A poucos dias do 2º turno, realizado em 29 de novembro, o articulador político da campanha de Lorenzo Pazolini, Roberto Carneiro, recebe uma ligação: é o ex-senador Magno Malta. Parceiro de Pazolini na bandeira do combate à pedofilia e aliado político dele em sua eleição para deputado estadual dois anos atrás, Magno quer conversar com o candidato a prefeito de Vitória. Carneiro informa a Pazolini que o ex-senador entrou em contato e avisa ao candidato que vai retornar a ligação. Pazolini lhe responde: “Deixa. Na segunda-feira [dia seguinte ao 2º turno], eu retorno para ele”.
Dois meses antes, em setembro, no período de fechamento de coligações e alianças, Magno havia recebido uma negativa de Pazolini. Para levar o seu partido, o PL, a apoiar a candidatura do deputado, o ex-senador havia exigido a indicação do vice na chapa, e buscou isso até o último instante. Pazolini não aceitou. Magno, então, lançou uma chapa própria à prefeitura, encabeçada pelo engenheiro Halpher Luiggi. Ele teve menos de 1 mil votos.
Alguns indícios levam a crer que o PL decidiu realmente registrar a chapa na última hora, de improviso, e que a pré-candidatura de Halpher na verdade tinha sido lançada como um blefe para negociar com Pazolini uma vice que acabou não vindo. Um deles: ao requerer registro de candidatura, Halpher nem sequer protocolou um plano de governo. Só o fez dias depois, após ter sido intimado pela Justiça Eleitoral a cumprir a exigência, sob o risco de ter o registro negado.
No debate A Gazeta/CBN, em 23 de novembro, Pazolini afirmou ao vivo que Magno não participará de sua administração em Vitória.
O “não” de Pazolini a Magno e o gelo que se seguiu é só um dos muitos bastidores da exitosa campanha do prefeito eleito, relatados hoje nesta coluna. Todas as informações nos foram repassadas, sob condição de anonimato, por uma fonte que atuou dentro do QG de campanha do vencedor da eleição a prefeito de Vitória.
Quem realmente formava o núcleo duro da campanha; como Pazolini se preparava para os debates; como os programas eleitorais eram definidos todas as noites; a personalidade de Pazolini e seu jeitão no dia a dia com os colaboradores mais próximos; os "furos" que eles mesmos identificaram na propaganda eleitoral de Gandini; por que no início ignoraram, mas em certo ponto decidiram rebater as acusações que tentavam ligá-lo a Gratz; o que o prefeito eleito já passou diretamente para os membros do seu time de transição...
Confira tudo isso abaixo.
O NÚCLEO CEREBRAL DA CAMPANHA
Além do próprio Pazolini e da sua vice-prefeita eleita, a Capitã Estéfane Ferreira, os créditos pela vitória eleitoral devem ser divididos entre os membros do muito restrito “núcleo pensante” da campanha, formado por somente seis pessoas. Além do já citado Roberto Carneiro, articulador político e presidente estadual do partido de Pazolini (Republicanos), o sistema nervoso da campanha era formado por:
- Marcelo de Oliveira, coordenador do plano de governo, responsável por transpor as ideias do plano para a propaganda eleitoral e para as entrevistas e respostas do candidato nos debates;
- Valéria Morgado, jornalista, encarregada do relacionamento com a imprensa e da imagem do candidato nos meios de comunicação;
- Gustavo Oliveira e Julio Cesar Vasconcelos – publicitários e proprietários da Teia Comunicação, agência de publicidade localizada em Jardim da Penha (bairro onde cresceu Pazolini). Contratada pela coordenação da campanha, a agência desenvolveu toda a propaganda eleitoral do candidato. Para isso, criou uma equipe à parte, só para trabalhar na campanha.
- Higor Franco Ribeiro – sócio de Gustavo e Julio Cesar na BlueDog Media, produtora de audiovisual. Foi ele quem dirigiu e assinou toda a propaganda eleitoral de Pazolini na TV (inserções e programas no horário eleitoral gratuito).
Basicamente, foram essas seis pessoas que fizeram a campanha de Pazolini. Ou que a fizeram se tornar realidade.
AS REUNIÕES NOTURNAS
Todas as noites, o sexteto e Pazolini se reuniam às 20h30 para assistirem juntos ao horário eleitoral na faixa nobre. Ao fim, trocavam impressões e definiam os programas seguintes. As reuniões se alternavam entre quatro pontos de encontro: na agência, em Jardim da Penha; no comitê de campanha, na Fernando Ferrari; no escritório do Republicanos, na Mata da Praia; ou no estúdio onde eles gravavam, em Vila Velha.
