O presidente disse ao seu público o que faria caso encontrasse algum caso de corrupção em seu governo. "Se acontecer alguma coisa, a gente bota para correr, dá uma voadora no pescoço dele. Mas não acredito que haja no meu governo", disse Bolsonaro no dia 14 de outubro do ano passado, quando indagado sobre a ação da Polícia Federal na apreensão do dinheiro entre as nádegas do então vice-líder do governo em ação sobre Covid.
Em conversa com apoiadores na entrada do Palácio da Alvorada, o presidente tocou no assunto ao informar sobre a operação em Roraima. "Ah, acabou a Lava Jato, pessoal? A PF está lá em Roraima hoje. Para mim não tem. No meu governo, não tem porque botarmos gente lá comprometida com a honestidade, com o futuro do Brasil", disse Bolsonaro, fazendo alusão ao discurso que fez no Palácio do Planalto em 7 de outubro.
Faço questão de iniciar o artigo de hoje trazendo esses recortes de aspas do Presidente da República um dia após as investigações da imprensa em torno do servidor do governo no Ministério da Saúde, que exigiu propina em contrato de vacina. A cada semana somos surpreendidos por um novo capítulo da novela “o mito Jair Bolsonaro”.
Em meio a uma crise sanitária que produziu mais de 500 mil mortes, parece termos ainda uma crise de corrupção. Lembrar das falas do presidente e seu comportamento paralelo às linhas e vírgulas revelam que a corrupção é um vírus que contamina e que gera uma pandemia com mortes de esperança, de credibilidade e de honestidade.
Nas redes sociais, já há quem defenda que a vacina para exterminar esse vírus seja o impeachment. Chegamos a um governo insustentável, ao que parece. Insustentável porque não é capaz de sustentar o que prega nem tampouco como age, contudo, já usamos a vacina do impeachment com Dilma, quase usamos com o Temer e continuamos na berlinda da corrupção.
A proposta de hoje é refletir para ir além. Arrancar esperança de onde não há e compreender que o maior mito é a nossa capacidade de transformação empírica, ideológica e racional com a política. É tempo de ir além. Um impeachment elimina um vírus, mas não erradica a pandemia da corrupção. Como bem sabemos, o vírus se prolifera, contamina, se espalha. Por ora, enquanto não nos imunizarmos com compreensão política, não produziremos anticorpos sociais, continuaremos a viver entre propinas e vacinas, entre propinas e educação, entre propinas e uma infinidade.
Entre vacinas e propinas, eis nós, brasileiros, à mercê de tempos novos.