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Entrevista

Paulo Hartung: “A preço de hoje, sairemos dessa crise de joelhos”

Em conversa exclusiva com a coluna, ex-governador faz nova profecia, além de revisitar algumas que fez na eleição de 2018. Uma delas foi que Bolsonaro seria um “descaminho” para o Brasil. Será que, para PH, essa previsão se cumpriu? Confira

Publicado em 07 de Junho de 2020 às 10:00

Públicado em 

07 jun 2020 às 10:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Paulo Hartung, ex-governador do ES
Paulo Hartung, ex-governador do ES Crédito: Reinaldo Carvalho/ALES
Em 2018, em mais de uma ocasião, inclusive em palestra para empresários capixabas num evento da Findes, ao lado de Fernando Henrique Cardoso (FHC), o então governador Paulo Hartung, já em pleno período de campanha, fez uma espécie de alerta: "Bolsonaro é um descaminho". Foi além, na verdade, conclamando os empresários presentes (a nata do PIB capixaba) a não votarem em Bolsonaro, que seria, como argumentou, um Donald Trump muito piorado. A fala foi recebida com pouquíssimo entusiasmo, para não dizer absoluta frieza, pelos empresários presentes.
Em outras oportunidades, Hartung também advertiu, inclusive em entrevista à coluna: “Não é bom votar com o fígado, com ódio. O ódio não produz coisas boas. Despejar o ódio nas urnas leva a decisões irracionais, equivocadas”.
Agora, nesta entrevista exclusiva (a segunda parte de um diálogo iniciado neste sábado, 6), o ex-governador (sem partido) revisita e analisa algumas de suas “profecias” nos últimos dois anos. No que concerne à principal delas (a do descaminho), eis a sua avaliação: sim, a realidade do governo Bolsonaro provou que ele estava certo, porém, preferia ter errado:
“Fiz essas previsões que você lembra, mas, uma vez resolvida a eleição, a minha torcida, como ser humano e brasileiro, era que minha previsão estivesse errada. Infelizmente, até agora, não é o que eu posso constatar.”
Na segunda parte da nossa entrevista com Hartung, ele também se debruça sobre outras duas questões. A primeira é a recente aproximação de Bolsonaro com o Centrão no Congresso, na tentativa de (finalmente) formar uma base congressual: “Acho que é tardio. O governo já está mais frágil para compor base. Podia ter feito isso em condições muito melhores, no início do governo. Mas, para o Brasil, é melhor que o governo tenha uma base nas duas Casas do Parlamento brasileiro”.
A segunda é a sucessão, ou sobreposição, de equívocos por parte do governo Bolsonaro na condução da crise da pandemia do novo coronavírus, bem como as condições em que o país, a preço de hoje, deverá sair dessa “onda caixote”:
“Descoordenação, falta de exercício de liderança… é isso que estamos vivendo: um bate cabeça sem fim. [...] Administrando mal, descoordenadamente, com crise política junto com crise sanitária e econômica… A preço de hoje, isso leva o país a sair da crise se arrastando, de joelhos. Precisamos evitar isso.”
PH comenta, ainda, a dificuldade de Bolsonaro em compreender o que significa governar na democracia: “É dialogar, é convencer a sociedade, é convencer os parlamentares, é explicar ao Judiciário, ao Ministério Público, ao Tribunal de Contas, à Defensoria… explicar o que você está fazendo, o que não pode ser feito. Na democracia, governar é isso: é um trabalho de convencimento”.
Confira, abaixo, o bate-papo com o ex-governador:

Em 2018, o senhor “profetizou” que a eleição de Jair Bolsonaro seria um “descaminho” para o Brasil. O senhor acha que a sua profecia se cumpriu?

Eu alertei. Essa fala que fiz na Findes foi parar na primeira página de A Gazeta e teve repercussão na imprensa nacional. Mas eu confesso que, terminada a eleição, a minha torcida pessoal era para que eu estivesse errado, porque sou brasileiro, vivencio a história do nosso país. Do Plano Real em diante, nós conseguimos melhorar o nosso país, indiscutivelmente. Os números todos provam isso. Depois o país flertou de novo com a desorganização das contas públicas, com a ideia de que governo, quando quer, faz PIB, faz crescimento econômico, faz pleno emprego… E aí a “nova matriz econômica” nos levou a uma brutal recessão econômica em 2015 e 2016. O país viveu aí um segundo impeachment, que eu particularmente sempre tive as minhas grandes ressalvas em relação a ele. Passamos essa situação toda, com a população perdendo empregos, milhões de desempregados, as famílias perdendo renda… Então, eu fiz essas previsões que você lembra, mas, uma vez resolvida a eleição, a minha torcida, como ser humano e brasileiro, era que minha previsão estivesse errada.