“O Pazolini vinha com o sentimento da rua. Ele queria muito que os programas comunicassem o que estava no plano de governo. Mas, no plano, a gente colocou as propostas de um jeito macro. E ele vinha para as reuniões, após um dia inteiro de atividades de campanha, trazendo o que as pessoas falavam com ele na rua. Um exemplo: a Casa Rosa [um centro para atendimento às mulheres]. As pessoas queriam saber o que era aquilo, estavam perguntando para ele nas ruas. Então decidimos fazer um programa explicando melhor a proposta”, conta a fonte.
GRATZ E A REAÇÃO A GANDINI
O núcleo pensante da campanha promoveu dois grupos de controle – pesquisa qualitativa em que se reúnem pessoas aleatórias, de perfil heterogêneo, para se exibir os programas do candidato e dos adversários e se colher as impressões espontâneas dos participantes do grupo. Segundo a fonte, a conclusão mais interessante, na verdade, diz respeito à reação das pessoas quanto à propaganda do deputado estadual Fabrício Gandini, candidato do Cidadania que rivalizou com Pazolini no 1º turno, procurando vinculá-lo ao ex-deputado e ex-bicheiro José Carlos Gratz e ao crime organizado no Estado.
“Ninguém entendeu os ataques de Gandini! Foi algo que não pegou. Na nossa avaliação interna, a estratégia dele foi equivocada. Nosso grupo de controle mostrava que as pessoas não queriam ver isso e rejeitavam esse tipo de ataques. Foi uma estratégia típica de quem vem atrás e entende que precisa bater, mas até esse momento ele estava na frente com o Coser nas pesquisas.”
Tanto é assim que, efetivamente, no horário eleitoral gratuito, enquanto Gandini aumentava a ofensiva, Pazolini passou muitos dias sem rebater nem responder diretamente sobre Gratz. De modo vago, sem citar ninguém, aparecia dizendo que estava sendo vítima de ataques e calúnias. Dias depois, exibiram um depoimento do advogado Henrique Herkenhoff, agora na equipe de transição de Pazolini, atestando a integridade do candidato.
Até que, em dado momento, a poucos dias do 1º turno, o programa de Pazolini mostrou-o afirmando com todas as letras que não tem nenhum vínculo com Gratz. Por que a campanha mudou de ideia?
“Foi o momento em que a gente identificou dois dias de rua em que esse tema surgiu. Achamos que devíamos responder porque, nesses dois dias, o Pazolini chegou à reunião dizendo que isso tinha surgido nas ruas”, responde a fonte.
Sobre a declaração de Gratz, dada em entrevista a esta coluna no dia 31 de outubro, de que encontrara Pazolini no Iate Clube, na noite do dia 29 (uma quinta-feira), a fonte volta a reforçar que isso jamais correspondeu de modo algum a um encontro marcado entre eles, mas puramente casual. “Era um evento do Instituto do Câncer lá das mulheres do Iate Clube. Prevenção ao câncer. Isso não pegou.”
ALFINETADAS EM GANDINI
Na “trocação” do 1º turno com Gandini, alguns dos “golpes” da campanha de Pazolini no adversário foram dados não como revide, mas por iniciativa própria. A fonte da coluna admite isso e cita um exemplo. Ainda na 1ª quinzena de outubro, a campanha de Pazolini começou a veicular uma inserção sugerindo que Gandini estava mentindo e fazendo propostas irreais, por prometer abrir concurso para a Guarda Municipal logo no 1º dia de governo e reduzir o índice de homicídios de Vitória para menos de 10 por 100 mil habitantes em quatro anos.
“Foi uma deixa que eles nos deram. Uma coisa que a gente tinha muito forte era: não vamos prometer coisas que não possam ser cumpridas. O próprio Pazolini dizia: ‘Não coloca isso porque isso eu não vou conseguir fazer. Vocês vão enrolar minha vida com isso’”.
Um segundo ponto destacado por esse colaborador de Pazolini é que, em certo momento, a propaganda de Gandini passou a ser vista pelas pessoas como muito futurista e “fantasiosa”, algo que também apareceu nos grupos de controle, principalmente quando ela ilustrava a proposta de expansão de Cerco Inteligente, com reconhecimento facial de criminosos, por exemplo.
“É o que chamamos de aceitabilidade do discurso. Estudos mostram, por exemplo, que os brasileiros têm muita resistência em comprar produtos inteligentes, ligados à internet das coisas etc., porque associam esses produtos a algo muito caro, fora da realidade das pessoas. O negócio do Cerco Inteligente era exatamente o que as pessoas não achavam possível no programa do Gandini, porque achavam muito caro. Eles partiram para um programa muito fantasioso, meio de ficção científica. Não digo que o Gandini não conseguiria fazer. Até acho que seria possível, porque hoje há tecnologias bem mais baratas. A questão é que as pessoas não acreditavam no programa deles, porque tinham a percepção de que aquilo é um produto inacessível.”
DAMARES ALVES
Já no 2º turno, não houve embate algum com Coser na propaganda de TV. “Deixamos João Coser de lado. Não teve um programa nosso de ataque direto a ninguém, porque as pessoas não queriam ver isso.”
