O dia 25 de maio de 2022 ficará marcado, como outros tantos, por dois episódios em que mais de 30 pessoas, entre elas a maioria jovens, foram abatidas, como consequência de uma escolha de política que conta com aprovação de grande parte da sociedade.
Um dos episódios, considerado como chacina, aconteceu na área sul da América, na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil, em que 24 pessoas foram assassinadas em decorrência de uma operação policial. Ressalte-se que há anos se repetem os mesmos passos e culminam nos mesmos resultados. Portanto, não se trata de incidente, mas de uma escolha.
O outro episódio aconteceu no mesmo dia, na área norte da América, no Texas, nos EUA, quando um jovem invadiu uma escola e promoveu um tiroteio que assassinou 19 pessoas, na maioria jovens e crianças.
Coincidência ou não, ambos episódios já estão sendo considerados os mais sangrentos em seus locais e dentro de suas realidades, concomitantemente, e guardam alguns pontos de intersecção importantes de observar-se.
Diante de dois episódios tão dolorosos, impossível não pensar que se trata de uma escolha política de um Estado que elege o abate como a forma de eliminar a juventude. Curioso se pensar que tantos esforços se envidam para salvar a infância, mas quando alcançam a juventude, a política pública destinada a esses sujeitos de direitos em desenvolvimento é a decretação e operacionalização da sua morte, em grande escala e com mídia e narrativas falaciosas, que os elegem inimigos da sociedade.
Na centralidade dos dois episódios estão a arma e o jovem. Definitivamente um binômio inadequado, considerando todas as nuances e complexidades que residem nessas duas categorias, mas que infelizmente têm sido cada vez mais comum e normal. As chacinas ocorridas no Rio de Janeiro em decorrência de operações policiais desastrosas e os ataques com arma de fogo protagonizados por jovens norte-americanos em escolas, lamentavelmente, têm se cristalizado, adquirindo um espectro de normalidade.
No Brasil o uso letal da força de forma afastada dos procedimentos de inteligência e contra-inteligência acaba por culminar em operações letais e desastrosas, em que a vida humana é descartável e matável. As formas escolhidas pelo Estado elegem o inimigo e ataca nas consequências, esquecendo-se que o próprio Estado não foi capaz de tratar as causas que se encontram na raiz da violência. Vale lembrar que as raízes da violência não se encontram na periferia pobre, esta suporta suas consequências.
No caso dos EUA, a escolha por facilitar o acesso às armas, que se tenta imitar no Brasil, e ainda a forma como se apresenta a anatomia de uma sociedade, majoritariamente, consumista e superficial, se constitui como a antessala para episódios lamentáveis, que mantêm padrão já, de certa forma, incorporados ao cotidiano na parte norte do continente americano.
A grande questão é porque se mantêm as mesmas políticas de enfrentamento da violência e de armamento da população, se o resultado é sempre a morte de muitas pessoas e a inevitável interrupção de vidas e histórias. A política do abate se constitui nesse detalhe, qual seja, a decisão do Estado em manter ações e decisões, mesmo consciente de que a vida de muitas pessoas é atingida de forma irreversível e nefasta.
Não é uma tragédia episódica, mas uma escolha estratégica.