Encarregado da montagem da chapa de candidatos a vereador pelo partido este ano, o presidente do PSB em Vitória, Juarez Vieira, prefere ver Davi Esmael fora da agremiação. Questionado sobre a situação do vereador no PSB, o dirigente disse estar trabalhando em busca de um arranjo para acomodar Davi em outro partido. Alega diferenças de pensamento e personalidade do vereador com a direção partidária.
“Eu tenho para mim que ele [Davi] tem toda a liberdade de sair, Estamos conversando sobre isso. Estamos ajeitando uma posição boa para ele ir. O Davi Esmael, aonde ele for, levará os votos dele. Ele tem a personalidade um pouco diferente do pensamento da direção do PSB.”
Questionado pela coluna, o próprio vereador negou com veemência ter a mínima intenção de se desfiliar do PSB.
DIFICULDADE POLÍTICA
Durante a atual legislatura na Câmara de Vitória (2017-2020), Davi Esmael estabeleceu-se como um dos principais opositores da gestão do prefeito Luciano Rezende (Cidadania). É mentor político do presidente da Casa, Cleber Felix (de saída do PP para o DEM), que também não reza pela Bíblia de Luciano.
Entretanto, Cidadania e PSB são aliados nos governos de Vitória e do Espírito Santo. O Cidadania está no governo de Renato Casagrande (PSB), com direito a quadros nos dois primeiros escalões. Da mesma forma, o PSB está na administração de Luciano em Vitória, tendo, inclusive, o secretário municipal de Serviços, Nathan Medeiros.
Levando-se em conta essa relação política, a oposição de Davi a Luciano tem gerado, há algum tempo, situação no mínimo insólita e incômoda para os dirigentes do PSB no município e no Estado: o partido do maior aliado de Luciano (Casagrande) tem, na Câmara de Vitória, o seu principal opositor.
DESCOMPASSO IDEOLÓGICO
Some-se a isso uma certa incompatibilidade de ideias – citada por Vieira e de fato procedente – entre Davi e a cúpula do PSB. Evangélico e expoente da “bancada da Bíblia” na Câmara, o vereador mantém visão altamente conservadora em pautas ligadas a costumes, comportamento e minorias identitárias – grosso modo, a visão de Bolsonaro e Damares Alves, que campeia hoje no governo federal. Nessas matérias, Davi milita na Câmara como ativista religioso.
Não é privilégio dele. Essa postura hoje predomina no Legislativo de Vitória. Mas definitivamente não é essa a linha programática do PSB, partido de centro-esquerda, fixado na oposição ao governo Bolsonaro e bem mais liberal com relação a essas pautas. Se fosse outro o momento político, talvez ninguém nem notasse ou desse importância a esse descompasso. No Brasil polarizado de Bolsonaro, chama bastante atenção.
CANDIDATURA PESADA
Mas talvez a explicação para a maneira como a cúpula municipal do PSB quer “empurrar” Davi para fora do partido seja de ordem muito mais prática: a dificuldade dos dirigentes em bater chapa. Sem coligação na eleição proporcional este ano, cada partido precisa formar e registrar uma chapa completa – em Vitória, calcula-se pelo menos 23 candidatos, sendo 30% mulheres. Muitos devem concorrer pela primeira vez. Mas um candidato que já tenha mandato – no caso de Davi, dois mandatos seguidos – é considerado um favorito natural dentro da chapa.
A prova de o quanto Davi é competitivo foi seu resultado na última eleição, em 2016: com 5.165 votos, foi o 3º mais votado para a Câmara de Vitória, Essa concorrência interna “desleal” pode afugentar outros pré-candidatos, temendo trabalhar demais só para ajudar Davi a se reeleger – o sistema segue sendo proporcional. “Está difícil montar chapa”, admite Juarez Vieira.
NA PRÉVIA, DAVI APOIA SÉRGIO SÁ
Seja como for, a microcrise da direção municipal com Davi chega em um momento particularmente delicado para o PSB, às vésperas da prévia marcada para o próximo dia 17, na qual os filiados de Vitória indicarão o vice-prefeito Sérgio Sá ou o deputado estadual Sergio Majeski como pré-candidato da legenda à Prefeitura de Vitória.
Davi, por sinal, sempre foi um dos maiores entusiastas da tese de que o partido deve romper a aliança com o Cidadania e lançar candidato próprio. Na disputa interna, ele se destaca como um dos principais apoiadores da candidatura de Sergio Sá – exonerado por Luciano da Secretaria de Obras e Habitação de Vitória no último dia 31, um dia após ter assinado o livro de candidaturas aberto pelo PSB.
Davi defende a realização da prévia para mostrar à cidade, em definitivo, que o PSB terá candidato.
“Existe uma dúvida na cidade. Há um boato insistente em atrapalhar a articulação política do PSB. A partir do momento em que o partido define quem é o seu candidato,o partido sinaliza para a cidade algo que nós, filiados, já sabemos: que a candidatura do partido é para valer. A definição de um nome afasta o boato de que vamos compor mais à frente. A prévia, então, é para mostrar que o PSB tem, sim, uma candidatura própria, apesar do desconforto do prefeito.”
O vereador nega que a convocação da prévia – que pegou Majeski desprevenido – tenha o intuito de beneficiar Sérgio Sá, considerado muito mais próximo não só da cúpula do PSB como da militância do partido em geral, incluindo os pré-candidatos a vereador, que viriam pressionando a direção municipal por uma definição do candidato majoritário.
“A indefinição nos atrapalha. A convocação da prévia não é para atrapalhar Majeski e ajudar Sérgio Sá. Majeski é testado nas urnas, com votação altíssima e com ações na política que precisam ser respeitadas. As ações de fortalecimento político precisam se dar em torno de um candidato. Então precisamos definir quem é o nosso candidato. E chegou a hora de termos essa definição.”