O que surgiu, sim, no 2º turno, em debates e nas redes sociais, foi a proximidade política entre Pazolini a ministra Damares Alves. A fonte observa: “Eu nem chamaria de proximidade política. Pazolini tem pela Damares uma admiração pelo que ela faz pelas crianças. Em certo momento da campanha, ele foi pressionado a assumir uma posição pública, digamos, renegando a Damares e se distanciando dela. Ele se recusou a fazer isso. Disse: ‘Eu critico essas posições ideológicas que ela tem. Eu não vou fazer discurso religioso. Mas não vou falar nada contra ela’”.
PAULO HARTUNG
A fonte da coluna afirma que nem Pazolini nem ela própria se falou com Paulo Hartung durante a campanha. No último dia 30, “day after” da vitória eleitoral, a fonte recebeu do ex-governador, pelo Whatsapp, uma mensagem com uma palavra: “Parabéns”.
“O Paulo não tentou se aproximar. Ninguém mandou sinal de cá pra lá nem de lá pra cá. O Paulo não participou da campanha e te asseguro que eles não conversaram durante a campanha.”
MEMÓRIA DE CONCURSEIRO
Um ponto que chamou bastante a atenção de todos no desempenho de Pazolini nos debates foi a sua “memória de concurseiro”. Para cada pergunta, ele parecia já trazer na mente a resposta toda pronta e a enunciava sem titubear. Isso por um lado era bom, pois ele sempre transmitia segurança; por outro, prejudicava a espontaneidade do candidato, que soava algo mecânico, algo robotizado.
O interlocutor de Pazolini atesta a sua inteligência e a sua memória prodigiosa: “Ele é altamente inteligente. Às vezes, numa reunião, vinha um técnico, nos passava um dado, informava um número. Eu anotava. Três semanas depois, a gente falava sobre aquele assunto, ele me dizia o número. ‘Não, não é isso não’, eu discordava. ‘Ah, é? Então vê lá naquele seu caderninho onde você anota tudo’, dizia ele. Eu ia lá conferir no caderninho, e o número que ele disse estava certo”.
PREPARAÇÃO PARA OS DEBATES
“Ele pega as coisas muito rápido”, diz o auxiliar de Pazolini. Essa facilidade, somada à boa memória, fazia com que o candidato não gastasse muito tempo preparando-se para os debates finais contra João Coser.
“No debate de A Gazeta e CBN, ele leu no caminho para a emissora as respostas que preparamos. No debate final da TV Gazeta, levou só uns vinte minutos estudando as respostas. Ele pediu para a gente fazer as perguntas para ele com base nas regras do debate e para preparar as réplicas dele de acordo com o seu plano de governo. Aí entregamos tudo para ele estudar. Ele lia um pouco, riscava alguma coisa. No meio da leitura parava, falava com alguém sobre algum outro assunto. Alguém falava: ‘Pazolini, se concentra, pelo amor de Deus’! E alguém: ‘Deixa, é o jeito dele, é assim que ele memoriza as coisas’. Dali a vinte minutos, ele se levanta anunciando: ‘Tá bom, vou pra casa tomar um banho pra poder fazer o debate’”.
A TRANSIÇÃO
Em sua primeira reunião com o time de seis colaboradores que escalou na sua equipe de transição, Pazolini deixou bem claro que ninguém ali estava se juntando à equipe com a garantia de ser nomeado para alguma secretaria. Cortou logo essa expectativa.
“Também disse que vamos gastar nossa energia com as coisas boas. Todos os investimentos que estão previstos pela prefeitura e que estão em andamento, nós vamos manter em andamento. Ele não quer interromper nenhum financiamento nem mudar nome de programa. Olha, vou te dizer: isso é muito raro, viu? Um exemplo: o Estado Presente e o Ocupação Social sempre foram a mesma coisa, convenhamos... A operação de crédito com o BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento] está garantida no orçamento de 2021. O programa de revitalização da orla noroeste está 100% mantido. Vamos fazer um controle de gastos, mas não vamos parar nada.”
Quanto à escalação de secretários, Pazolini ainda não deu nenhuma pista, nem para os auxiliares mais próximos na campanha nem para os integrantes de sua equipe de transição: “Essa leitura é difícil de fazer. Ele se mantém enigmático”.
PERSONALIDADE
Na definição da nossa fonte, que esteve com Pazolini desde os primórdios da campanha: “É um cara de poucas palavras. É um cara que ouve muito. Tem muita autoconfiança. Sempre se mostrou muito convicto de que estava no caminho certo. O mundo estava acabando e ele ‘Caaaaaalma, rapaz’… Tranquilaço. Também é um cara bem-humorado, tem momentos em que é brincalhão, piadista, gozador. Acima de tudo, é um cara muito disposto a acertar. Ele quer muito acertar. Isso eu te garanto”.