Semana passada, uma declaração do ex-presidente da Anvisa Gonzalo Vecina, em entrevista a BBC, conseguiu ilustrar bem a linha do tempo nesses quase dois anos de enfrentamento do vírus da Covid-19: “No Brasil estamos vivendo uma mistura de pandemia com pandemônio”, afirmou.
E, de fato, folheando jornais, acessando noticiários ou ainda ligando a tela da TV, vendo as redes sociais e a realidade do Brasil de fato, não podemos ser indiferentes a tudo que estamos ouvindo e escutando. A pandemia escancarou o pandemônio de um governo e, ao mesmo tempo, um pandemônio ideológico, súbito e, por sinal, intragável.
Se pesquisarmos um pouco mais a fundo, veremos que a etimologia de pandemonium tem origem inglesa e literária. Segundo informações da CULT – Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, descreve-se que o poeta John Milton, no poema épico “Paraíso perdido”, de 1667, concebeu a dita expressão para nomear o “centro gestor do inferno”.
Ele importou as palavras termos gregas “pan” (tudo, todos) e “daimon” (divindade menor, demônio). Pandemonium era o palácio em que se reuniam os demônios sob a presidência de Satã. No século XIX, o sentido do termo mudou para “confusão selvagem”. Hoje, em uso corrente, virou sinônimo de “bagunça, caos, desordem”. Antonio Houaiss dicionariza que pandemônio pode ser empregado como associação de pessoas para praticar o mal.
As definições ao redor de uma palavra parecem evocar um cenário real e tangente do que estamos vivendo. Não se trata de um conceito literário, mas de uma realidade nua e crua, eu diria mais: “à flor da pele” que se encarrega de provocar crises em tudo e em todos.
Seguindo esse raciocínio, eu rolava o feed de uma rede social, semana passada, e uma frase muito significativa aparecia: “Às vezes precisamos criar alardes sobre 'crimes alheios' para silenciar os nossos” (Fábio de Melo). Uma frase que pode fazer muito sentido para o contexto "pandemônico" que estamos experimentando. Temos um governo mestre em gerar crises (em vez de gerenciá-las) porque, assim, esconde as dele.
Vendo um retrato do todo, das crises e debilidades, o que esperar do Brasil? Essa é a pergunta. O que nos aguarda? Pousa sobre nós um grande medo em função de uma ameaça à democracia. Pousam outros medos, outros sentimentos que por ora não têm nome, portanto, não têm identidade. Dizia um pensador (desconhecido) que “as perguntas nos salvam, já as respostas...”. Parece ser o tempo de elaborarmos perguntas, perguntas que nos façam questionar o pandemônio que estamos vivendo.
No ano que vem, esperamos ter chance e ter perspectiva de “terra prometida”. As perguntas podem equivaler à travessia do deserto. E, juntos, sairemos dessa escravidão pandemônica lideradas por faraós negacionistas, arbitrários e vazios. Do contrário, pereceremos na terra onde corre sangue e mirra.