E estava errada?

Infelizmente, até agora, não é o que eu posso constatar. Digo “até agora” porque eu sou brasileiro, “profissão esperança”. Então, estou aí, na minha “pequenez” do ponto de vista da representatividade no debate nacional, eu tenho tensionado, com ideias, com falas, com palestras, debates, agora por meios digitais, para que o país encontre o seu caminho. E essa é a minha torcida. Tudo o que tenho feito, falado e escrito é no sentido de contribuir para que o país ache um caminho, inclusive nessa crise monumental dentro da qual estamos. Você registra aí erros muito graves na condução do país. Quando li sobre Portugal, fiquei impressionado: além de ter tomado as atitudes corretas, o governo português se senta uma vez por semana com a oposição, explica tudo o que está fazendo, por que está fazendo aquilo, para manter o país unido em relação ao combate à pandemia.

Enquanto aqui, além das crises sanitária e econômica, temos uma crise política após a outra, em plena pandemia…

É isso. Nós, brasileiros, já erramos, porque a crise começou lá do outro lado do mundo e nos deu um tempo para nos prepararmos melhor para enfrentar o desafio. Nós, de certa forma, descartamos esse tempo. Em gestão de crise, tempo é elemento fundamental. Nós tivemos esse tempo, mas não o usamos bem. Depois a crise chega ao Brasil e nos pega fragilizados. O Brasil estava fragilizado economicamente. O país cresceu 1,1% no ano passado: um crescimento medíocre depois da recessão econômica que vivemos. Aliás, crescemos aproximadamente 1% em 2017, 1% em 2018 e 1% em 2019. Quer dizer, está claro que estávamos saindo mal da recessão econômica de 2015/2016. Quando a pandemia chegou ao Brasil, o país estava com mais de 12 milhões de desempregados e com uma capacidade de investimento baixíssima. O investimento no ano passado, público e privado, foi da ordem de 15%. Quando o Brasil estava rodando bem, o investimento público e privado estava em 22%. Então, tínhamos um tempo e não o usamos; fomos pegos pela crise extremamente fragilizados; e pior: em cima de uma crise sanitária e econômica brutal, nós produzimos uma crise política. Quer dizer: descoordenação, falta de exercício de liderança… é isso que estamos vivendo: um bate cabeça sem fim. Mas a minha torcida, como cidadão, não é outra senão a torcida para que a ficha caia e as autoridades maiores deste país se entendam. É importante que o Executivo nacional converse com o Supremo, converse com o Senado, converse com a Câmara dos Deputados, converse com os governadores, converse com os prefeitos… e que tenhamos aí uma coordenação real de ações, e não uma briga sem fim nas redes e no dia a dia da vida, como estamos assistindo, o que só agrava e só amplia os custos dessa crise. Esses custos já seriam elevadíssimos, se estivéssemos administrando bem a crise. A gente administrando mal, descoordenadamente, com crise política junto com crise sanitária e econômica… A preço de hoje, isso leva o país a sair da crise se arrastando, de joelhos. Precisamos evitar isso. Não estou aqui para comemorar nenhuma previsão que fiz. Não me interessa comemorar alerta que fiz lá atrás e que se confirma aqui ou acolá. O que me interessa é o desenvolvimento do país.
"Não estou aqui para comemorar nenhuma previsão que fiz. Não me interessa comemorar alerta que fiz lá atrás e que se confirma aqui ou acolá. O que me interessa é o desenvolvimento do país."
Paulo Hartung (sem partido) - Ex-governador do ES

Em entrevista a esta coluna, em abril de 2019, o senhor avaliou que o maior erro de Bolsonaro, àquela altura, era desprezar a necessidade de articulação política com o Congresso e de construção de uma base parlamentar, tratando algo próprio do jogo democrático como sinônimo de corrupção ou fisiologismo. Em março de 2019, no Chile, Bolsonaro chegou a perguntar para a imprensa o que é “articulação política”. O senhor acha que o presidente finalmente compreendeu e está aplicando corretamente esse conceito?

