Estamos acompanhando a cada dia ou semana uma nova pesquisa eleitoral que revela o cenário espontâneo e estimulado da corrida presidencial. Para uns, pesquisa eleitoral significa termômetro e só isso. Para outros, uma ressonância; para outros, um guia. Até outubro, veremos muitas e muitas pesquisas eleitorais. Elas são ferramentas para rejeitados e indecisos.
É evidente que estamos em um cenário polarizado. A impressão que temos é que um cabo de guerra está posto: há um grupo puxando para um lado e outro grupo puxando para o outro e, no meio, temos candidatos ensaiando e tentando se identificar com a chamada terceira via.
Faço questão de chamar a atenção para a palavra “identificação”. Tanto no processo comunicacional, quanto no processo eleitoral (ambos são congruentes nesse caso), o que precisa haver é uma identificação, que pode ser ideológica, linguística, de personalidade ou de demanda. Todos que ensaiam e ensaiaram (pelo menos a partir da pesquisa) fracassaram. De fato, quem sem apresenta não é objeto de identificação com esse público, que é grande, expressivo e ousado.
A todo momento, quando se fala em terceira via, se fala a partir de um candidato, mas e a partir das pessoas? Quem é esse grupo? O que ele deseja? O que ele pensa? O que ele sugere como condicionante para escolha? A única coisa que se sabe é que ele não é simpatizante dessa onda de Lula e Bolsonaro. Sabemos o que ele não digere, mas será que sabemos o que ele espera? Estamos chegando ao final de um outro processo eleitoral com a terceira via fracassada por um fracasso no processo político do Estado brasileiro.
Anteriormente, usei outra palavra para qual chamo a atenção: condicionantes. Será que os candidatos do tabuleiro dão conta delas? Por fantasia, poderíamos pensar: eles podem exigir uma “nova política” que arrebenta privilégios, quebra paradigmas e propõe com ousadia menos vantagens e menos “sacanagens”. E só de pensar nisso, muitos não dão conta e elas não saem do ensaio.
Chegamos a 2022 com um vazio de liderança. A política da escuta, da sensibilidade, da abertura, fracassou de novo. Líder não é alguém que surge, mas alguém que se constrói. Quem estamos construindo para nos representar? Toda boa liderança política é feita dos desejos, dos anseios, das necessidades de uma cultura e sociedade, não é à toa que ele vai existir para representar. Representar os problemas, os desafios, os sonhos. E para representar (ou antes de representar) tanto o líder quanto o povo precisa se identificar. E identidade é justamente o que perdemos na e da política.
Ao Brasil restam três coisas: o cabo de guerra, o vazio de lideranças e a esperança de que estamos no fundo do poço. Mas, perto do fim, muitas coisas começam!