No Rap da Felicidade, Cidinho e Doca deixam claro que andar tranquilamente na favela onde nasceram, poder se orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar é a chave para a felicidade, do ponto de vista deles e a partir da expectativa de garantia de direitos.
A sentença que nos é apresentada com uma melodia oriunda da periferia tem condão anunciativo e nos dá pistas de que o alcance da felicidade, enquanto algo complexo, engloba vários aspectos da vida e está longe de ser obtido por meio de pensamento positivo, receitas de coaching ou meritocracia.
Os versos do rap trazem mais, considerando que denunciam toda uma situação de violação de direitos e ausência de reconhecimento, como pressuposto da não garantia de acesso a bens, serviços e oportunidade.
Primeiramente, é importante compreender que o que compõe o contexto de uma vida feliz passa pela compreensão das oscilações próprias do processo de viver, altos e baixos, que integram a existência humana. Ter acesso a bens e serviços básicos, na esteira da garantia de direitos fundamentais, encontra-se no cerne da questão. Fora disso, tudo o que alegarmos será falácia e produto para vender.
A ditadura da felicidade, ao tempo que comprime a existência humana em um movimento de cobrança perversa perene, fomenta um mercado que lucra com isso, utilizando de discursos e estratégias, cruéis, que acabam por convencer a grande maioria das pessoas de que ser feliz é uma escolha pessoal e algo que depende única e exclusivamente de cada um de nós.
Uma farmácia em cada esquina, a necessidade em exibir nas redes sociais as vitórias plastificadas e a enxurrada de livros/palestras de autoajuda são a representação dessa questão, que é filha-legado da sociedade individualista e meritocrata que construímos.
Edgar Cabanas e Eva Illouz se propuseram a enfrentar essa questão no ensaio "Happycracia", em que dissecam os argumentos, falaciosos, que são manuseados pela “ciência da felicidade”. Segundo eles, são argumentos que ignoram as questões sociais, culturais, históricas, morais, políticas e econômicas, e apresentam as teses em aparência objetiva.
A felicidade é um direito que se encontra expresso no arcabouço normativo enquanto o direito à igualdade, que pode ser compreendido como proteção social, alimentação, educação, saúde, moradia, renda, trabalho, cultura e lazer.
O dia 20 de março, desde 2013, foi instituído pela ONU como o Dia Internacional da Felicidade, com o objetivo de se reconhecer a relevância da felicidade e bem-estar como aspirações de todas as pessoas e a sua imprescindível inclusão nas políticas de governo, que devem garantir a efetivação dos Direitos Fundamentais e, assim, realização dos Direitos Humanos.
Parafraseando Bertolt Brecht, primeiro é preciso comer, depois ser feliz. Pois ao contrário do que se vende e aliena, não basta abrir uma Coca-Cola para ser feliz. Felicidade é muito mais, e pressupõe garantia de qualidade de vida e respeito aos Direitos Fundamentais para todos e todas, pois somente assim poder-se-á caminhar tranquilamente na favela onde se nasceu e se ter consciência do lugar que ocupa.