É impossível não relacionar os ataques violentos às escolas no Brasil com o contexto social vinculado à escalada do extremismo de direita, à ausência de responsabilização dos discursos de ódio e à propagação de práticas fascistas por meios digitais.
O Brasil que não convivia com essa realidade até a primeira década dos anos 2000, passou a sofrer com esses ataques, num total de 16, dos quais 4 deles foram somente no segundo semestre do ano passado, com um saldo de 35 vítimas fatais e 72 feridos. Infelizmente, um desses ataques ocorreu em terras capixabas, do dia 25 de novembro de 2022.
Compreender como uma pessoa invade um espaço comunitário de produção de conhecimento e formação humana e de forma cruel elimina pessoas é tarefa dificílima, mas necessária para enfrentarmos a nossa atual realidade.
O ano de 2023, que já acumula ataques da mesma natureza, sendo o último deles em Blumenau, agudiza mais ainda a nossa incredulidade no que, enquanto sociedade, plantamos ou deixamos brotar, que agora parece incontrolável, pelo grau de crueldade que consiste em matar crianças à machadada.
Devemos utilizar os termos adequados para essas tragédias anunciadas. O termo “extremismo de direita”, além de ser o indicado pela literatura especializada e pela Organização das Nações Unidas, traz a definição de um fenômeno ancorado na concepção de que a extrema-direita fundamenta-se em perspectivas políticas que incluem a defesa de um pensamento deturpado de “lei e ordem”, da justificação do abuso da força policial como solução estrutural para “o problema de violência”, do antiparlamentarismo, do antipluralismo, da perseguição a qualquer pensamento de esquerda, do racismo, da misoginia e da xenofobia, como bem pontuou o relatório “O extremismo de direita entre adolescentes e jovens no Brasil: ataques às escolas e alternativas para a ação governamental”.
Algumas ações para enfrentar essas situações que trazem marcas permanentes à vida das pessoas, e passam a integrar o legado de uma sociedade, consistem em uma conjugação de esforços. A prevenção e o impedimento de ataques às escolas têm como centralidade a adoção de ações extra e interescolares, por meio de um trabalho intersetorial. Augura-se por uma campanha ampla de denúncia à cooptação dos jovens por grupos de extrema direita, considerando-se que afeta o desenvolvimento destes e da sociedade. E mais, prestarmos mais atenção aos adolescentes e jovens que estão dentro de nossas casas, muitas vezes, trancados em um quarto.
Perceber que o processo de cooptação pela extrema-direita se dá por meio de interações virtuais, em que o adolescente ou jovem é exposto com frequência ao conteúdo extremista difundido em aplicativos de mensagens, jogos, fóruns de discussão e redes sociais, eis o primeiro passo para enfrentar esse mal da contemporaneidade.
Além disso, profissionais da educação devem participar de processos de formação continuada sobre a identificação de fatores psicológicos em adolescentes que apresentam vulnerabilidade à exposição de grupos de extrema-direita e seus métodos de cooptação. Ainda, são imprescindíveis ações de prevenção em uma abordagem psicológica, de acordo com o relatório supracitado.
A Noruega, desde 1997, põe em prática o Projeto EXIT, que significa SAÍDA em inglês. O projeto, considerado pela ONU como um dos mais eficazes, consiste em desvincular os jovens de grupos extremistas de direita, indicando outra saída, diferente daquela que acaba sendo a consequência irrefutável da participação desses grupos.
Compreender onde nos metemos e beber em experiências bem-sucedidas de outros países, desde que moduladas à nossa realidade, é a saída.