Pré-candidato do prefeito Luciano Rezende a prefeito de Vitória, o deputado estadual Fabrício Gandini (também do Cidadania) anunciou, na última terça-feira, seu companheiro de chapa. Seu vice será o vereador Nathan Medeiros, eleito pelo PSB (sigla de Renato Casagrande) em 2016 e filiado ao PSL (ex-sigla de Jair Bolsonaro) em abril deste ano. Para além da afinidade pessoal e política, dois fatores com certeza pesaram muito na escolha.
O primeiro é a complementação proporcionada por Nathan a Gandini dos pontos de vista geográfico e socioeconômico: o deputado é de Jardim Camburi (classe média; região continental de Vitória), enquanto o vereador é representante da Grande São Pedro (região habitada por moradores de baixa renda da ilha).
As eleições de Gandini para vereador (2008, 2012 e 2016) e para deputado (2018) provaram que, como Luciano, ele é bem votado nos bairros de classe média para cima, sobretudo Jardim Camburi, mas esbarra em dificuldade de inserção nos bairros que concentram eleitores das classes D e E.
Além disso, há uma questão muito prática: tempo de TV e recursos do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral. A designação de Nathan como vice consolida a aliança de Gandini com o PSL, extremamente importante para o candidato do Cidadania também por pragmatismo.
A divisão dos segundos de propaganda de TV e rádio é feita pela Justiça Eleitoral entre os partidos com base no critério de proporcionalidade, isto é, proporcionalmente ao tamanho das respectivas bancadas na Câmara dos Deputados. Da mesma forma é repartido o bolo dos fundos partidário e eleitoral (há outros critérios, mas, em ambos os casos, esse é disparadamente o principal).
Na Câmara, a bancada do Cidadania atualmente é muito acanhada. Assim, para “crescer” nos dois aspectos, Gandini precisa de uma boa coligação. Por ora, ele tem apoio bem encaminhado de PV, Podemos, PDT, PSC… e, mais que nunca, do PSL.
Por ter uma grande bancada na Câmara Federal (eleita em 2018, quando Bolsonaro ainda pertencia à sigla), contrastante com a do Cidadania, o PSL possui em abundância justamente os dois "ativos" de que o partido de Gandini mais carece. E agora os disponibiliza ao pré-candidato da situação.
Assim, enquanto Nathan aporta à chapa de Gandini, por assim dizer, um "quê de povo", uma faceta da "comunidade de baixa renda da ilha", o PSL entrega à chapa um expressivo tempo de TV e um volume considerável de recursos de campanha.
Nathan ajudará Gandini a "penetrar" em nichos, bairros, redutos e segmentos populacionais de baixa renda em Vitória, enquanto o PSL ajudará o pré-candidato a "penetrar" na residência (e na mente) das pessoas, via propaganda eleitoral de rádio e TV.
MOVIMENTO PREMEDITADO
Verdade seja dita: a filiação de Nathan ao PSL, no limite do prazo para filiações de candidatos, no início de abril, já foi parte desse movimento premeditado para viabilizar o encaixe do vereador ao lado de Gandini na chapa majoritária e para consolidar o apoio do ex-partido de Bolsonaro ao candidato de Luciano Rezende à sucessão.
Até então, Nathan estava no PSB. E, se lá tivesse permanecido, nada disso teria sido possível, pois o partido do governador Renato Casagrande tem pré-candidato próprio a prefeito de Vitória: o vice-prefeito Sérgio Sá.
Esse deslocamento estratégico de Nathan foi um movimento costurado lá atrás pelo próprio Gandini, com uma ajuda inestimável do também deputado estadual Alexandre Quintino, que assumiu a direção estadual do PSL em março e promoveu, no Espírito Santo, uma guinada no até então partido de extrema direita. Na prática, em Vitória, isso significou tirar o partido de Capitão Assumção (também deputado estadual e também pré-candidato a prefeito) e entregá-lo de bandeja nas mãos de Gandini.
O QUE DIZ O CANDIDATO
O próprio Gandini, por sua vez, prefere enfatizar outros pontos. Na live em que anunciou a escolha do seu vice, disse que sempre gostou de se cercar de líderes, destacou a capacidade de Nathan e a total integração do vereador ao seu projeto para Vitória. “Somos parceiros.”
À coluna, o deputado ressalta que escolheu o Nathan “porque é o Nathan”. Sublinha as características pessoais do seu agora companheiro de chapa. Mas a preocupação com a “questão geográfica” já aparece em seu discurso:
“Nathan é um homem que venceu grandes desafios com dignidade. Um homem de caráter, trabalhador, família e que traz uma história de superação que me inspira. Eu escolhi um parceiro capaz, alguém para liderar junto comigo. Uma liderança nova na política, que veio da região de São Pedro, que sempre pautou sua vida na atuação social e que, tenho certeza, vai dar mais luz e protagonismo a essa região importantíssima da cidade, até porque será o primeiro vice eleito oriundo dessa região”.
MÉDIA DE IDADE
Agora batida e fechada, a chapa da situação na corrida pela Prefeitura de Vitória pode ser considerada jovem. Gandini tem 40 anos. Nathan, 38. Média etária: 39 anos.
CENA POLÍTICA 1: PARECEU NOIVADO
Realizado durante uma live na noite da última terça-feira (25), o anúncio do vice de Gandini foi uma mistura de “Arquivo Confidencial” do Faustão com “Tamanho Família”, do Márcio Garcia. Só faltou ter sido num domingo. Gandini contou toda a trajetória de vida de Nathan, com direito a alguns momentos dramáticos (como a perda precoce do pai num acidente automobilístico). E cada qual ficou de um lado do estúdio, ambos acompanhados pelas respectivas esposas e filhos.
Na hora do anúncio, Gandini rasgou elogios a Nathan, fez o convite ao vereador, que se emocionou e, literalmente, disse “sim”. Pareceu pedido de noivado, e Gandini até brincou ao ouvir o “sim”: “Pensei que ia me abandonar no altar”...
O NOVO “APERTO DE MÃOS”
Por fim, os dois fizeram uma foto dando um “cumprimento de cotovelos”, gesto que substitui, nestes tempos de pandemia, o tradicionalíssimo aperto de mãos entre companheiros de chapa para simbolizar a aliança. Com certeza veremos muitos desses nos próximos dias. Curiosamente, parece até que os dois na verdade estão exibindo as alianças no dedo, após terem selado o noivado…
Mas é um toque de cotovelos mesmo. Só não podem se acotovelar na chapa...