Fotomontagem
Nas últimas décadas, o Partido Liberal (PL), antigo Partido da
República (PR), dirigido nacionalmente por Valdemar Costa Neto (preso no
mensalão), era uma das mais influentes e atuantes siglas do Centrão. Com a
chegada de Jair Bolsonaro, tornou-se o partido do bolsonarismo e, em 2022, foi a
legenda que elegeu a maior bancada na Câmara dos Deputados: 98, segundo a
última totalização do TSE (em 20 de julho deste ano).
No Espírito Santo, nesse mesmo embalo, o PL se saiu
muito bem nas eleições estaduais de 2022.
No Senado, o partido triunfou com o retorno de Magno Magno,
seu proverbial presidente estadual, derrotando Rose de Freitas e Erick Musso.
Na Assembleia Legislativa, a legenda elegeu a maior bancada, com
cinco dos 30 deputados. O puxador de votos da chapa foi o Capitão Assumção: com
98.669 votos, ele foi o segundo candidato ao cargo mais votado naquele pleito e
na história do Espírito Santo (só atrás de Sérgio Meneguelli).
Já na Câmara dos Deputados, Gilvan da Federal foi eleito pelo
PL como o segundo candidato mais votado em nosso estado (87.994 votos), atrás
somente de Helder Salomão (PT).
Quatro anos depois, duas das principais apostas eleitorais do
PL-ES nas disputas proporcionais estão fora do páreo: precisamente, Assumção e
Gilvan. Pleiteando a renovação dos respectivos mandatos, os dois foram barrados
pela Justiça Eleitoral. Não têm substitutos à altura.
Gilvan já renunciou à candidatura e foi substituído na chapa
federal do PL, enquanto Assumção procura reverter a decisão.
Por óbvio, isso abala imensamente as perspectivas do partido
nas eleições legislativas em solo capixaba.
Além disso, o vereador de Vitória Armandinho Fontoura, outra
das grandes apostas na chapa estadual, também teve a candidatura negada pelo
TRE-ES (mas recorre da decisão junto ao mesmo tribunal).
Mas não só as mais recentes notícias que reclamam atenção e
reflexão.
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De 2022 para cá, no Espírito Santo, o partido dos Bolsonaros
tem acumulado uma sucessão de resultados frustrantes nas urnas, reveses
judiciais, baixas e defecções de quadros importantes, seja por sectarismo da liderança
estadual, seja por concentração de poderes (uma gestão por demais
centralizada), seja por pragmatismo dos próprios mandatários.
Nas eleições de 2024, por resolução interna de Magno, os diretórios
municipais do PL foram impedidos de firmar coligações com quase todos os partidos
(inclusive siglas de direita e conservadoras, mas não consideradas desse modo
pela direção estadual). Mesmo assim, o PL decidiu lançar a incrível marca de 50
candidatos a prefeito, num universo de 78 municípios. Apostou em sua própria
força, dispensando aliados.
O resultado ficou muito aquém do projetado. O PL só elegeu
cinco prefeitos, todos eles em cidades pequenas do interior, com menos de 100
mil habitantes. Um deles, o de Santa Maria de Jetibá, Ronan Zocoloto, foi
expulso em agosto pela direção municipal, por determinação de Magno.
A alegação foi a de que o prefeito teria se aproximado
politicamente de Ricardo Ferraço e Renato Casagrande, além de ter faltado a
evento com Magno.
A sigla hoje governa quatro cidades capixabas. Uma delas é Muqui, onde o prefeito, Sérgio “Camarão” Anequim, já declarou apoio a Ricardo para governador.
Léo Camargo
Naquele pleito de 2024, no conjunto das dez cidades mais
populosas do Estado, os candidatos a prefeito do PL (incluindo Assumção em
Vitória) foram mal votados. A maioria não chegou a 10% dos votos válidos. Proporcionalmente,
o único que se salvou foi o ex-vereador Léo Camargo, em Cachoeiro de
Itapemirim, que obteve 23% dos votos válidos, mas perdeu para Theodorico
Ferraço (PP).
Em março deste ano, Camargo, um jovem com potencial, saiu do
PL. Neste pleito, é candidato a deputado estadual pelo União Brasil – que está
na coligação de Ricardo Ferraço.
Não foi o único a abandonar a legenda nos últimos anos.
Hoje, dos cinco deputados estaduais eleitos em 2022, restam
três: Assumção, Lucas Polese e Danilo Bahiense.
Zé Preto e Callegari mudaram de sigla, ambos por não
encontrarem espaço no PL para concretizarem o próprio projeto eleitoral.
Ex-vereador de Guarapari, Zé Preto filiou-se ao PP em 2024
para ser candidato a prefeito da cidade. No PL, não teria legenda. O clima
entre ele e Magno azedara porque, logo após chegar à Assembleia, o deputado
aderiu à base de Casagrande em vez de lhe fazer oposição.
No PP, Zé Preto realmente concorreu à Prefeitura de
Guarapari. Perdeu para Rodrigo Borges (então no Republicanos). O PL foi
representado na disputa pelo também deputado estadual Danilo Bahiense, muito
mal votado.
Hoje, Zé Preto é candidato à reeleição na Assembleia, pelo Podemos. Está na coligação de Ricardo e o apoia para governador.
Wellington Callegari
Já Callegari, um dos mais ideológicos apoiadores de Bolsonaro
no Estado, filiou-se à Democracia Cristã (DC) em 2025 para conseguir ser candidato a senador neste
ano. Ficando no PL, ele não teria a legenda, reservada meses antes por Magno
para uma de suas filhas, a publicitária Maguinha Malta – sem experiência nas urnas.
