Em muitas casas de shows, boates, bares, entre outros locais de entretenimento, é comum mulheres terem franqueada a entrada de forma total ou parcial, e em alguns casos a bebida é gratuita por um período inicial da noite. Essas medidas são tidas como estratégias de marketing, com vistas a atrair os homens, considerando que se tiver mulheres em um ambiente de diversão, os homens são clientes certos. Infelizmente, esse pensamento raso é o predominante em nossa sociedade, pelo menos entre alguns que organizam os eventos.
A estratégia classificada como comercial vai além da propaganda e revela a sociedade machista, misógina e patriarcal que temos, pois, se a mulher não paga para entrar, ela se torna o produto.
São recorrentes os casos em que mulheres são abusadas sexualmente em ambientes de entretenimento, como se sua presença entorpecida pelo álcool nesses locais fosse o passaporte autorizativo para ser vilipendiada de todas as formas. Alguns casos mais famosos alcançam as páginas dos jornais, e por uma pressão acabam sendo apurados, mas a tendência não é a responsabilização. Esses casos não são tão raros, ocorrendo diariamente em todos os cantos, e a vítima é transformada em culpada.
A objetificação da mulher na sociedade mundial é uma prática que ainda está normalizada, a ponto de que, quando uma mulher tenta romper essa barreira, é criticada por homens que não querer perder o poder que pensam ter sobre os seus corpos, e ainda por algumas mulheres que, equivocadamente, enxergam nessas atitudes (entradas franqueadas, pagar meia e ganhar bebida) uma deferência ou uma gentileza, não percebendo que nesse momento são coisificadas.
Urge abdicar do posto de princesa que precisa ser bancada por um macho, e assumir o papel de protagonista de sua vida e vontade, pagando seus boletos, entradas e bebidas.
A luta pela igualdade de direitos de gênero tem a ver com os detalhes do cotidiano. O machismo está na estrutura social, e vez ou outra tentamos encobri-lo para não causar mal-estar, seja no trabalho, seja em família.
Homens e mulheres ainda não ocupam espaço de poder e decisão da mesma forma. Quando uma mulher ascende, vira destaque, pois não é comum. Mulheres ainda colocam suas vidas públicas em segundo plano, para criar os filhos para que os pais desses possam conquistar o mundo, sem se preocupar com a reunião de escola, com o uniforme limpo, com a comida no horário e com a febre no meio da noite. Afinal, quem mantém a casa tem direito ao descanso.
É assim. E somente vamos mudar isso quando essa lógica for revertida, ou seja, quando homens e mulheres ocuparem os mesmos lugares, na vida pública e privada. Quando ambos pagarem de forma igualitária as despesas de uma balada. O resto é cortesia para o estupro.