Quando você sai vitorioso de uma eleição, você sai com muito capital político. E é muito mais fácil você compor uma base política junto com a base social que está ali apoiando-o, tanto que você saiu vitorioso. Dá para fazer as coisas com um bom diálogo e uma boa articulação. Foi isso que alertei lá naquela entrevista. Na democracia, ninguém governa produzindo bons resultados sem uma base política e institucional bem montada, nem sem apoio do povo. Esses são dois pilares importantes. O governo deixou de fazer isso lá atrás, quando poderia fazer muito bem feito. E agora, já perdendo capital político, perdendo apoio social, ficando aí com um quarto da população a apoiá-lo, o governo resolve fazer uma base política no Parlamento. Objetivamente, é melhor que esteja fazendo. Mas, indiscutivelmente, está trabalhando agora em condições de maior fragilidade…
"Já perdendo capital político, perdendo apoio social, com um quarto da população a apoiá-lo, o governo resolve fazer uma base política no Parlamento. Objetivamente, é melhor que esteja fazendo. Mas, indiscutivelmente, está trabalhando agora em condições de maior fragilidade… "
Paulo Hartung (sem partido) - Ex-governador do ES

Mesmo que essa base política agora, retardatariamente, signifique acordos com o chamado Centrão? Ou, se “criminalizamos” o Centrão, estamos cometendo o mesmo erro de manter esse preconceito no que se refere à articulação política?

Quando você tem a eleição na democracia, seja nos Estados Unidos, seja na França, seja em qualquer lugar onde você tem o presidencialismo, você elege o presidente da República. E quem está eleito presidente precisa ter uma base no Parlamento. O Trump precisa de uma base no Congresso Nacional para apoiar os seus projetos, para não permitir o impeachment que foi tentado em determinado momento e assim por diante. Então, na democracia, a lógica é essa. No Brasil, você teve composições com o Congresso Nacional absolutamente equivocadas, para não dizer coisa pior… Até criminosas, vamos dizer as coisas piores com todas as letras. Isso não quer dizer que compor uma base de apoio no Parlamento tenha que ser por métodos incorretos, ilegais e assim por diante. Você pode compor uma base no Parlamento através do diálogo, de compromissos programáticos. Você foi eleito com ideias programáticas, mas as suas ideias não te deram a base no Parlamento de que você precisava? Você pode acrescentar pontos programáticos de outras forças políticas ao seu programa. Isso é a democracia. É evidente que, como você tinha um sentimento explosivo na sociedade, por um conjunto de equívocos que foram cometidos no Brasil, você pode querer surfar nisso. Mas você tem que ter o cuidado de não querer surfar numa “onda caixote”, porque não vai surfar. Você tem que saber o que vai fazer. E governar é isso: é dialogar, é convencer a sociedade, é convencer os parlamentares, é explicar ao Judiciário, ao Ministério Público, ao Tribunal de Contas, à Defensoria… explicar o que você está fazendo, o que não pode ser feito. Na democracia, governar é isso: é um trabalho de convencimento. Então, acho que é tardio. O governo já está mais frágil para compor base. Podia ter feito isso em condições muito melhores, no início do governo. Mas, para o Brasil, é melhor que o governo tenha uma base nas duas Casas do Parlamento brasileiro, que você tenha uma estabilidade para o país. Isso é o que defende qualquer brasileiro que é patriota realmente. Não esse negócio de patriotismo bobo e equivocado que temos visto mundo afora. O brasileiro que é patriota mesmo, que quer o futuro do país, defende isso, independentemente do governo que esteja no poder.
"Como você tinha um sentimento explosivo na sociedade, por um conjunto de equívocos que foram cometidos no Brasil, você pode querer surfar nisso. Mas você tem que ter o cuidado de não querer surfar numa 'onda caixote', porque não vai surfar. Você tem que saber o que vai fazer. "
Paulo Hartung (sem partido) - Ex-governador do ES

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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