Julgando-se mais preparado que Maguinha para a empreitada, o
deputado tentou fazer o convencimento interno, mas, sem conseguir dobrar Magno,
desistiu e pediu para sair. Após receber a carta de anuência, entrou no pequeno
DC, pelo qual realmente é candidato a senador neste pleito. Já declarou apoio a Ricardo.
Carlos Manato
Quem também saiu foi ninguém menos que Carlos Manato.
Principal representante do polo bolsonarista no Espírito Santo entre 2018 e 2022,
Manato perdeu as duas últimas eleições para governador (ambas para Casagrande).
Mas a verdade é que em 2022 chegou muito perto. Levou a eleição para o segundo
turno, no qual teve 46,1% dos votos válidos. Deu trabalho para Casagrande, mas
o viu se reeleger.
Em março deste ano, Manato trocou oficialmente o PL pelo Republicanos.
Fez isso, em primeiro lugar, pelo mesmo motivo que moveu Callegari: inicialmente,
queria concorrer ao Senado, projeto impossível no PL, já que a vaga foi
guardada para Maguinha pelo próprio pai.
Mas, no caso de Manato, há uma questão adicional: um
desentendimento pessoal com Magno. Após a derrota nas urnas em 2022, ele passou
a exteriorizar algo que era evidente (bastava olhar os números informados ao
TSE): como presidente estadual do PL, Magno concentrou os recursos do Fundo
Eleitoral na própria campanha a senador, deixando a de Manato, financeiramente,
em segundo plano.
Manato fala de uma dívida de campanha milionária que teria
sobrado para ele mesmo quitar, após supostas promessas não cumpridas pela
direção partidária. Os dois se tornaram desafetos.
O ex-deputado acabou se tornando, novamente, candidato a
deputado federal, na chapa do Republicanos.
Há, ainda, outros casos curiosos, de agentes políticos
promissores, que pouco duraram no PL. Um deles é o Coronel Ramalho, hoje
candidato a deputado federal pelo Republicanos, na mesma chapa de Manato.
O ex-secretário estadual de Segurança teve uma passagem bem
mais curta no PL do que se poderia imaginar, haja vista seu entusiasmo enquanto
ali esteve. Em março de 2024, após entregar o cargo de secretário e se
desfiliar do Podemos, Ramalho entrou no PL, a convite de Magno, tendo a ficha
de filiação abonada pessoalmente por Jair Bolsonaro. Filiou-se para ser
candidato a prefeito de Vila Velha. E assim fez.
Durante a temporada eleitoral de 2024, radicalizou o discurso
e revelou-se um dos mais fervorosos bolsonaristas, participando de atos
públicos com Gilvan da Federal, Eduardo Bolsonaro, Sargento Fahur, entre
outros. Mas Arnaldinho Borgo se reelegeu com quase 80% dos votos válidos.
Sem mandato nem cargo público, Ramalho fez nova revisão de
rota. Em abril de 2025, após 13 meses de filiação ao PL, o coronel da reserva
da PMES aceitou o convite de Erick Musso e Lorenzo Pazolini (ambos do
Republicanos) para assumir a Secretaria de Meio Ambiente de Vitória. Para isso,
saiu do PL, pois Magno não queria participação na gestão de Pazolini.
A mudança foi parte de um plano maior: Ramalho entrou no Republicanos e, em março deste ano (com menos de um ano na pasta), desincompatibilizou-se para se candidatar a federal.
Ex-seminarista e membro de uma ala bem conservadora do
catolicismo, o jovem Juninho Corrêa elegeu-se vereador de Cachoeiro em 2020. Dois
anos depois, foi bem votado na chapa federal do PL, mas não conseguiu se
eleger. Até o início de 2024, era cotado para se candidatar a prefeito pelo PL
e considerado bem competitivo, num município altamente permeável ao
bolsonarismo.
Mas, em fevereiro daquele ano, anunciou a decisão de se
desfiliar do PL, não ser candidato a nada e voltar ao seminário para se ordenar
padre. Ao expor seus motivos, queixou-se da condução do partido por Magno e da
estratégia eleitoral ditada pelo senador, que o impedia de se coligar com
outras siglas (até de direita). Desentendeu-se também com Callegari, influente
na mesma região.
Mas a decisão durou pouco: Juninho logo desistiu de desistir.
Em vez de voltar para o seminário, filiou-se ao Novo e foi candidato a
vice-prefeito do veteraníssimo Theodorico Ferraço (PP). A chapa foi vitoriosa. Juninho
já até assumiu a Prefeitura de Cachoeiro por um período no lugar de Ferraço,
durante licença do prefeito para tratar de questões de saúde.
Para governador, apoia Ricardo, filho de Theodorico.
Gilvan foi condenado em três instâncias da Justiça Eleitoral por violência
política contra mulher, o que o tornou inelegível.
Assumção não pagou multas aplicadas contra ele pela Justiça
Eleitoral – uma delas, de R$ 15 mil, por ter divulgado e impulsionado conteúdo
considerado calunioso e difamatório contra Pazolini na disputa
pela Prefeitura de Vitória em 2024. Seu advogado, Fernando Dilen, disse à
reportagem de A Gazeta que ele recorrerá ao próprio TRE-ES.
Armandinho foi condenado por falsidade ideológica no TJES,
mas conseguiu uma liminar que suspende sua inelegibilidade, dada pelo desembargador
Fernando Zardini, e recorre ao TRE-ES, que ainda não julgou o recurso.
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