-salvador” (Lucas 2).

Espantosamente, os sinais de sua chegada não seriam os festins palacianos, nem mesmo o som de ação de graças das sinagogas judaicas. A solenidade manifestou-se em uma manjedoura ornamentada por panos improvisados, simples como seus pais.

Filho de trabalhador pobre, tendo a mãe colocada sob suspeita, o messias cristão seria testemunhado por empregados do campo, os quais, segundo a tradição, não teriam voz em processos jurídicos na Palestina.

Visivelmente, o horizonte de sua missão começa a partir do nascimento. Na natividade do filho de Deus, silenciados são empoderados, excluídos do sistema aristocrático são visibilizados, desabitados recebem os cuidados da Encarnação e os sem direitos são acolhidos ao receberem o Criador. Desde seu nascimento, percebemos com quem Jesus andaria e suas preocupações. Por isso, celebrar o Natal é a oportunidade para lembrar os compromissos assumidos por Jesus.

Trinta anos depois, o Cristo da manjedoura defenderia a chegada do Reino de Deus, através do qual crianças teriam direitos, doentes receberiam assistência e as violências seriam denunciadas.

O menino amigo de excluídos posicionou-se profeticamente contra o feminicídio e expôs a bestialidade do sistema patriarcal, quando alguns homens tentaram matar a pedradas uma mulher, supostamente em nome da justiça e dos bons costumes. Além disso, Jesus desnudou nessa cena a ignorância e riscos do justiçamento.

Antecipando o Preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, no qual se afirma o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos inalienáveis, constituindo o fundamento da liberdade, justiça e paz no mundo, Cristo defendeu no Sermão do Monte os fundamentos da promoção da vida: “bem-aventurados os pacificadores”; “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça”.

A multiplicação de pães e peixes serve de marco simbólico da defesa do direito à alimentação. O personagem central do Natal foi preso político e torturado, denunciando a brutalidade do Estado e todo projeto de extermínio.

À vista disso, mesmo que esse detalhe da história não seja tão sublinhado, o Natal representa a defesa radical da dignidade humana, porque anuncia o nascimento do maior defensor dos Direitos Humanos.

*O autor é pastor, doutor em Ciências das Religiões e professor

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