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Vilmara Fernandes

Após cinco décadas, advogados apontam sumiço de documentos do Caso Araceli

Constatação foi feita em duas consultas ao processo, nas versões digital e física; entre as peças que faltam, estão as que tratam da extinção da ação penal

Publicado em 13 de Julho de 2026 às 03:30

Públicado em 

13 jul 2026 às 03:30
Vilmara Fernandes

Colunista

Vilmara Fernandes

Caso Araceli
Arte - Camilly Napoleão com Adobe Firefly

Mais de 50 anos após o assassinato de Araceli Cabrera Crespo, aos 8 anos, advogados identificaram o desaparecimento de documentos do processo, incluindo as sentenças de finalização do caso. O sumiço traz de volta ao debate um dos crimes mais marcantes da história do Espírito Santo.


A descoberta foi feita pelos advogados de defesa de William Santos Monzoli, acusado de matar Dante Brito Michelini em janeiro deste ano. No passado, a vítima chegou a ser acusada de participar do assassinato da menina (1973), mas acabou absolvida, junto com os outros acusados, pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES).


A consulta ao caso histórico decorre do depoimento de William à polícia, onde afirmou ter matado Dante após receber informações de que ele seria um “estuprador de criança e com uma rua com seu nome”.


“No nosso entender, ele cometeu o crime impelido por motivo de justiça. Em função disso, decidimos consultar o processo do Caso Araceli para entender as conexões entre os casos”, relatou o advogado Fernando Colombi da Silva, que atua na defesa em parceria com Vanderson Leocádio Américo.


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A primeira consulta foi à versão digital, onde identificaram a ausência de alguns documentos e até de volumes, por esse motivo, os advogados decidiram analisar o processo físico. Para isso, foi preciso uma autorização do Tribunal, por se tratar de um processo histórico e já arquivado. 


No entanto, a ida ao arquivo surpreendeu os advogados. Dois volumes do processo foram localizados, mas o mesmo não aconteceu algumas manifestações, recursos e decisões. “No nosso entender, são peças fundamentais à compreensão dos fundamentos jurídicos que levaram ao encerramento definitivo da ação penal dos acusados pela morte de Araceli. A ausência dos documentos deixam dúvidas, como por exemplo, os recursos foram analisados? A absolvição foi mantida, foi declarada a prescrição?”


Para os representantes de William, a recomposição é necessária não só para garantir a integridade do processo histórico, mas para garantir também o exercício pleno da defesa de seu cliente.


Foi identificada a ausência das seguintes peças:


  • Recurso apresentado pelo Ministério Público contra a sentença que absolveu os acusados pelo crime

  • As contrarrazões apresentadas pelas defesas dos acusados

  • O parecer da Procuradoria de Justiça

  • O acórdão (decisão final) que julgou  a apelação do Ministério Público

  • A decisão que extinguiu o processo

  • A certidão de trânsito em julgado (quando a decisão se torna definitiva)


Diante do cenário, os advogados enviaram um ofício à 3ª Vara Criminal de Vitória e à presidência do Tribunal de Justiça do Estado (TJES) comunicando a situação. Eles observam que a ausência de peças-chave compromete o exercício da ampla defesa e a própria integridade da memória histórica capixaba.


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Memória em risco


Além do desaparecimento de documentos, a petição destaca a precariedade da digitalização do material existente. Colombi e Américo relataram que diversos registros fotográficos e dois volumes de apensos, compostos por recortes de jornais da época, estão "praticamente inviabilizados para consulta".


Segundo eles, as imagens apresentam baixa resolução, escurecimento excessivo e distorções que impedem a identificação de elementos de prova e a leitura de reportagens históricas.


"O Caso Araceli transcende os limites de um processo criminal comum; trata-se de um patrimônio documental para pesquisadores, historiadores e para a sociedade", afirmam os advogados no pedido de redigitalização integral do acervo.


No ofício encaminhado à corte estadual, eles solicitam ainda a recuperação das peças perdidas e a restauração do processo, com urgência, considerando o impacto que terá na defesa de William.


O que diz o TJES


Em nota, o Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) informou que o acesso aos dados do processo foi devidamente liberado aos advogados habilitados. No entanto, o órgão ressaltou que, até o momento, "não há qualquer manifestação ou decisão judicial que reconheça a ocorrência" da ausência das referidas peças processuais.


O TJES esclareceu, ainda, que qualquer decisão sobre o caso será tomada exclusivamente dentro do processo, após a análise formal dos elementos apresentados, prezando pelos princípios da publicidade e transparência.


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Vilmara Fernandes

É jornalista de A Gazeta desde 1996. Antes atuou em A Tribuna. Foi repórter nas editorias de Política, Cidades e Pauta. Foi Editora de Pauta e Chefe de Reportagem. Desde 2007, atua como repórter especial com foco em matérias investigativas em diversas áreas.

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