Não é preciso ser especialista em campanhas eleitorais para perceber que a terceira via – aquela que se propõe a romper a polarização entre Lula e Bolsonaro – precisará, para ter sucesso nas eleições, construir uma ligação direta com o eleitor que contorne os obstáculos criados pelo atual quadro partidário. Isso pode não ser fácil, mas é plenamente possível considerando a fragilidade e fragmentação dos nossos partidos políticos que não são considerados representativos pela maioria do eleitorado.
Quando dizemos “terceira via” estamos nos referindo aos pré-candidatos, exceto Lula e Bolsonaro, que deverão ter seus nomes, salvo surpresas, homologados pelas convenções partidárias que serão realizadas entre 20 de julho e 5 de agosto. Entre esses nomes estão os de Sergio Moro, Ciro Gomes, João Doria, Simone Tebet e Rodrigo Maia, entre outros.
Moro, por exemplo, tem o apoio irrestrito de figuras expressivas do Podemos como o da presidente Renata Abreu e dos senadores Alvaro Dias e Marcos do Val, mas parte do partido trabalha para que a verba do fundo partidário seja direcionada, prioritariamente, às candidaturas a deputado federal, o que prejudicaria a campanha à presidência da República.
A frieza com que o deputado Marcelo Santos, do Podemos, se referiu à candidatura Moro no “Papo de Colunista” de A Gazeta, no último dia 9 – quando fez longos elogios a Lula – faz acreditar que se Moro depender unicamente da estrutura do seu partido para se eleger dificilmente será bem-sucedido.
Ciro Gomes enfrenta dificuldades semelhantes com o seu partido, o PDT, tendo até ameaçado renunciar à candidatura em novembro quando a maioria da bancada pedetista na Câmara Federal votou a favor da PEC que adiou o pagamento dos precatórios, contrariando a sua orientação. Além disso, o PDT tem notórias dificuldades de se manter unido em torno de Ciro quando seus candidatos a governador decidem abrir palanques também para Lula, como no Rio, Maranhão e Sergipe.
Doria também enfrenta o “fogo amigo” de facções dissidentes do PSDB que foram por ele derrotadas nas prévias realizadas em novembro. Eduardo Leite, Aécio Neves, Tasso Jereissati e José Aníbal são alguns dos dissidentes que se reuniram – em um jantar a que Doria chamou de “jantar dos derrotados” – para cogitar desembarcar da candidatura do governador de São Paulo e apoiar um outro candidato.
Quanto a Simone Tebet e Rodrigo Maia, os baixos índices alcançados nas pesquisas de intenção de voto até agora realizadas sinalizam grandes dificuldades de decolagem de suas candidaturas, a ponto de seus partidos – o MDB e o PSD – cogitarem abertamente fechar acordos com outras agremiações. Basta lembrar dois nomes de presidenciáveis que também foram abandonados no meio do caminho pelos seus partidos, como Luiz Henrique Mandetta, do DEM, e João Amoêdo, do Novo.
Dessa forma, para tentar obter os votos do eleitorado “nem-nem” – nem Lula, nem Bolsonaro, que chega a 30%, segundo as mais recentes pesquisas – os candidatos da chamada terceira via devem privilegiar um discurso direto com os eleitores deixando eventuais composições partidárias, se for o caso, para um momento mais próximo das convenções.
Até porque as ridículas votações de Alckmin em 2018 e Ulysses Guimarães em 1989 comprovam que ser candidato de um grande partido nem sempre resulta em votos. E mais: a terceira via só terá chances reais de chegar a um segundo turno se conseguir se unir em torno de um único nome escolhido entre os que tenham maior apoio do eleitorado na reta final da campanha.